Biodiesel

A biorrefinaria e a indústria química brasileira – Coluna ABEQ

Rodrigo Mantovani
14 de maio de 2020
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    Hoje o bagaço é queimado em caldeiras de alta pressão (60 bar) produzindo eletricidade, além de vapor para movimentar a usina. Em menor proporção, o bagaço é vendido como ração para gado. Qualquer outra utilização do bagaço implicará em menor produção de eletricidade pelas usinas de açúcar. Atualmente 6,6% de toda eletricidade consumida no Brasil provém das usinas de cana, e como vimos anteriormente, não há eletricidade excedente no Brasil.

    Se os desafios tecnológicos e a demanda por eletricidade são obstáculos para a utilização do bagaço de cana como uma plataforma para a produção renovável de produtos químicos, o que impede a utilização da sacarose do caldo para produção de outras coisas além de açúcar e etanol é… a tradição!

    A inversão ácida (ou enzimática) da sacarose produz uma mistura equimolar de glicose e frutose que podem ser separadas por cristalização. Glicose pode ser convertida a frutose por catálise enzimática ou alcalina (com metil-etil-amina). Por fermentação da sacarose, é possível produzir ácido ascórbico, ácido glucônico e uma infinidade de outros produtos, todos hoje importados.

    Provavelmente estamos no início de um bull market do açúcar. Os preços estão há anos muito baixos, mas devem aumentar porque China e Índia devem passar a adicionar etanol à gasolina, o que levará as usinas do Brasil e do mundo a privilegiar a produção de etanol em detrimento do açúcar. No entanto, talvez seja o último bull market do açúcar, pois a Índia está modernizando suas usinas e vários países do continente africano, financiados pela China, devem passar a produzir ou aumentar a produção de açúcar e álcool. Paralelamente, os países desenvolvidos tem vilanizado o papel do açúcar na dieta – a Coca-Cola procura abertamente um substituto para o açúcar em suas formulações – e os motores elétricos substituem rapidamente os motores a combustão – a Alemanha quer banir os carros a gasolina ou diesel até 2030 e o resto da Europa deve fazer o mesmo até 2040. Se você acha que 10 ou 20 anos é muito tempo, lembre que você viu o Brasil ganhar uma copa ‘ontem’, há 18 anos. Nossas usinas de açúcar e álcool poderiam estar
    se transformando em biorrefinarias para produzir itens de maior valor agregado e, no limite, garantir a sobrevivência, mas a tradição…

    Referências

    Embrapa Agroenergia. Biorrefinarias. 2011. Disponível em: https://www.embrapa.br/agroenergia/busca-de-publicacoes/-/publicacao/908142/biorrefinarias

    JornalCana. 2019. Disponível em: https://jornalcana.com.br/raizen-chegou-a-165-milhoes-de-litros-de-etanol-2g/

    Mas R, Sá J, Martins F, Porter M. Developing a National Chemicals Strategy for Brazil. Publicado em 29 de outubro de 2015. Disponível em: https://www.bain.com/insights/developing-a-national-chemicals-strategy-for-brazil/

    NovaCana. 2017. Disponível em: https://www.novacana.com/n/etanol/2-geracao-celulose/etanol-segunda-geracao-economicamente-viavel-290917

    NovaCana. 2019. Disponível em: https://www.novacana.com/n/industria/financeiro/granbio-novo-prejuizo-ceo-acreditando-e2g-venda-tecnologia-300519

    Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP ©QD

    André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

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    André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. E-mail de contato: abernardo@ufscar.br

    Texto: André Bernardo



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