Distribuição: Dificuldades de suprimento global

Dificuldades persistem e mantêm preços e custos elevados

Distribuidores químicos nunca morrerão de tédio.

Quando o mercado já se acostumava a conviver com índices menos assustadores da pandemia do novo coronavírus, a Rússia invadiu a Ucrânia.

Para piorar, repiques de contaminações e mortes em importantes regiões da China levaram a promover novos lockdowns.

A soma dos eventos reinstalou o ambiente de negócios conturbado, menos do que em 2020, com restrições de oferta e interrupções da cadeia logística global, exigindo dos comerciantes químicos locais promover rápidos movimentos de adaptação.

Como desgraça pouca é bobagem, referendando o dito popular, o Brasil está em ritmo de campanha eleitoral para selecionar os ocupantes dos poderes executivo e legislativo em âmbito federal e estadual.

Pela tradição local, é hora de abrir os cofres para irrigar a rede de apoiadores e arrebanhadores de votos, colocando os defensores do teto de despesas com os cabelos em pé.

O manancial de recursos pode ajudar a girar a roda da economia e seria muito bem-vindo não fosse o detalhe de a conta sobrar para o exercício seguinte.

Enfim, nada de novo.

Ressalte-se que Rússia e Ucrânia, embora tenham importância como fornecedoras de insumos fertilizantes, seu portfólio químico pouco afeta a demanda brasileira, mas as retaliações comerciais impostas aos produtos russos criam dificuldades em larga escala e sua substituição por fontes alternativas – das quais o Brasil efetivamente se abastece – pode ter efeitos negativos por aqui, a começar pela majoração dos preços.

Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim) ©QD Foto: QD Produções
Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim)

“Essa guerra na Ucrânia pode gerar uma recessão na Europa, derrubando preços e encolhendo o mercado, isso pode aumentar o fluxo de produtos químicos para cá”, considerou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

Ele também receia que as autoridades monetárias dos Estados Unidos puxem para cima a taxa primária de juros para conter a inflação crescente. Isso deprimiria a atividade produtiva mundial.

“Por aqui, estamos com inflação alta e com juros mais altos ainda”, comentou o dirigente setorial. Ele espera que a inflação brasileira desacelere no segundo semestre, mas o acumulado do ano deverá ficar na casa dos dois dígitos.

“Os sinais são duros: o desemprego segue alto, o consumo das famílias caiu, os auxílios oficiais estão sendo reduzidos, o endividamento e a inadimplência sobem, não é um cenário animador para o comércio”, apontou.

Quanto à influência do período eleitoral, Medrano prevê aumento da turbulência pelo acirramento dos discursos, mas pouco efeito prático.

“É uma época em que se anunciam muitos projetos, mas eles demoram para sair do papel”, lamentou. A instabilidade política, por sua vez, costuma afugentar investidores.

Essa avaliação é diferente da exposta no início do ano, antes da guerra da Ucrânia. A distribuição química teve excelentes resultados em 2021, com elevação de faturamento (em dólares) e recuperação da margem de lucro.

“Ainda não terminamos o nosso estudo setorial referente ao ano passado, mas posso adiantar que os números de faturamento foram muito positivos”, afirmou Medrano.

Porém, como explicou, a variação é grande por se referir a uma base de comparação fraca, pois 2020 sofreu muito com a pandemia.

“Essa elevação toda não é muito real, porque os mercados não cresceram na mesma magnitude e deve se considerar que os preços mundiais dos produtos químicos subiram dramaticamente e a cotação do dólar por aqui permaneceu elevada por boa parte do ano.”

Em avaliação preliminar, ele acredita que em 2021 o setor possa ter alcançado o mesmo faturamento de US$ 6 bilhões registrado em 2018.

A participação do setor comercial nas vendas de produtos químicos do Brasil chegou a 11,29% em 2020 e não deverá ser muito alterada no estudo realizado pela Associquim para 2021.

“Desde 2010, abastecemos entre 10% e 15% do mercado; a economia nacional não cresce, a produção local apenas se mantém e o comércio tem papel complementar.”

