Economia

24 de fevereiro de 2003

Válvulas: Indústria à plena carga esconde fragilidade

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Volume de pedidos e câmbio favorável injetam ânimo novo nos fabricantes, mas encobrem a falta de escala internacional para enfrentar a Alca

    Química e Derivados: Válvulas: Borboleta de 72, para termoelétrica mineira.

    Borboleta de 72, para termoelétrica mineira.

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    s fabricantes nacionais de válvulas para uso industrial começaram o ano recheados de pedidos. Os investimentos pesados da Petrobrás e a forte demanda do setor sucroalcooleiro puxam a fila das encomendas. Até mesmo a pressão exercida pelos fornecedores internacionais arrefeceu por causa da desvalorização do real.

    Há alguns anos, os produtores nacionais desses equipamentos se mostram dispostos a manter e ampliar a posição de mercado, tendo, para tanto, investido em centrais de usinagem e métodos de produção mais eficientes. Apesar disso, o perfil econômico dos fabricantes de bens de capital mecânicos elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) para embasar discussões sobre a formação da Alca coloca o segmento entre os passíveis de profunda reestruturação. A fragilidade da produção nacional de válvulas, como o de outras linhas mecânicas, residiria na baixa escala produtiva e no custo da produção, muitas vezes inflado pela incidência de impostos em cascata e dificuldades logísticas típicas do País.

    “É verdade, não temos escala de produção de nível internacional, porque exportamos pouco”, concordou o presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais da Abimaq, Walter Lapietra, também presidente da indústria IVC. “Mas não exportamos porque existem muitos obstáculos colocados por parte dos países importadores, como selos especiais de qualidade e exigência de manter assistência técnica no local”, explicou. “O Brasil deveria adotar as mesmas providências desses países, em vez de importar qualquer coisa de qualquer lugar e, de quebra, aumentar o desemprego.”

    Química e Derivados: Válvulas: Lapietra - Finame deu apoio à modernização.

    Lapietra – Finame deu apoio à modernização.

    A maior fragilidade do setor, segundo Lapietra, é atribuída ao comportamento dos clientes, mais interessados no preço das válvulas do que na sua qualidade. Um dos pontos mais evidentes é a espessura das paredes dos corpos das peças. Para economizar material, alguns fabricantes, geralmente no exterior, trabalham com paredes mais delgadas que o admitido nas normas construtivas. “E quem é que vai mandar um inspetor até a China para ver as peças antes da montagem final e da pintura?”, questiona. No entanto, ele salienta, os fabricantes nacionais estão sempre abertos para essas vistorias.

    “Tem gente oferecendo válvulas com espessura de paredes na norma Ansi B-16.34, muito finas e defasadas, como se fossem da API 600, que é exigida pela Petrobrás”, afirmou Newton Silva Araújo, diretor-presidente da Ciwal e vice-presidente da Câmara Setorial. “A vida útil das peças de paredes finas é muito menor, não compensa a diferença de preço de aquisição.” Segundo afirmou, não é difícil perceber a diferença entre elas, bastando comparar os seus pesos.

    Araújo também admite o problema da baixa escala produtiva do setor brasileiro de válvulas, embora a Ciwal seja uma das maiores produtoras nacionais. “Temos baixa escala porque ficamos mais de quatro anos sem encomendas significativas por parte da área de infra-estrutura, como petróleo e saneamento básico”, disse. Sem os grandes pedidos, a alternativa das empresas locais foi reduzir a produção e o contigente de pessoal. A retomada dos negócios, sobretudo por conta da Petrobrás, não foi imediata, dada a dificuldade de recontratar pessoal especializado.

    Apesar dessa dificuldade, a Ciwal ampliou seu faturamento em 230% nos últimos dois anos. “Voltamos a trabalhar 24 horas por dia, investimos pesado em maquinário moderno, reorganizamos a produção e a administração para alcançar maior eficiência”, explicou. Testemunham a afirmação os sete novos tornos com controle numérico computadorizado (CNC) e três modernas centrais de usinagem.

    Investimento na produção tornou-se freqüente no setor. “As condições do Finame estimulam a comprar máquinas mais modernas”, explicou Lapietra. “Mesmo antes de a Petrobrás anunciar o plano de investimentos, as empresas do setor já sabiam da necessidade de modernizar suas fábricas.”

    Química e Derivados: Válvulas: Araújo - clusters ajudarão a exportar.

    Araújo – clusters ajudarão a exportar.

    A própria IVC, uma das mais antigas fabricantes de válvulas do País, também modernizou e ampliou o parque fabril, situação generalizada no setor, segundo o dirigente setorial. Os juros de 6% ao ano, acrescidos da taxa de juros de longo prazo (TJLP), são mais baixos que outras linhas de crédito nacional.

    Segundo Lapietra, quando foram comprados os equipamentos para o gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), a taxa do Finame era de 12% ao ano, mais a TJLP. “Os fabricantes italianos captavam dinheiro a menos da metade disso, com vantagem significativa”, disse.

    As recentes manifestações do novo presidente da Petrobrás, o ex-senador petista por Sergipe José Eduardo Dutra, no sentido de rever o plano de investimentos da estatal, deixa os empresários de cabelos em pé. “O ritmo de investimentos da Petrobrás, somados aos do setor elétrico, podem sustentar a produção nacional de válvulas por oito anos”, comentou Araújo. “Mexer nisso, agora, depois de todos os esforços do setor, pode ser fatal.”

    A própria Ciwal tem a metade de suas encomendas direcionada para a estatal. “Há empresas com 100% da carteira de pedidos voltada para a Petrobrás”, disse Lapietra. O nível de exposição ao risco é elevado, mas inevitável, dado o porte da maior compradora nacional de equipamentos. Um outro grande comprador, o saneamento básico, reduziu muito as compras.


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