A indústria química brasileira e a geopolítica atual – ABEQ

Química e Derivados - A indústria química brasileira e a geopolítica atual - ABEQ

Olá, leitora e leitor! A ascensão da China como uma superpotência que se contrapõe de igual para igual com os Estados Unidos impõe mudanças na configuração geopolítica que tínhamos desde o fim da União Soviética (URSS), no começo da década de 90 do século passado, quando os americanos eram os donos da bola. Este texto quer mostrar como isso afeta a indústria química no mundo e no Brasil.

Um dos principais marcos da ascensão chinesa é o Belt and Road Initiative (BRI, Iniciativa da Rota e do Cinturão), o gigantesco projeto de infraestrutura capitaneado pela China que busca restaurar a antiga Rota da Seda, rotas interconectadas que ligavam o Extremo Oriente ao Mediterrâneo e à Europa, criada pela dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) e interrompida pela dinastia Ming (1368 a 1644). A nova Rota da Seda (BRI) tem um percurso terrestre – ligação da China com a Europa através da Ásia Ocidental e Central – e uma rota marítima – ligação da China com o Sudeste Asiático, África e Europa.

Prevê-se que o investimento total da China ultrapasse US$ 1 trilhão (trilhão, eu não errei). Desde o início de 2015, utilizando ferrovias já existentes, o frete ferroviário mais longo do mundo liga a cidade chinesa de Yiwu a Madri, capital da Espanha, em 21 dias. Como comparação, o recorde anterior ligava Vladivostok a Moscou (ambas na Rússia). O frete marítimo usual entre China e Europa leva 60 dias, enquanto que o percurso entre Chongqing (China) e Duisburg (Alemanha) consome apenas 14 dias, utilizando uma ferrovia cazaquistanesa já existente. O objetivo final é chegar até Londres.

Entre os objetivos do BRI, estariam:

• Migrar a produção de baixo valor para outros países menos desenvolvidos ao longo das rotas BRI.

• Realocar algumas manufaturas de baixo custo para as províncias ocidentais menos desenvolvidas da China.

• Fornecer rotas mais eficientes para os produtos chineses de maior valor agregado, tanto no mercado doméstico, quanto no mercado internacional.

• Garantir custos mais baixos de importação de óleo e gás para a China, criando uma “independência energética virtual” por meio de laços geopolíticos e comerciais mais estreitos com a Ásia Central e o Oriente Médio.

Segundo alguns observadores internacionais, as indústrias químicas que quiserem sobreviver devem se instalar em Chongqing, ou outra cidade do oeste da China próxima à ferrovia. Os impactos específicos da BRI na indústria química mundial já são perceptíveis, mas o entendimento do seu alcance ainda é complexo. Há um consenso de que as indústrias químicas baseadas da China e na Eurásia serão beneficiadas. Algumas grandes indústrias químicas chinesas já baseiam seus planos de investimento na BRI, a maior parte focada em petroquímicos e commodities plásticas.

Em 2017, Sinopec e Sabic assinaram acordos de cooperação que incluem investimentos chineses na Arábia Saudita, em regiões alcançadas pela BRI. Em março de 2018, a PetroChina anunciou investimentos de mais de US$ 1 bilhão em Abu Dhabi. A ChemChina adquiriu recentemente a Syngenta e tem investido maciçamente em países no caminho da BRI, como Vietnã, Israel, Bangladesh, Cingapura, Arábia Saudita e Rússia.

Contudo, ainda que o deslocamento da indústria química para o eixo Europa-China (ou seja, para Ásia Central e Oriente Médio) seja inexorável, alguns fatos ou paradigmas geopolíticos implicam que esta mudança torne a indústria química e as cadeias produtivas da indústria química mais voláteis.

1. O conflito entre sunitas e xiitas

Sunitas e xiitas são os dois maiores grupo do Islamismo. Os sunitas são a maior parte dos muçulmanos, e as diferenças entre os dois grupos derivam da interpretação de cada grupo para a tradição da religião. As diferenças religiosas se tornaram diferenças políticas que frequentemente eclodem em enfrentamentos bélicos financiados pela Arábia Saudita, maior país sunita, e pelo Irã, maior país xiita. Recentemente, em 14 de setembro, ataques perpetrados contra instalações da Saudi Aramco em Abqaiq e em Khurais, na Arábia Saudita, comprometeram seriamente o fornecimento internacional de petróleo. A produção mundial diminuiu em 5% nas semanas subsequentes, e a cotação do petróleo aumentou em até 20% nas primeiras horas de funcionamento do mercado após os ataques que foram atribuídos aos houthis, iemenitas apoiados pelo Irã, ou ao próprio Irã.