Da sua parte, o setor fez todas as “lições de casa”, empreendendo um trabalho de qualificação e modernização que foi desencadeado em 1990, com a abertura comercial promovida no governo Collor de Mello.

“Isso foi um grande marco temporal; de lá para cá, o setor investiu em programas de qualidade e segurança, diversificou a oferta de produtos e de serviços, tornando-se muito sólido e moderno, equiparável aos setores homólogos dos Estados Unidos e da Europa”, comentou Medrano.

“Aliás, nós até demos alguns exemplos que eles adotaram por lá, como a verificação por auditorias independentes para participação no Prodir, o Programa de Distribuição Responsável, que está completando 20 anos.”

Ao mesmo tempo, alguns problemas estruturais perduram, como as prometidas e nunca realizadas reformas fiscal e tributária, além dos modestos investimentos na infraestrutura nacional.

“Nós pagamos 14% de imposto de importação na chegada das mercadorias, mas isso se aplica ao valor total, incluindo frete e seguro, mesmo que os itens não tenham produção nacional, é um valor muito alto, prejudica o setor e os consumidores”, criticou.

Os custos portuários no Brasil também são elevados, há propostas de melhoria, mas demoram.

“A distribuição química evoluiu e se modernizou, não podemos parar”, defendeu. Atualmente, o setor se debruça sobre a gestão eficiente do trabalho remoto, que ficou fortalecido durante a pandemia, com o apoio da digitalização dos procedimentos internos das distribuidoras.

“A presença física do corpo de vendas junto aos clientes é fundamental, não dá para atuar apenas com e-commerce, além disso, as empresas precisam fixar sua cultura empresarial e isso exige treinamento presencial, com intercâmbio de informações e conceitos”, salientou.

Ele também apontou a necessidade de o setor observar a migração das indústrias clientes para o interior do país, embora o eixo São Paulo-Rio ainda abrigue a maior parte dos negócios.

“Há muita coisa surgindo no interior de São Paulo e também no Centro-Oeste e Nordeste, mas cada empresa precisa ter sua estratégia de atuação, montar uma base operacional é muito caro, pode ser melhor ter uma estrutura de armazenamento única, com operação logística eficiente”, considerou.

Momento especial – Ao adquirir a Nexeo Solutions, em 2019, a Univar iniciou um processo de transformação que foi além da mudança de nome para Univar Solutions.

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Jorge Buckup, presidente da Univar Solutions para a América Latina

“Essa aquisição global foi um marco cultural muito forte para a companhia, ela trouxe sistemas de tecnologia da informação muito avançados, que se tornaram padrão, com o mesmo ERP para todas as Américas, ampliando a possibilidade de negócios on-line; além disso, agregou mais representadas, produtos e pessoal especializado, com ênfase em especialidades químicas, ramo que já responde por quase US$ 3 bilhões de vendas por ano, um terço do total, aproximadamente”, explicou Jorge Buckup, presidente da Univar Solutions para a América Latina.

O efeito da mudança foi registrado na adoção de nova visão, missão e valores corporativos, aplicados em tempo integral, sendo voltados para segurança, respeito aos compromissos assumidos e adição de valor em todas as atividades.

Essa mudança ocorreu antes da eclosão da pandemia e foi fundamental para lidar com os problemas advindos dela.

“A distribuição se mostrou indispensável durante a pandemia, ao prover os insumos necessários para o combate a ela; como havíamos nos estruturado bem antes, pudemos nos adaptar rapidamente ao trabalho remoto, contando com portfólio robusto e com atuação diversificada em vários segmentos”, ressaltou.

Agora, a companhia traçou um plano de retorno das pessoas ao site em toda a região, porém considerando trabalho flexível e híbrido (presencial e remoto).

“Algumas funções registraram aumento de produtividade em home office, vamos manter a produtividade com ganhos em qualidade de vida”, avaliou.

Buckup assumiu a presidência em 2017, e conta com 28 anos de experiência na indústria química, tendo sido contratado pela antiga Univar como diretor financeiro, em 2012.

Atualmente, a empresa reforça sua atuação nas especialidades, que ganharam corpo com as aquisições da D’Altomare (2014), da formuladora de agroquímicos Tagma (2017) e da Sweetmix (dezembro de 2021).

