A COP27 e a Indústria Química brasileira – ABEQ

Olá, leitoras e leitores.

No momento em que escrevo, está ocorrendo a 27ª Conferência dos Membros da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ou COP27,

Esta edição da COP (Conference of the Parties, ou Conferência dos Membros em tradução livre) ocorrerá de 6 a 18 de novembro de 2022, em Sharm el-Sheikh, no Egito, e contará com a presença do presidente eleito do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.

A presença do nosso futuro presidente dá a medida da importância do evento e da mudança de postura que se espera do governo brasileiro em relação às mudanças climáticas a partir do ano que vem.

A conferência anterior, COP26, ocorreu em Glasgow e nela o Brasil se comprometeu a mitigar 50% de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2030, usando como linha de base o ano de 2005 e como referência o Quarto Inventário Nacional de Emissões.

Esse era o compromisso já assumido pelo Brasil em 2015, mas abandonado durante a gestão de Ricardo Salles como Ministro do Meio Ambiente durante o governo Bolsonaro.

Além da nova meta, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) apresentou diretrizes para a agenda estratégica voltada à neutralidade climática. Entre as medidas, estão:

– Zerar o desmatamento ilegal até 2028: 15% por ano até 2024, 40% em 2025 e 2026, e 50% em 2027, comparando com o ano de 2022;

– Restaurar e reflorestar 18 milhões de hectares de florestas até 2030;

– Alcançar, em 2030, a participação de 45% a 50% das energias renováveis na composição da matriz energética;

– Recuperar 30 milhões de hectares de pastagens degradadas;

– Incentivar a ampliação da malha ferroviária.

Também há promessas de reestruturação de políticas agrícolas; programas para reduzir a fome; beneficiar o meio ambiente; facilitar o financiamento para reverter perdas e degradação florestal; e acelerar a transição para uma economia verde.

E um compromisso global, também assinado pelo Brasil de reduzir em 30% as emissões de metano.

Mercado de Carbono

Outro resultado importante da COP26 foi a aprovação das regras do mercado de carbono internacional. A partir de uma discussão de cinco anos, com forte influência da diplomacia brasileira, que definiu que:

– projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo de 2013 para frente, herdados do Protocolo de Quioto, fossem carregados para a era do Acordo de Paris,

– não é permitida a dupla contagem, na qual dois países poderiam deduzir os mesmos créditos de carbono de suas metas – um país que gera créditos e um país que compra tais créditos contarem ambos os mesmos créditos em suas metas,

Por que este assunto interessa?

Porque a indústria química gera quantidades consideráveis de GEE, porque o Brasil tem a cada dia menos indústrias e, consequentemente, menos empregos qualificados e mais déficits comerciais na balança de pagamentos, porque o mundo sofre cada vez mais com as mudanças climáticas, porque o dinheiro disponível para investimentos de infraestrutura e de produção privilegiará projetos ambientalmente sustentáveis e, finalmente, porque o Brasil têm condições de reconstruir sua indústria em bases sustentáveis, aproveitando a boa vontade e os recursos financeiros do mundo.

Vamos aos números

A Tabela 1 apresenta os dados de emissões totais de gás carbônico equivalente (CO2e) em milhões de toneladas nos últimos anos.

Sobre os valores da tabela, podemos concluir que nossas emissões de GEE têm aumentado continuamente e que 49% das nossas emissões se devem ao desmatamento ilegal de florestas. Eliminar o desmatamento diminuiria quase metade das nossas emissões. E isso é importante para poder emitir mais GEE!

Como assim?, perguntariam os leitores que ainda acompanham este texto. Vamos lá:

A COP27 e a Indústria Química brasileira - ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto

Tabela 1: Emissões totais de CO2e (milhões de toneladas) do Brasil nos últimos anos por categoria (SEEG, 2022)

Estima-se que sejam necessários 3.000 kWh por ano para tirar uma pessoa da pobreza absoluta,

O Brasil produziu, em 2019, 12,26 milhões de TJ, ou 3.404 bilhões de kWh, ou 15.400 kWh por habitante. Significa que produzimos energia suficiente para garantir que nenhum brasileiro viva em pobreza absoluta.

Mas, quanta energia seria necessária para aumentar o nosso padrão de vida médio?

A Espanha, em comparação, produz 30.400 kWh por habitante. Isso significa que, grosseiramente, precisaríamos dobrar a nossa produção de energia para tentar disponibilizar a todos os brasileiros o padrão de vida médio da Espanha, e o aumento da população não entrou na conta,

Mantendo o mesmo padrão de emissão de GEE que temos hoje na nossa produção de energia, que, a propósito, é muito melhor do que a média do mundo, emitiríamos 900 milhões de toneladas de CO2e, em vez das atuais 434 milhões.

Considerando os processos industriais, temos os dados detalhados apresentados na Tabela 2. Podemos observar que as emissões de GEE da Indústria Química são insignificantes em relação ao total, mas precisariam aumentar muito.

Em uma conta muito simplista, se importamos mais da metade de todos os produtos químicos que consumimos, nossa indústria química poderia dobrar suas emissões se conseguíssemos caminhar na direção do fortalecimento da nossa indústria.

Mesmo assim, a indústria química responderia por muito pouco da nossa emissão total – algo da ordem de 0,0005%.

Vou fazer uma conta específica para a ureia, que os que acompanham esta coluna sabem que é uma obsessão pessoal.

O Brasil importou até outubro deste ano 5,8 milhões de toneladas de ureia e gastou US$ 3,7 bilhões com isso. Se o Brasil produzisse toda a ureia que importa, deveria produzir cerca de 8 milhões de toneladas.

