A Misteriosa Chama da Rainha Loana – ABEQ

Olá, leitoras e leitores.

A Misteriosa Chama da Rainha Loana é o título de um livro de 2004, escrito por Umberto Eco, que conta a história de um homem em 1991 que depois de um acidente vascular cerebral lembra, mais ou menos, quem é, mas esquece a sua história.

Seu estranhamento com as ruas de Milão, onde vive, o faz perceber que tem alguma memória do passado e, assim, se refugia na casa da família no interior da Itália em busca de sua memória/história.

Revendo, fotos, histórias em quadrinhos, cartazes de filmes, propaganda política da época de sua infância, o narrador-personagem vai se lembrando de sua vida durante o fascismo e a Segunda Guerra.

O culto a Mussolini e a violência dos camisas negras, o medo espalhado entre os cidadãos, a mistura de anarquismo, catolicismo e comunismo formando a cultura italiana da época, a guerra destruindo a economia e a agricultura, a escassez dos alimentos.

O grande personagem do livro é a Memória pessoal ou coletiva, de que precisamos para lembrar como chegamos até aqui, e para onde não podemos ir, ou voltar.

Vivemos dias turbulentos – guerra, inflação, eleição, mudanças climáticas, pandemia.

Parece natural a sensação de decadência geral e irrestrita, ao notarmos que o mundo como conhecemos está se desfazendo.

Então, talvez seja bom diminuirmos o foco no cotidiano e lembrar de onde viemos. Esquecemos como evoluímos tanto em tão pouco tempo – as dificuldades cotidianas de 40, 60 anos atrás. A renda per capita do Brasil hoje é mais de seis vezes a de 1940.

A escolaridade média em anos de estudo era três anos em 1940, e hoje está em torno de dez. Em 1960, menos de 10% das pessoas concluíam o ensino fundamental.

Mesmo nos países ricos qualidade de vida uma década atrás era muito ruim se comparada à atual.

Já escrevi neste espaço sobre a revolução causada pelas produções industriais de amônia (1913) e penicilina (1943).

Pelo menos metade de nós não existiria sem ureia ou antibióticos. O problema de esquecermos como chegamos até aqui é que corremos o risco de perder o que conquistamos como sociedade.

Lembrei tudo isso porque em 27 de maio, uma sexta-feira, não encontrei azitromicina em suspensão em nenhuma farmácia de São Carlos-SP e tive de correr atrás do pediatra para trocar a receita do meu filho para cefalexina, que ainda estava disponível em algumas farmácias.

A infecção que causava dor de ouvido no menino foi controlada, mas eu senti na pele o que vem sendo notícia há algum tempo.

Desabastecimento prolongado de insumos farmacêuticos ativos (IFA) tem sido notícia desde o começo do ano, e atinge desde produtos básicos, como dipirona e antibióticos, a fármacos especializados.

Secretarias de Saúde e entidades do setor relataram problemas no fornecimento pelo Ministério da Saúde e dificuldades de importação de insumos, por causa do lockdown na China e da guerra na Ucrânia, que afetaram a cadeia de fornecimento.

Também farmácias e centros médicos, públicos e particulares, relataram a escassez de medicamentos.

Química e Derivados -
André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

O problema é especialmente crítico para pacientes com doenças autoimunes como lúpus e doença de Crohn.

A falta de IFA também tem sido comum nos EUA. Lá, com órgãos de Estado mais bem estruturados, a falta de medicamentos é monitorada há algum tempo.

Ficou pior com o stress nas cadeias de suprimento globais causado pela pandemia de Covid-19, mas de 2013 a 2017, foram analisados 163 medicamentos que entraram em desabastecimento e comparados com similares sem desabastecimento.

Muitos desabastecimentos começaram devido à descontinuação de produtos por motivos comerciais, como baixo preço de medicamentos e decisões empresariais.

A FDA (Food and Drug Administration, agência norte-americana similar à Anvisa) se empenhou contra a escassez de medicamentos, tomando ações como: trabalhar com a indústria para resolver problemas de fabricação para permitir que os medicamentos retornem ao mercado; acelerar seu processo de revisão para que novos fabricantes possam fornecer os produtos necessários o mais rápido possível; ajudar os fabricantes a obter novas fontes de matéria-prima; acelerar a revisão das linhas de fabricação farmacêutica; estender as datas de validade se os dados farmacêuticos puderem confirmar a segurança e a eficácia; adquirir medicamentos críticos de fábricas estrangeiras que atendam aos seus padrões de qualidade.