“O Brasil possui um potencial de crescimento grande para a distribuição, mercados como agropecuário, beleza e cuidados pessoais, assim como tintas, reiteradamente apresentam crescimento acima do PIB, mas há outros igualmente fortes, como farmacêuticos e alimentos, nos quais ganhamos participação mediante a aquisição da Sweetmix”, afirmou.

Buckup avalia que o mercado brasileiro ainda é bem fragmentado, com espaço para novos movimentos de concentração. “Nenhum player com atuação local detém mais de 10% do mercado local que ainda é muito atraente para as companhias internacionais”, comentou. Mas ele também entende que esse processo deve demorar algum tempo.

Com grande parte dos negócios na região Sudeste, a Univar Solutions acompanha o crescimento econômico de outras regiões, mantendo filiais no Nordeste, Sul e Norte do país. “Estamos prontos a investir o necessário para apoiar movimentos regionais, respeitando o plano de longo prazo, afinal os recursos são finitos e é preciso alocá-los da melhor maneira”, disse.

A companhia enfatiza os negócios no longo prazo, acompanhando de perto clientes e fornecedores, com melhor visibilidade das demandas e da disponibilidade de produtos no tempo.

“O mercado químico ainda vive tempos de alta volatilidade, somando à pandemia a instabilidade no Leste Europeu, com consequências ainda indeterminadas”, avaliou Buckup.

Durate os dois últimos anos, sob o peso da Covid-19, a Univar Solutions colheu benefícios por atuar com relacionamentos de longo prazo.

Com isso, na região América Latina, a companhia obteve crescimento acima de 35% em 2021, mediante ganho de participação de mercado e aumento de eficiência.

“A escassez global de produtos e a inflação impactaram os negócios, mas não foi a principal alavanca do nosso crescimento”, salientou.

A Univar Solutions mantém uma coordenação global da gestão de produtos, de modo a lidar de forma abrangente com as demandas registradas e administradas localmente pelas suas unidades em todas as regiões.

“Isso nos ajuda a garantir suprimentos e a enxergar melhor as tendências de mercado”, comentou.

Com equipes técnica, comercial e de gestão de produtos orientadas por mercado atendido, consegue desenvolver suas linhas de especialidades químicas. Nas commodities, por contar com escala global e experiência de quase cem anos, a Univar Solutions se situa em posição de liderança.

“O portfólio é amplo o suficiente para que os clientes possam ter a experiência de one-stop shop, com suprimento seguro e custo competitivo”, reforçou Buckup.

A atuação da companhia favorece o estabelecimento de parcerias duradouras com fornecedores e clientes.

“Para tanto, precisamos alinhar na cadeia produtiva todas as ações ESG [ambiental, social e governança], incluindo ações internas de gestão de resíduos, por exemplo, e de diversidade e inclusão social, além de dialogar com os demais elos da cadeia para expandir essas ações”, considerou.

A oferta de serviços ganha papel mais relevante, abrangendo fracionamento, misturas, gestão de transportes, limpeza correta de tambores e contêineres.

Nesse ponto, a discussão sobre o retorno de embalagens na cadeia produtiva está pauta e a distribuidora pode colaborar para colocar o debate na direção mais adequada.

“Podemos ampliar a prestação de serviços até o limite do potencial estabelecido com fornecedores e clientes; queremos ajudar a cadeia a reduzir custos e a crescer”, explicou.

A Univar Solutions também oferece aos parceiros a possibilidade de desenvolvimento tecnológico mediante a rede de mais de 40 laboratórios da companhia espalhados pelo mundo.

“Os laboratórios do México e do Brasil estão entre os quatro melhores dessa relação”, apontou Buckup. “Nossa intenção é de reduzir custos e ajudar os clientes a crescer com avanços em pesquisa e desenvolvimento.”

A expectativa para 2022 é de manter o crescimento, embora o ambiente atual seja desfavorável a qualquer previsão. “Há muitos eventos não planejados que podem mudar tudo, mas o cenário continua sendo de restrição de oferta de produtos químicos e de inflação em todos os países”, finalizou Buckup.