Na média, cada tonelada de ureia produzida a partir de gás natural tem uma pegada de quatro toneladas de CO2e.

Uma tonelada de ureia emitirá cerca de 0,73 toneladas de CO2, mas sua pegada de carbono, derivada de uma análise completa do ciclo de vida, será mais próxima de 4,0 toneladas de CO2 equivalente (CO2e).

Assim, o carbono contido na ureia representa apenas cerca de 18% de sua pegada de carbono total – os maiores problemas são energia, usada na produção e transporte, e emissões de N2O, que é um GEE 296 vezes mais potente que o CO2.

Ou seja, só a produção da ureia que o Brasil demanda tem potencial para aumentar em 30% a emissão dos processos industriais, ou quase 10 vezes a emissão atual da indústria química brasileira.

A COP27 e a Indústria Química brasileira - ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto Tabela 2 Emissões de CO2e (milhões de toneladas) dos Processos Industriais do Brasil nos últimos anos por categoria (SEEG, 2022)

Contudo, mais importante do que calcular o impacto de emissão de GEE da indústria química brasileira é calcular o quanto a indústria química pode contribuir para diminuir a nossa emissão total.

O potencial da Indústria Química brasileira na diminuição da emissão de GEE total

Dois exemplos do impacto positivo que uma indústria química mais robusta poderia ter na diminuição da emissão de GEE total do Brasil: pecuária e cimento.

Dados do SEEG mostram que a pecuária foi responsável pela emissão de 476,8 milhões de toneladas de CO2e.

Já escrevi uma coluna inteira sobre como a indústria química e a pecuária brasileiras poderiam ser mais sinérgicas (O churrasco do seu neto vai ser diferente do seu, QD-633).

É de lá que tiro dois dados: 60% da emissão da pecuária se deve à fermentação entérica do gado, e a introdução de ao menos 0,25% de algas vermelhas (Asparagopsis taxiformis) à dieta de gado Angus-Hereford reduziu em pelo menos 50% a emissão de metano por fermentação entérica.

Também já houve uma coluna sobre a utilização de algas como plataforma de produção de químicos (Microalgas como plataformas para a produção de químicos, QD-636).

Excetuando o desmatamento, a pecuária responde por 83% das emissões de metano do Brasil.

Portanto (de novo, uma conta simplista), eliminando o desmatamento e fornecendo aditivos à alimentação do gado, o Brasil poderia eliminar 40% de sua emissão de metano (bem mais do que o prometido) e diminuir a emissão de CO2e do Brasil em 230 milhões de toneladas.

A produção de cimento responde por 38 milhões de toneladas de CO2e do Brasil, e cerca de 7% das emissões totais do mundo.

Uma forma de reduzir o CO2 é diminuir a demanda por clínquer, substituindo-o por resíduos como escória de alto-forno e cinzas de carvão, por exemplo.

Cerca de 30%-40% do clínquer pode ser substituído dessa forma sem comprometer a resistência do cimento.

O clínquer é produzido a partir da reação de argila e calcário a 1400-1500°C.

Especificamente no Brasil há uma opção farta, a cinza de bagaço de cana (CBC).

Cerca de 10% do bagaço de cana se transforma em cinza, e a CBC se comporta como cimento pozolânico.

O Brasil produz cerca de 55 milhões de toneladas de CBC, e produziu em 2017 107,8 milhões de toneladas de cimento Portland.

Ou seja, em princípio, poderíamos reduzir a emissão de CO2e da produção de cimento incorporando CBC à fórmula.

Cabe observar que 10% da emissão de CO2e da produção de cimento é mais do que emitiu toda a indústria química.

Conclusões

A eliminação do desmatamento ilegal – 99% do desmatamento no Brasil é ilegal – abriria espaço para que o Brasil aumentasse a sua produção energética, mantendo a matriz atual e buscando aumentar o nível de bem-estar da população.

Há opções relativamente simples que se adotadas diminuiriam ainda mais as emissões de gases de efeito estufa (GEE) do Brasil.

A indústria química brasileira contribui com muito pouco da emissão total de GEE do Brasil, mas deveríamos esperar que esse número aumentasse, significando o fortalecimento dessa indústria.

Se o Brasil produzisse toda ureia de que necessita, as emissões de GEE da indústria seriam 30% maiores, contudo práticas mais modernas de pecuária mais que compensariam qualquer aumento de emissões de GEE que ocorressem pelo aumento do PIB industrial brasileiro.

Referências

Genin, C.; Frasson, C. M. R. O saldo da COP26: o que a Conferência do Clima significou para o Brasil e o mundo. 2021.

Emissões Totais | SEEG – Sistema de Estimativa de Emissão de Gases. https://plataforma.seeg.eco.br/total_emission (accessed 2022-11-10).

Brazil – Countries & Regions – IEA. https://www.iea.org/countries/brazil (accessed 2022-11-10).

ChemE. Materials: Decarbonising Cement. https://www.thechemicalengineer.com/features/materials-decarbonising-cement/ (accessed 2022-11-10).

Potencial da cinza do bagaço da cana-de-açúcar como material de substituição parcial de cimento Portland. https://1library.org/document/nq7r91ky-potencial-bagaco-acucar-material-substituicao-parcial-cimento-portland.html (accessed 2022-11-10).

Produção de cimento no Brasil: https://cimento.org/cimento-no-brasil/ (accessed 2022-11-10

Química e Derivados -

ABEQ

A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.

Mais informações: https://www.abeq.org.br/

O AUTOR

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico
André Bernardo é Engenheiro Químico

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: [email protected]

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