Contudo, a FDA é uma autoridade reguladora do governo norte-americano que pode instituir regras para lidar com medicamentos em falta, mas não pode forçar um fabricante a fornecer um medicamento que tenha decidido parar de fabricar.

Um fabricante pode simplesmente parar de fabricar um medicamento devido à baixa demanda do consumidor, aumento dos custos associados à produção ou uma decisão comercial de mudar para novas áreas terapêuticas.

A caducidade de patentes e o advento de genéricos de baixo custo também podem afetar muito a decisão de um fabricante de continuar produzindo um medicamento de marca.

A FDA não pode exigir que uma empresa farmacêutica produza qualquer droga, mesmo que seja uma droga de alta demanda, aumente a produção de um medicamento, ou altere a quantidade e para quem o medicamento é distribuído.

No entanto, os fabricantes são obrigados a relatar informações sobre escassez à FDA, incluindo os motivos e a duração prevista para a ocorrência.

Há atualmente 258 medicamentos em falta nos EUA, que vão de cloreto de sódio ou glicose injetáveis a antibióticos, insulina e imunoglobulina.

Em 2019, a FDA relatou ao Congresso que 88% dos IFA consumidos nos EUA eram importados.

O problema estrutural motivou o então governo Trump, em meados de 2020, no início da pandemia de Covid-19, a assinar um contrato de fornecimento de medicamentos genéricos com a Phlow Pharmaceutics. Contudo, há indícios de que políticos e lobistas se aproveitaram do contexto.

O contrato do governo dos EUA com a Phlow previa a construção de uma fábrica de IFA em quatro anos e, no meio tempo, a empresa passou a fornecer medicamentos produzidos com IFA da empresa alemã Frasenius Kabi.

Ou seja, nada muito diferente do que já havia.

Apesar disso, a Phlow recebeu 354 milhões de dólares do governo Trump e mais 87 milhões do governo Biden. Os acordos preveem que a empresa deve construir capacidade para produzir as IFA, e estabelecer um estoque estratégico a granel dessas substâncias para o governo.

Pode-se duvidar da efetividade das medidas adotadas pelo governo norte-americano, mas há o reconhecimento por lá de que a falta de capacidade de produzir IFA cria um problema de segurança para os EUA.

Especialistas por lá sugerem que o governo deveria incentivar e investir em fábricas já existentes, mas fora de produção, para retomar a produção de IFA.

Alguns medicamentos genéricos são vendidos por tão pouco que os produtores param de produzi-los porque não são suficientemente lucrativos.

Em outros casos, resta apenas um fabricante de genéricos produzindo, o que limita a oferta e leva a picos de preços.

Ou seja, o problema não se resolve sem alguma regulação governamental. E o problema é mundial (Tabela).

No início da Covid-19, embora ainda houvesse muitas incertezas sobre a doença, houve um aumento imediato na demanda por vários IFA, especialmente antibióticos e outros produtos relacionados à anestesia para permitir a intubação de pessoas em respiradores.

Ficou claro que as matérias-primas, intermediários e IFA acabado para esses produtos eram adquiridos e fabricados quase exclusivamente no Extremo Oriente.

Os governos perceberam esse risco de segurança associado a ser tão dependente de ingredientes estrangeiros que priorizaram entender as implicações de repatriar o fornecimento de API.

Além do investimento de centenas de milhões de dólares já mencionado do governo dos EUA para ajudar a fabricar produtos químicos farmacêuticos localmente, na Índia, a partir da percepção de que aproximadamente 90% dos IFA usados para fabricar antibióticos eram importados, o governo começou a implementar agressivamente uma política para aumentar a produção local.

Na Europa, iniciaram-se consultas sobre a possibilidade de realocar a fabricação de IFA de volta para a UE. No final de março de 2022, o governo francês anunciou que está preparado para comprar 12% de uma empresa francesa de fabricação de IFA quando for listada publicamente no final do ano.