Há oito meses, a Univar Solutions instalou a plataforma chemcentral.com de comércio eletrônico, ainda restrita aos produtos menos críticos, que não exigem licenças específicas. “É o mesmo modelo que usamos nos EUA e na Europa, com custos competitivos e alta transparência, oferecendo possiblidades amplas de volumes e embalagens, com boa aceitação”, avaliou.

Nova estrutura – Aos 80 anos de atividade, a Química Anastácio está de casa nova. E instalações operacionais, idem.

Em dezembro, a distribuidora transferiu a última unidade que ainda operava nos galpões da Vila Leopoldina, em São Paulo, encerrando um processo iniciado em setembro de 2020 de transferir a armazenagem de sólidos para o seu centro de distribuição em Barueri-SP.

Toda a área de escritórios (comercial, administração e outros) passou a ocupar um andar inteiro de um moderno prédio de escritórios no bairro de Pinheiros.

Além disso, foram mantidas e ampliadas as instalações do bairro do Anastácio, onde ficam as operações com líquidos e suas blendas, além de misturas de pós, embalagem e fracionamento, com salas limpas homologadas pela Anvisa para produtos farmacêuticos e de alimentos.

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Jan Krueder, presidente da Química Anastácio

“Estávamos muito apertados na Leopoldina, agora temos espaço para crescer em Barueri, onde ocupamos 20 mil m2”, comentou Jan Krueder, presidente da Química Anastácio.

Em 2021, o faturamento de todas as empresas do grupo obteve aumento de 33% reais e de 10% em toneladas comercializadas.

Na nova sede, as 300 pessoas que frequentam o escritório podem ser acomodadas simultaneamente, contando com 210 estações fixas de trabalho e 110 informais. São posições de trabalho ocupadas conforme a demanda.

“O espaço fica confortável com 210 pessoas trabalhando, nosso plano é que essas pessoas venham ao escritório três dias por semana, de forma escalonada, mantendo 40% em trabalho remoto”, explicou Krueder.

“Tivemos bons resultados com o home office durante pandemia, mas percebemos que havia uma tendência de perdermos a cultura empresarial e, em decorrência, a produtividade.”

O faturamento maior foi atribuído à elevação dos preços mundiais dos produtos químicos, à taxa de câmbio e aos fretes internacionais com valores majorados desde o início da pandemia.

“Ficamos preocupados com nossos clientes porque o aumento de preços foi muito forte, é uma inflação mundial, mas acredito que a situação começará se normalizar no segundo semestre deste ano”, comentou Krueder.

Na sua avaliação, todos os países do mundo estimularam suas economias durante a pandemia, mas a retomada da produção para suprir toda essa demanda acelerada tem uma velocidade menor. Isso levou a algumas restrições de oferta.

“Compramos produtos de 62 países, temos fornecedores alternativos para todos os itens e usamos todos eles para garantir o suprimento”, ressaltou.

Ao mesmo tempo, ele observa que as operações logísticas estavam iniciando um processo de acomodação em todo o mundo, mas as recentes notícias de lockdowns na China podem criar novos embaraços.

“Em logística, tivemos grandes emoções em 2021 mesmo tendo uma forte estrutura montada, chegamos a operar com 80% de fretes FOB, o que exigiu uma sincronização perfeita dos movimentos”, disse.

No entanto, segundo Krueder, a rentabilidade da operação não subiu tanto quanto as vendas. “Os custos de operação também subiram e nem sempre se consegue repassar todo o aumento para os clientes, isso pressiona a margem”, considerou.

A Química Anastácio mantém o foco na expansão de negócios com especialidades, que já representam 20% de seu faturamento, com meta de alcançar os 30%.

“Mantemos o ritmo de lançamento de dez novos produtos por mês, entre commodities e especialidades”, comentou.

Para ele, os produtos da área industrial sofrem muito com a volatilidade da demanda, sendo necessário buscar uma razoável média anual de rentabilidade.

Por sua vez, os itens direcionados para o setor de não-duráveis (cosméticos e farma, por exemplo) têm uma demanda mais estável.