Tradicionalmente, a Arábia Saudita é apoiada pelos EUA, com os quais estabeleceram os ‘petrodólares’ – a Arábia Saudita, maior produtora de petróleo durante o século XX, só aceitava dólares como pagamento pelo petróleo, o que ajudou a manter o dólar como a moeda do mundo, após o fim do padrão-ouro, em troca do apoio militar dos EUA. No contexto da Guerra Fria entre EUA e URSS, o Irã se tornou aliado da segunda e ainda hoje é aliado da Rússia, que tem poder militar inquestionável, mas alcance econômico limitado.

A ascensão da China como superpotência perturba aquele equilíbrio instável que remetia à Guerra Fria. A China faz negócios com todo mundo, investe na Arábia Saudita e no Irã, e o seu BRI – consequentemente, também a indústria química – passa no meio da fuzarca.

2. O postulado de Garrincha

“Faltou combinar com os russos”. A ligação férrea entre a China e a Europa ainda não predomina em relação ao transporte por navios porque, para se viabilizar, os trens que levam produtos chineses (os produtos químicos nos interessam aqui) para a Europa devem voltar com produtos europeus para a China. O que a Europa tem a oferecer para a China, cada vez mais, são produtos agrícolas, mas estes também são os produtos russos para a China. Como a ferrovia passa pela Rússia, esta impôs a proibição tanto da importação como do transporte de alimentos europeus através do seu território.

Desde 2014, a Rússia anexou parte do território da Ucrânia (a Criméia). A resposta do mundo foram sanções econômicas, que pouco significam para a Rússia e para a China, que mantém ativo comércio tanto com a Rússia, quanto com o Irã, também sujeito a sanções norte-americanas, mas ainda vendendo seu petróleo para a China.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a Rússia detém as maiores reservas de gás natural do mundo. O país também é rico em petróleo, cuja produção só perde para a dos Estados Unidos e da Arábia Saudita. Toda essa riqueza natural e a distância relativamente pequena tornaram a Europa dependente das importações de combustíveis fósseis da Rússia. A União Europeia consome 70% do petróleo e 65% do gás exportados pela Rússia, e boa parte desses chega à Europa por dutos que passam pela Ucrânia.

3. A guerra comercial entre EUA e China

Durante muitos anos a relação a relação entre EUA e China foi simbiótica. Os EUA eram o maior mercado consumidor dos produtos chineses e a China, a maior financiadora da dívida soberana norte-americana, comprando Treasuries (títulos da dívida) e dólares. A globalização era a norma e o livre comércio de produtos permitiu ao mundo o consumo crescente de bens em um ambiente deflacionário. Com o tempo, ficou claro que o grande perdedor do jogo da globalização era a classe média dos países ricos. Trabalhadores ligados à indústria viam seus empregos substituídos pela automação ou pela transferência das fábricas para outros países – China principalmente. Aquela classe média se viu sem emprego ou com empregos mais precários (surgiu o termo ‘uberização’ dos empregos).

A crise de 2008 tornou tudo mais visível. Cidades industriais norte-americanas se viram empobrecidas e formavam o rust belt (cinturão da ferrugem). O rust belt elegeu, em 2016, Donald Trump presidente dos EUA com a promessa de tornar a América grande novamente (Make America Great Again). Trump começou dando incentivos fiscais a empresas norte-americanas que reinstalassem suas fábricas em território norte-americano. Em seguida, passou a aumentar tarifas de importação. A China, maior exportador para os EUA é o alvo principal.

A China já enfrentava um natural arrefecimento de suas taxas de crescimento. Em 2010, a China cresceu 12%, em 2016 (antes do Trumponomics) apenas 5%. A BRI surgiu também para manter ou recuperar o crescimento da economia chinesa. A guerra comercial atrapalha tudo e diminui ainda mais o fôlego chinês para financiar os investimentos em infraestrutura nos países por onde passa o BRI.