Um movimento como esse apoiará a soberania do país no domínio crítico dos produtos farmacêuticos. Todas essas iniciativas custam grandes somas de dinheiro e levam anos para ser implementadas, de modo que os efeitos de longo prazo ainda não foram vistos.

Tabela: Países produtores de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFA)

 

A Misteriosa Chama da Rainha Loana - ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto
Tabela: Países produtores de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFA)

 

Não é só IFA o problema dos EUA, mas combustíveis.

Apesar de ser hoje autossuficiente em petróleo, os EUA têm enfrentado preços recordes de gasolina, tarifas aéreas mais altas e até temor de racionamento de diesel porque há hoje por lá poucas refinarias transformando petróleo em combustíveis utilizáveis.

Os fatores que alimentam a escassez de refino são o fechamento permanente de algumas plantas de processamento de petróleo menos lucrativas a partir do desaparecimento da demanda por gasolina e combustível de aviação no auge da pandemia.

Algumas dessas plantas foram afetadas por incêndios, explosões e furacões e eram muito caras para consertar, especialmente porque uma eventual transição para uma energia mais limpa torna seu modelo de negócios de longo prazo não lucrativo e as torna menos propensas a atrair compradores.

Até o final de 2023, os EUA terão menos 1,69 milhão de barris de capacidade de refino de petróleo em comparação com os níveis de 2019.

Enquanto muitas refinarias sediadas no Ocidente reduziram suas produções, as refinarias de petróleo da China avançam com a expansão da capacidade. Quatro projetos de refinarias chinesas em desenvolvimento podem representar mais do que toda a capacidade do Reino Unido.

A Rainha Loana – O Brasil tem 38 empresas filiadas à Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), mas somente 12 delas classificadas pela própria associação como fabricantes.

Ainda, segundo a Abiquifi, “atualmente, o país produz apenas 5% dos insumos utilizados na fabricação de medicamentos no país, mas já foi capaz de elaborar cerca de 50%, na década de 1980”, e seriam “necessários US$ 1 bilhão em investimentos para ampliar a capacidade nacional de produção da IFA para cerca de 20%, dentro de cinco a dez anos”.

A minuta do Plano Decenal de Expansão de Energia 2031 (PDE 2031) do Ministério de Minas e Energia, lançado em 24 de janeiro deste ano, indica que a capacidade nominal de refino de petróleo do Brasil é de 2,4 milhões de barris por dia, sendo o 9º maior do mundo.

Contudo o PDE 2031 prevê que os investimentos em refino nos próximos 10 anos serão destinados à adequação das refinarias ao tratamento de petróleo com baixo teor de enxofre proveniente do pré-sal, e que a nossa capacidade de refino ficará estagnada abaixo de 2,5 milhões de barris por dia.

No mesmo período, a produção de petróleo deve chegar a 4 milhões de barris por dia. O plano menciona duas vezes a palavra biorrefinaria, limitada à produção de biocombustíveis.

O Plano Nacional de Fertilizantes lançado em novembro de 2021 descreve metas e ações, para serem implantadas entre 2022 e 2050, inclusive em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I), para diminuir a dependência do Brasil de fertilizantes importados.

É importante lembrar que houve o lançamento de um Plano Nacional de Fertilizantes em 2010 que nunca chegou a ser implantado.

No plano atual, há somente duas referências ao hidrogênio verde, entre as metas de P,D&I.

A Rainha Loana é uma personagem da série Tim Tyler’s Luck, criada por Lyman Young em 1928, e é a penúltima referência do personagem principal do livro que mencionei aqui na reconstrução do seu palácio da memória pessoal. Representa a memória mais profunda do personagem.

A Rainha Loana desta coluna poderia ser a Codetec.

A Codetec – Companhia de Desenvolvimento Tecnológico “nasceu, em 1976, de uma reunião na Universidade Estadual de Campinas, patrocinada pelo Ministério de Indústria e Comércio.

A reunião, convocada pelo professor Rogério Cesar Cerqueira Leite, se propunha a identificar meios de agilizar a criação de novos empreendimentos tecnológicos no setor privado, reconhecendo ser esse o principal mecanismo que leva à independência tecnológica de um país”.