O comportamento de mercado de commodities e especialidades também determina o relacionamento com fornecedores. Nas commodities, produtos com especificação técnica e de menor custo, é menor o valor atribuído pelos clientes às bandeiras de fornecedores.

“Aqui, o que vale é o preço e a qualidade do produto”, explicou. A situação é diferente nas especialidades, nas quais a marca do fabricante é muito relevante.

“São produtos que precisam de aprovação da marca e, às vezes, de autoridades sanitárias, os fabricantes também transmitem conhecimento técnico sobre aplicações e sua substituição nas formulações é complicada”, disse.

“Para esse grupo, sempre procuramos bandeiras fortes para agregar ao portfólio, oferecendo nossa capilaridade na América Latina.”

O grupo abriu em março uma operação de distribuição química no México, país antes atendido pela Anastácio Overseas, empresa voltada para comércio internacional do setor.

“O México é o país que mais teve crescimento de negócios na Overseas, por isso decidimos montar a Anastácio México, com sede na capital do país”, explicou.

Essa empresa terá portfólio amplo, com commodities e especialidades, mas alguns itens permanecerão sendo supridos pela Overseas para evitar conflitos com marcas.

O México é considerado um ponto estratégico para os negócios do grupo, com bom potencial de crescimento. “O México é até mais industrializado do que o Brasil, tem seus problemas, mas é menos regulado do que aqui”, considerou.

A proposta do grupo é atuar em todos os países da América Latina, já tendo negócios em todos, inclusive na América Central. Apesar da economia complicada, a Argentina tem trazido bons resultados, com um portfólio de mais de 150 produtos consumidos.

“Uma pena que a crise afetou vários países, Peru, Colômbia e Chile perderam um pouco a tração”, avaliou Krueder. Em compensação, a Overseas está abrindo mercados no continente africano, especificamente na África do Sul e em países do norte do continente.

“A região africana é carente de suprimentos químicos, ainda é pequena a demanda, mas tem bom potencial de expansão”, disse.

A aproximação com a cadeia, controlando tempo de entrega e satisfação dos clientes, reforça relacionamentos e permite ampliar a oferta de serviços.

“Podemos fazer blends, entregar em embalagens diferentes, armazenar produtos para os clientes e gerenciar seus estoques, fazer operações logísticas mais complexas e outras soluções, temos estrutura para tanto”, comentou Krueder.

A Química Anastácio desenvolveu 12 parceiros que executam operações mais complexas, produzindo precursores de formulações e até algumas sínteses. Operações mais simples, como diluições, podem ser feitas na própria distribuidora.

“Quem atua conosco, cresce conosco, isso vale para tolling, transportes e outros segmentos complementares.”

Para 2022, a expectativa de Krueder é de uma estabilização do mercado, tornando a operação mais previsível, bem como com a acomodação dos preços dos fretes.

“Esperamos ampliar o faturamento por volta de 20%, mediante esforços próprios, entrando em mais segmentos de mercado e agregando novos produtos ao portfólio”, considerou.

As eleições deste ano geram algum nervosismo de mercado, ainda não mensurável. “Nós vamos crescer com lançamentos de produtos e esforços internos, melhor nem olhar para o PIB e para política”, afirmou.

Como disse, o comportamento dos negócios no primeiro trimestre foi fraco, mas deve se recuperar no segundo semestre. A invasão da Ucrânia e as restrições aos embarques da Rússia não afetaram a distribuidora, que trazia de lá poucos itens e de fácil substituição.

Depois de ter investido pesado em sistemas de TI, a Química Anastácio aprimorou seus controles sobre os indicadores de desemepnho e também se habilitou a iniciar o trabalho de venda via sistema.

“A tecnologia oferece novas formas para facilitar a vida dos clientes, mas ainda estamos desenvolvendo as vendas online, produto químico é diferente de eletrodomésticos, a venda exige a participação humana”, explicou.

Atualmente, os clientes podem indicar via sistema a intenção de compra de produtos, mas o negócio só será fechado depois, mediante contato com o pessoal de vendas.

Crescimento mantido – Em março, o fundo de investimentos Advent fez novo movimento de consolidação de negócios em escala global.