4. E o Brasil?

A desindustrialização (precoce) do Brasil foi gestada há décadas. Da Lei de Informática do governo Sarney, aos subsídios em massa do governo Dilma, nossa estratégia sempre foi a de criar barreiras alfandegárias específicas para proteger determinada empresa ou produto nacional. Funcionou em termos, mas as indústrias não enfrentaram suas ineficiências e o país não sanou seus gargalos – impostos em cascata, educação precária, malha de transporte calamitosa, custo e disponibilidade de matérias-primas vergonhosos.

O remédio perdeu o efeito nos anos 2000. Com o boom no preço das commodities, provocado pela crescente demanda chinesa, nosso câmbio apreciou, nossa população ‘enricou’, e a nossa voracidade por bens de consumo foi de bom grado atendida por indústrias de fora, especialmente da China. Argentina e México, países economicamente similares, tiveram histórias parecidas.

Nossa indústria química tem déficit desde sempre, mas a partir de 2003 as importações se descolaram das exportações. O tamanho da indústria química nacional em relação ao PIB, que sempre cresceu, se estabilizou em 2004. O faturamento em dólares de 2018 foi praticamente igual ao de 2010.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP ©QD
André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

O Brasil se tornou, com muita competência, uma potência agrícola. Coincidentemente, os déficits da nossa indústria química são essencialmente insumos para fertilizantes. O caso de ureia é especialmente ilustrativo. A ureia é o principal fertilizante nitrogenado. No Brasil, seu único fabricante era a Petrobras, por meio das duas unidades da Fafen (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados), em Camaçari-BA e Aracaju-SE, e da Araucária Nitrogenados em Araucária-PR. Uma quarta fábrica estaria em construção em Campo Grande-MS, mas as obras estão paradas desde 2014. Há alguns meses, as duas fábricas do NE foram fechadas (hibernadas) pela Petrobrás, pois não seriam lucrativas. Os últimos demonstrativos financeiros da fábrica paranaense atestam prejuízo e esta pode ser vendida junto com a fábrica em construção para a empresa russa Acron. Ora, o processo de produção da ureia é o mesmo desde sempre. As fábricas são iguais, a menos da capacidade produtiva, em todo mundo. A matéria-prima é gás natural (metano, CH4) para fazer amônia (NH3) e com esta produzir a ureia.

Em 31 de julho, o STJ suspendeu liminar que impedia a Petrobras de paralisar as operações da Fafen. Até o dia 23 de setembro, quando escrevo este texto, o Brasil importou US$ 900 millhões, ou 3,2 milhões de toneladas de ureia. Os onze maiores fornecedores foram, pela ordem, Argélia, Rússia, Catar, Egito, Nigéria, Irã (até junho, com o aumento das sanções dos EUA), Omã, Emirados Árabes Unidos, Barein, Arábia Saudita, Argentina (Argentina! 50 mil toneladas até o momento).

O custo de produção da ureia é (ou deveria ser) função direta do custo do gás natural. Como conseguimos, com o gasoduto Brasil-Bolívia e as enormes reservas de gás da Bacia de Santos, ter gás natural mais caro que a Argentina? Todos os nossos outros fornecedores de ureia são países riquíssimos em petróleo e/ou gás natural, mas daquela lista de onze países, só quatro – Rússia, Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes – produzem mais petróleo do que o Brasil. E ficamos assim, o terceiro maior exportador de alimentos do mundo poderia produzir também seu fertilizante nitrogenado, mas abre mão de um bilhão de dólares em PIB e empregos qualificados para comprar de países imersos em conflitos comerciais e bélicos.

O BRI é também arma do emergente softpower chinês. Por meio do brand BRI, a China conquista corações e mentes pelo mundo.

Os países da América Latina são convidados a ingressar no BRI. Não faz sentido físico, mas a China investe vultosas somas para garantir que o país obtenha matérias-primas e alimentos (commodities) em quantidade suficiente para seus mais de 1,4 bilhão de habitantes, acesso a novos mercados (produtos e serviços) e desenvolvimento tecnológico. No Brasil, já foram investidos mais de US$ 50 bilhões com claro predomínio dos setores de óleo e gás, eletricidade, logística e agricultura. Se por um lado, a melhora da nossa infraestrutura por meio de investimentos chineses pode diminuir os custos da nossa indústria química, a BRI também diminui muito os custos de produção e de transporte dos produtos químicos dos países por onde passa.

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André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. E-mail de contato: [email protected]

Química e Derivados - ABEQ Cristalização: separação, purificação e complexidade

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A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.
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