Química

A indústria química brasileira e a geopolítica atual – ABEQ

Quimica e Derivados
6 de dezembro de 2019
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    Química e Derivados - ABEQ Cristalização: separação, purificação e complexidadeQuímica e Derivados - A indústria química brasileira e a geopolítica atual - ABEQ

    Olá, leitora e leitor! A ascensão da China como uma superpotência que se contrapõe de igual para igual com os Estados Unidos impõe mudanças na configuração geopolítica que tínhamos desde o fim da União Soviética (URSS), no começo da década de 90 do século passado, quando os americanos eram os donos da bola. Este texto quer mostrar como isso afeta a indústria química no mundo e no Brasil.

    Um dos principais marcos da ascensão chinesa é o Belt and Road Initiative (BRI, Iniciativa da Rota e do Cinturão), o gigantesco projeto de infraestrutura capitaneado pela China que busca restaurar a antiga Rota da Seda, rotas interconectadas que ligavam o Extremo Oriente ao Mediterrâneo e à Europa, criada pela dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) e interrompida pela dinastia Ming (1368 a 1644). A nova Rota da Seda (BRI) tem um percurso terrestre – ligação da China com a Europa através da Ásia Ocidental e Central – e uma rota marítima – ligação da China com o Sudeste Asiático, África e Europa.

    Prevê-se que o investimento total da China ultrapasse US$ 1 trilhão (trilhão, eu não errei). Desde o início de 2015, utilizando ferrovias já existentes, o frete ferroviário mais longo do mundo liga a cidade chinesa de Yiwu a Madri, capital da Espanha, em 21 dias. Como comparação, o recorde anterior ligava Vladivostok a Moscou (ambas na Rússia). O frete marítimo usual entre China e Europa leva 60 dias, enquanto que o percurso entre Chongqing (China) e Duisburg (Alemanha) consome apenas 14 dias, utilizando uma ferrovia cazaquistanesa já existente. O objetivo final é chegar até Londres.

    Entre os objetivos do BRI, estariam:

    • Migrar a produção de baixo valor para outros países menos desenvolvidos ao longo das rotas BRI.

    • Realocar algumas manufaturas de baixo custo para as províncias ocidentais menos desenvolvidas da China.

    • Fornecer rotas mais eficientes para os produtos chineses de maior valor agregado, tanto no mercado doméstico, quanto no mercado internacional.

    • Garantir custos mais baixos de importação de óleo e gás para a China, criando uma “independência energética virtual” por meio de laços geopolíticos e comerciais mais estreitos com a Ásia Central e o Oriente Médio.

    Segundo alguns observadores internacionais, as indústrias químicas que quiserem sobreviver devem se instalar em Chongqing, ou outra cidade do oeste da China próxima à ferrovia. Os impactos específicos da BRI na indústria química mundial já são perceptíveis, mas o entendimento do seu alcance ainda é complexo. Há um consenso de que as indústrias químicas baseadas da China e na Eurásia serão beneficiadas. Algumas grandes indústrias químicas chinesas já baseiam seus planos de investimento na BRI, a maior parte focada em petroquímicos e commodities plásticas.

    Em 2017, Sinopec e Sabic assinaram acordos de cooperação que incluem investimentos chineses na Arábia Saudita, em regiões alcançadas pela BRI. Em março de 2018, a PetroChina anunciou investimentos de mais de US$ 1 bilhão em Abu Dhabi. A ChemChina adquiriu recentemente a Syngenta e tem investido maciçamente em países no caminho da BRI, como Vietnã, Israel, Bangladesh, Cingapura, Arábia Saudita e Rússia.

    Contudo, ainda que o deslocamento da indústria química para o eixo Europa-China (ou seja, para Ásia Central e Oriente Médio) seja inexorável, alguns fatos ou paradigmas geopolíticos implicam que esta mudança torne a indústria química e as cadeias produtivas da indústria química mais voláteis.

    1. O conflito entre sunitas e xiitas

    Sunitas e xiitas são os dois maiores grupo do Islamismo. Os sunitas são a maior parte dos muçulmanos, e as diferenças entre os dois grupos derivam da interpretação de cada grupo para a tradição da religião. As diferenças religiosas se tornaram diferenças políticas que frequentemente eclodem em enfrentamentos bélicos financiados pela Arábia Saudita, maior país sunita, e pelo Irã, maior país xiita. Recentemente, em 14 de setembro, ataques perpetrados contra instalações da Saudi Aramco em Abqaiq e em Khurais, na Arábia Saudita, comprometeram seriamente o fornecimento internacional de petróleo. A produção mundial diminuiu em 5% nas semanas subsequentes, e a cotação do petróleo aumentou em até 20% nas primeiras horas de funcionamento do mercado após os ataques que foram atribuídos aos houthis, iemenitas apoiados pelo Irã, ou ao próprio Irã.

    Tradicionalmente, a Arábia Saudita é apoiada pelos EUA, com os quais estabeleceram os ‘petrodólares’ – a Arábia Saudita, maior produtora de petróleo durante o século XX, só aceitava dólares como pagamento pelo petróleo, o que ajudou a manter o dólar como a moeda do mundo, após o fim do padrão-ouro, em troca do apoio militar dos EUA. No contexto da Guerra Fria entre EUA e URSS, o Irã se tornou aliado da segunda e ainda hoje é aliado da Rússia, que tem poder militar inquestionável, mas alcance econômico limitado.

    A ascensão da China como superpotência perturba aquele equilíbrio instável que remetia à Guerra Fria. A China faz negócios com todo mundo, investe na Arábia Saudita e no Irã, e o seu BRI – consequentemente, também a indústria química – passa no meio da fuzarca.



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