Desta vez, comprou a Caldic BV que pertencia ao Goldman Sachs Asset Management e tem atuação global forte em especialidades químicas, com vendas de um bilhão de euros em 2020.

O fundo vai integrar as operações da Caldic com as da GTM e quantiQ, formando um player internacional diversificado e situado entre as grandes distribuidoras químicas globais.

O fundo Advent pretende usar a marca Caldic na companhia integrada.

Por enquanto, a GTM/quantiQ atua dentro de suas metas de crescimento na América Latina, região onde detém posição de liderança. Nem o coronavírus abalou essa perspectiva.

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Annik Varella, managing director do Brasil da GTM Caldic

“O comércio químico não voltou ao que era antes e entendemos que não irá voltar; os últimos dois anos nos mostraram que cada vez mais temos que estar preparados para as mudanças, sejam elas no cenário externo como no interno, dentro de nossas organizações. O setor químico global, de forma geral tem vivenciado um contexto de restrição de matéria-prima, problemas na logística internacional e volatilidade nas relações de oferta e demanda, por diversos fatores, e isso tem impactado toda a cadeia”, comentou Annik Varella, managing director do Brasil da GTM Caldic.

Um dos principais aprendizados obtidos no período, segundo a diretora, está relacionado à necessidade de melhorar a previsibilidade.

“Cada vez se torna mais importante o planejamento, começando da necessidade de nossos clientes e se desdobrando até o nosso plano de compras e de inventário”, afirmou.

Os números de 2021 comprovam o acerto das decisões tomadas. “Tivemos um ano excelente: continuamos crescendo, fizemos aquisições e reforçamos nossa estratégia de crescer em produtos de especialidades e soluções customizadas, além disso, investimos muito em sistemas, processos e pessoas e em capacitar nosso time comercial para entender a real necessidade dos nossos clientes”, salientou.

Quanto a variação de preços e câmbio, Annik considera não ser isso uma novidade na distribuição química. “O ponto aqui é se manter focado nos indicadores que garantem a performance do nosso negócio e que são controláveis, como a gestão do capital de giro, rentabilidade e gestão de portfólio, bem como a velocidade no tempo de reação frente as mudanças de cenário”, recomendou.

Durante a pandemia, a companhia se adaptou bem ao trabalho remoto, com a adoção de um sistema híbrido para os cargos administrativos, com parte da semana presencial e parte remota.

“A flexibilidade da escolha dos dias de trabalho em casa e no escritório proporciona ao colaborador conseguir ser o protagonista da sua agenda de trabalho e, principalmente, de seus compromissos”, comentou a diretora.

Para mitigar riscos ou eventuais dúvidas, a distribuidora incluiu as informações sobre o modelo de trabalho desde o primeiro contato na área de recrutamento e seleção, até a formalização do contrato de trabalho com o modelo previsto e todas as regras, além de reforçar isso nos treinamentos online de integração e nas interações pessoais com gestor e colaborador.

“Com regras definidas e formalizadas em contrato, fica muito mais fácil administrar qualquer eventual risco e incentivar o engajamento dos colaboradores”, disse.

Annik considera importante manter contratos de distribuição com fornecedores, mas o fator de sucesso está ligado ao alinhamento de estratégias entre distribuidor e distribuída.

“O papel do distribuidor tem evoluído para cada vez mais trazer um amplo conhecimento de mercado, de tendências e de entendimento das necessidades dos nossos clientes e dos clientes dos nossos clientes”, ressaltou.

“Outro fator importante de evolução da distribuição é o olhar para a digitalização, para níveis diferenciados de segurança e para a sustentabilidade.”

Da mesma forma, a compreensão das necessidades dos clientes e a customização dos serviços determinarão a composição do mix de produtos da distribuidora, considerando produção local e importados, ou commodities e especialidades.

“Não existe uma relação ideal, isso depende da estratégia de cada empresa”, explicou Annik.

A prestação de serviços agrega cada vez mais valor aos negócios da distribuição.

“Com soluções customizadas, logística diferenciada, desenvolvimento de formulações etc, a distribuição vem se destacando e se diferenciando ao longo dos anos. Atualmente temos trabalhado muito em digitalização. Oferecer uma plataforma digital aos nossos clientes e representadas de forma a tornar a experiência deles mais satisfatória, tanto em velocidade quanto em conteúdo, é um dos importantes avanços da nossa organização”, completou Annik.

