A indústria química brasileira e a geopolítica atual – ABEQ

4. E o Brasil?

A desindustrialização (precoce) do Brasil foi gestada há décadas. Da Lei de Informática do governo Sarney, aos subsídios em massa do governo Dilma, nossa estratégia sempre foi a de criar barreiras alfandegárias específicas para proteger determinada empresa ou produto nacional. Funcionou em termos, mas as indústrias não enfrentaram suas ineficiências e o país não sanou seus gargalos – impostos em cascata, educação precária, malha de transporte calamitosa, custo e disponibilidade de matérias-primas vergonhosos.

O remédio perdeu o efeito nos anos 2000. Com o boom no preço das commodities, provocado pela crescente demanda chinesa, nosso câmbio apreciou, nossa população ‘enricou’, e a nossa voracidade por bens de consumo foi de bom grado atendida por indústrias de fora, especialmente da China. Argentina e México, países economicamente similares, tiveram histórias parecidas.

Nossa indústria química tem déficit desde sempre, mas a partir de 2003 as importações se descolaram das exportações. O tamanho da indústria química nacional em relação ao PIB, que sempre cresceu, se estabilizou em 2004. O faturamento em dólares de 2018 foi praticamente igual ao de 2010.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP ©QD
André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

O Brasil se tornou, com muita competência, uma potência agrícola. Coincidentemente, os déficits da nossa indústria química são essencialmente insumos para fertilizantes. O caso de ureia é especialmente ilustrativo. A ureia é o principal fertilizante nitrogenado. No Brasil, seu único fabricante era a Petrobras, por meio das duas unidades da Fafen (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados), em Camaçari-BA e Aracaju-SE, e da Araucária Nitrogenados em Araucária-PR. Uma quarta fábrica estaria em construção em Campo Grande-MS, mas as obras estão paradas desde 2014. Há alguns meses, as duas fábricas do NE foram fechadas (hibernadas) pela Petrobrás, pois não seriam lucrativas. Os últimos demonstrativos financeiros da fábrica paranaense atestam prejuízo e esta pode ser vendida junto com a fábrica em construção para a empresa russa Acron. Ora, o processo de produção da ureia é o mesmo desde sempre. As fábricas são iguais, a menos da capacidade produtiva, em todo mundo. A matéria-prima é gás natural (metano, CH4) para fazer amônia (NH3) e com esta produzir a ureia.

Em 31 de julho, o STJ suspendeu liminar que impedia a Petrobras de paralisar as operações da Fafen. Até o dia 23 de setembro, quando escrevo este texto, o Brasil importou US$ 900 millhões, ou 3,2 milhões de toneladas de ureia. Os onze maiores fornecedores foram, pela ordem, Argélia, Rússia, Catar, Egito, Nigéria, Irã (até junho, com o aumento das sanções dos EUA), Omã, Emirados Árabes Unidos, Barein, Arábia Saudita, Argentina (Argentina! 50 mil toneladas até o momento).

O custo de produção da ureia é (ou deveria ser) função direta do custo do gás natural. Como conseguimos, com o gasoduto Brasil-Bolívia e as enormes reservas de gás da Bacia de Santos, ter gás natural mais caro que a Argentina? Todos os nossos outros fornecedores de ureia são países riquíssimos em petróleo e/ou gás natural, mas daquela lista de onze países, só quatro – Rússia, Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes – produzem mais petróleo do que o Brasil. E ficamos assim, o terceiro maior exportador de alimentos do mundo poderia produzir também seu fertilizante nitrogenado, mas abre mão de um bilhão de dólares em PIB e empregos qualificados para comprar de países imersos em conflitos comerciais e bélicos.

O BRI é também arma do emergente softpower chinês. Por meio do brand BRI, a China conquista corações e mentes pelo mundo.

Os países da América Latina são convidados a ingressar no BRI. Não faz sentido físico, mas a China investe vultosas somas para garantir que o país obtenha matérias-primas e alimentos (commodities) em quantidade suficiente para seus mais de 1,4 bilhão de habitantes, acesso a novos mercados (produtos e serviços) e desenvolvimento tecnológico. No Brasil, já foram investidos mais de US$ 50 bilhões com claro predomínio dos setores de óleo e gás, eletricidade, logística e agricultura. Se por um lado, a melhora da nossa infraestrutura por meio de investimentos chineses pode diminuir os custos da nossa indústria química, a BRI também diminui muito os custos de produção e de transporte dos produtos químicos dos países por onde passa.

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André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. E-mail de contato: abernardo@ufscar.br

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