A Codetec foi possivelmente a primeira incubadora do mundo e sua história inteira está contada em artigo (vide Referências), mas eu destaco aqui alguns pontos:

Na primeira fase da Codetec, entre 1976 e 1984:

• Na Codetec foi gestada a Termoquip, empresa que atuava na área de produção de energia a partir da gaseificação de biomassa e pelo menos dez empresas que atuaram na área de energia solar;

• Da Codetec surgiram a Nova Data, fabricante de computadores, e a Unilaser, primeira fabricante de laser nacional;

• A Codetec, por meio de contrato com a Cesp, passou a produzir hidrolisadores e instalá-los em indústrias químicas, o que permitia que estas comprassem hidrogênio e não eletricidade;

Na segunda fase da CODETEC, a partir de 1984:

• Foi desenvolvida uma tecnologia de produção de etanol a partir do bagaço de cana por hidrólise ácida.

• Foram produzidos equipamentos de hidrólise de bagaço por explosão a vapor com a finalidade de melhor aproveitamento do bagaço como alimento para gado;

• Desenvolveu, através de engenharia reversa, processos de produção de fármacos com patente expirada em plantas-piloto nas quais se chegou a empregar cerca de 300 funcionários e desenvolver 80 processos, dos quais cerca de 20 chegaram a ser comercializados por diferentes empresas nacionais.

Ou seja, há quase 50 anos o Brasil desenvolvia e implantava tecnologia de interesse para o mundo de 2022. Já soubemos como fazer. Por que esquecemos?

Referências

Anderson LA. U.S. Drug Shortages: Root Causes and Statistics. Drugs.com. Publicado em 08/02/22. Disponível em: https://www.drugs.com/drug-shortages/stats

Brasil, Ministério de Minas e Energia, Empresa de Pesquisa Energética Plano Decenal de Expansão de Energia 2031 / Ministério de Minas e Energia. Empresa de Pesquisa Energética. Brasília: MME/EPE, 2022

Brasil. Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos Plano Nacional de Fertilizantes 2050 (PNF 2050) Brasília: SAE, 2021.

DuPuis N. Why China Will be the World’s Largest Oil Refiner. Reuters. Publicado em 24/05/2021. Disponível em: https://www.reuters.com/article/sponsored/china-largest-refiner

Ferrari L. Falta de remédios: pacientes relatam dor, dificuldade de andar e peregrinação por farmácias . O Estado de São Paulo. Publicado em 03/05/22. Disponível em : . https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,falta-de-remedios-pacientes-relatam-dor-dificuldade-de-andar-e-peregrinacao-por-farmacias,70004055518

Freitas Jr G, Powell BJ, Xu C. The US Can’t Make Enough Fuel and There’s No Fix in Sight. Publicado em 13 de maio de 2022. Disponível em https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-05-13/gasoline-diesel-jet-fuel-refining-capacity-is-too-low-in-the-us-to-meet-demand

Leite, RCC. CODETEC – Companhia de Desenvolvimento Tecnológico. RBI, Rio de Janeiro (RJ), 7 (2), p.483-489, julho/dezembro 2008.

Rowland C. Trump backed a start-up to make drug ingredients on U.S. soil. Its new products rely on foreign supplies. The Washington Post. Publicado em 09/03/22. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/business/2022/03/09/drug-supply-chain-foreign/

Rudner J. Watch Out for these 2022 Trends in the API Industry. TEVA. Publicado em 27.03.2022. Disponível em https://www.teva-api.com/knowledge-center/watch-out-for-these-2022-trends-in-the-api-industry/

Tomazela JM, Okumura R. Hospitais e farmácias enfrentam falta de remédios; veja produtos com abastecimento irregular. O Estado de São Paulo. Publicado em 20/04/22. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,hospitais-e-farmacias-enfrentam-falta-de-remedios-sindicato-faz-alerta,70004043312

Tomazela JM. Falta de remédio é principal problema para 25% dos hospitais privados de SP; veja os medicamentos O Estado de São Paulo. Publicado em 18/05/2022. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,falta-remedio-hospitais-sao-paulo-medicamentos,70004069520

Texto: André Bernardo

Química e Derivados -

ABEQ

A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.
Mais informações: https://www.abeq.org.br/

O AUTOR

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: [email protected]

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