Avanço regional – A expectativa inicial da tradicional distribuidora Morais de Castro, com sede em Salvador-BA e filial em Paulista-PE, era de manter o ritmo de crescimento de vendas com dois dígitos, como aconteceu em 2020 e 2021.

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André Castro diretor da Morais de Castro

“Esperávamos que os negócios deste ano fossem mais previsíveis, com elevação de preços no primeiro trimestre, estabilização no segundo e voltando os preços a cair no terceiro e quarto trimestres”, informou o diretor André Castro, ressaltando quew essa previsão era compartilhada com os principais fornecedores de insumos químicos.

“Com a guerra na Ucrânia, isso mudou completamente, os fabricantes nem fazem mais previsões e os preços continuam subindo.”

A Morais de Castro trazia da Rússia alguns itens de seu portfólio, notadamente derivados de potássio e alguns solventes. O bloqueio econômico imposto aos russos obriga a buscar fontes alternativas de suprimento.

“O problema é que todos os que se abasteciam da Rússia, Belarus e Ucrânia estão disputando os mesmo suprimentos alternativos, ou seja, o mercado está pressionado”, explicou.

A alternativa óbvia seria a China, mas várias regiões produtoras e portos do país estão fechados para contenção da pandemia do coronavírus.

“Minha preocupação maior não é com a Rússia, nem com a China, mas com os nossos clientes que abastecem o mercado interno, eles estão se retraindo na proporção da perda de poder aquisitivo da população”, afirmou Castro, salientando que seus clientes que atuam com exportação estão em situação mais tranquila.

Como apontou, o aumento dos preços dos produtos químicos foi muito superior aos índices oficias de inflação no Brasil. Isso se explica pela elevação mundial dos preços, pela taxa cambial e pelo aumento dos custos dos fretes internacionais. “Esses custos não voltarão ao que eram antes”, disse.

Fruto das circunstâncias dos últimos anos, o nível de estoques da distribuidora segue acima da média histórica de operação.

“Embora a maioria dos nossos fornecedores tenha fabricação local, os itens importados estão com um prazo de entrega muito longo e precisamos garantir o abastecimento dos clientes”, apontou o diretor, para quem a crise sanitária ajudou a fortaleceu os laços com fabricantes locais.

Ele também verificou que os estoques em poder da clientela estão baixos, uma vez que aumentá-los significaria pressionar ainda mais o capital de giro deles. “Os pedidos voltaram a ser feitos de forma concentrada no fim de cada mês, isso complica a logística de entregas”, explicou.

Da mesma forma, a volatilidade do real frente ao dólar segue causando dificuldades no relacionamento com clientes. A pressão cambial apimenta as discussões sobre preços de venda.

Apesar dos desafios que se apresentam, 2022 pode alcançar os resultados pretendidos pela Morais de Castro.

“Há oportunidades vindas, por exemplo, de mudanças culturais, como a vegetalização das formulações de cosméticos e alimentos que está em franco crescimento, já tínhamos alguns produtos de fabricantes nacionais e internacionais no portfólio e estamos reforçando isso”, comentou.

Com forte participação nas regiões Nordeste e Norte, a distribuidora atende a vários segmentos de mercado, com um comportamento heterogêno de desempenho.

Segundo Castro, a venda de ingredientes para domissanitários cresceu muito em 2020, com o aparecimento da pandemia, mantendo-se firme em 2021, mas apresenta retração neste ano. Também a indústria regional de alimentos iniciou uma desaceleração.

Por sua vez, as atividades ligadas ao petróleo e mineração estão ativas e em crescimento.

“Nos últimos anos, começamos a nos especializar, deixando um pouco o caráter generalista, por isso, abrimos três unidades de negócios para petróleo, cosméticos e alimentos”, explicou.

Nesses segmentos, o de petróleo está com atividade muito aquecida. A transferência da refinaria da Petrobras na Bahia para o fundo Mubadala (de Abu Dahbi, um dos emirados árabes), bem como a venda dos campos de produção de petróleo em terra firme para empresas privadas, mudou a dinâmica dos negócios do setor.

“Agora a demanda está nas mãos desses produtores menores que desejam comprar na forma de one-stop shop, um lugar só, ao contrário do que se fazia antes, de licitar a compra de produto a produto”, avaliou. Isso obrigou a distribuidora a ampliar seu portfólio com produtos e tecnologias diferentes, como rompedores de emulsão, modificadores de viscosidade e bocidas, entre outros.

“Formamos uma parceria com a Universidade Federal da Bahia para desenvolver tecnologias mais adequadas para as condições locais, isso tem um período de maturação mais longo, mas é promissor”, avaliou.

O foco são as áreas de produção numa faixa que vai do Recôncavo Baiano até a Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, abastecidas pela matriz e pela filial.

Aliás, a filial de Paulista-PE está sendo equipada com tancagem e uma linha de envase para produtos industriais (ácidos e álcalis).

A Morais de Castro segue investindo na tecnologia da informação, tendo implantado recentemente um sistema de CRM (gestão do relacionamento com os clientes) para reduzir trabalhos repetitivos e permitir concentrar esforços na estratégia de negócios, aprimorar as entregas e adicionar novidades.

“Por enquanto, ainda estamos armazenando dados no banco de dados do programa, quando isso estiver em fase avançada, teremos uma visão melhor do mercado, mais tarde poderemos automatizar as operações”, adiantou.

Especialidades em forma – Com atividades concentradas nas especialidades químicas, a Multichemie avalia a possibilidade de investir mais na ampliação dos negócios, porém fatores que estão fora do alcance das decisões empresariais obrigam a adotar uma postura cautelosa.

“O caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, por exemplo, bagunçou todo o mercado e foi imprevisível”, comentou o diretor Peter Rudnik.

“Estamos num ponto de inflexão, estamos com espaço para crescer, mas precisamos ter cuidado e manter as posições que conquistamos.”

Os resultados de 2021 foram excelentes. Segundo Rudnik, foi o melhor dos 30 anos da empresa, tanto em faturamento, quanto em rentabilidade.

“Nosso faturamento aumentou 16% em dólares, somos fortes em tratamento de água e efluentes, além de contar com insumos para a fabricação de resinas”, salientou.

Por sua vez, 2022 até começou bem, mas a guerra na Europa tirou o brilho dos negócios.

“Fevereiro, março e abril registraram queda de faturamento, embora ainda estejam acima dos números dos mesmos meses do ano passado”, comentou.

A queda no valor do dólar, que chegou a R$ 4,60 em abril, ajudou a reduzir o valor das vendas. Porém, a alta dos juros está freando o desenvolvimento de mercado.

“São fatores que deprimem a atividade econômica, mas isso deve ser revertido assim que a guerra cabar, pois o Brasil é a bola da vez dos investimentos mundiais, teremos uma retomada forte”, afirmou Rudnik.

O diretor apontou uma redução pequena nos custos dos fretes marítimos e do aluguel dos contêineres, especialmente no trajeto China-Santos.

“Os fretes não voltarão mais aos US$ 2 mil por contêiner, mas também ficarão muito abaixo dos US$ 12 mil que foram cobrados durante a pior fase da pandemia”, comentou.

A China é a principal origem dos produtos comercializados pela Multichemie. Por isso, o anúncio de novos lockdowns por lá causa preocupação e obriga a manter estoques mais elevados, embora inferiores a 120 dias, segundo Rudnik.

“Preferimos pagar para ter estoque do que não ter produto para suprir nossos clientes habituais”, ressaltou, assegurando que não deixou nenhum deles desabastecido, mesmo nos momentos mais críticos.

“A pandemia foi um grande aprendizado, fomos obrigados a nos adaptar rapidamente para lidar com as novas circunstâncias”, comentou.

Na atual conjuntura de mercado, Rudnik verifica que os clientes estão comprando de forma mais fracionada e a distribuidora faz entregas da forma solicitiada pro eles.

“Na situação atual, fica satisfeito se conseguirmos repetir em 2022 os resultados de 2021”, finalizou.

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