Química

15 de março de 2010

Tratamento de Resíduos – Tecnologias térmicas para tratar resíduos ainda sofrem com a concorrência dos aterros, mas têm boas perspectivas

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    estruir de forma definitiva resíduos é por si só o melhor argumento a favor das tecnologias térmicas. Mas apenas a vantagem competitiva não é suficiente para que sistemas como coprocessamento em fornos de cimento e incineradores desafiem de forma mais incisiva a principal tecnologia concorrente, os aterros, ainda hegemônicos no Brasil, para onde cerca de 80% dos resíduos industriais são destinados.

    E a questão aí não é técnica, mas econômica. Apesar de as tecnologias “piromaníacas”, principalmente o coprocessamento, terem uso em rota de crescimento, o custo baixo da destinação em aterros e ainda a falta de exigências legais que obriguem a destruição total do resíduo são os limitantes importantes para a expansão do mercado. Isso é um entendimento de praticamente todos os competidores que, apesar disso, também acreditam no aumento da demanda no médio prazo. Não por acaso, há muitas empresas da área anunciando planos de expansões e de novas unidades, todas elas confiantes no breve incremento na carteira de clientes.

    Química e Derivados, incinerador da Haztec, Tratamento de Resíduos - Tecnologias térmicas para tratar resíduos ainda sofrem com a concorrência dos aterros, mas têm boas perspectivas

    O incinerador da Haztec em Belford Roxo: ampliação

    “A minha percepção é a de que o Brasil poderia incinerar mais resíduos industriais. E acredito ser uma questão de tempo para muitos rejeitos que hoje seguem para aterros passarem a ir para incineradores”, disse o diretor da unidade de transformação de resíduos da Haztec, Ricardo Silveira. Com incinerador em Belford Roxo-RJ, no site da Bayer e adquirido há cerca de dois anos da Tribel, a empresa está em fase de escolha de fornecedor para compra de pacote tecnológico que ampliará a capacidade de destruição do seu incinerador de 7 mil t/ano para 10 mil t/ano. “Estamos para escolher entre uma empresa suíça e outra alemã”, afirmou Silveira.

    Segundo o diretor, para possibilitar a ampliação o fornecedor fará melhorias na queima, aperfeiçoando a oxidação, e principalmente reforçará o controle de emissões atmosféricas, com o uso de novos equipamentos. Essa última etapa do projeto, para Silveira, é a mais importante. “Para ter upgrade na capacidade, precisamos garantir o controle na chaminé”, disse. Isso significa também uma meta interna do grupo Haztec de seguir o padrão europeu de emissões de dioxinas. Com o retrofitting do incinerador, a ideia é ultrapassar o limite da exigência nacional – de 0,5 nanograma/Nm3, da resolução Conama 316 – e preparar o equipamento para atender ao rigoroso padrão da Comunidade Europeia para dioxinas, de 0,1 nanograma/Nm3.

    Atualmente, o sistema de controle em Belford Roxo já é bastante complexo. Ele se inicia com a câmara de pós-combustão, que opera acima de 1.200ºC, logo depois do forno rotativo primário (que chega a 1.000ºC) e é acionada quando há destruição de resíduos muito perigosos como os PCBs (bifenila policlorada, o ascarel, óleo de transformador elétrico). Depois, há o quencher a seco (com vapor de água), que provoca resfriamento brusco dos gases para evitar a formação de dioxinas (formadas em duas zonas indesejáveis, de 275ºC a 450ºC e de 400ºC a 600ºC). A sequência do controle inclui dois ciclones para remoção de particulados, lavagem ácida e alcalina e um lavador Venturi para remoção das últimas partículas.

    Com as melhorias no controle de emissões e de oxidação, a Haztec espera pelo menos diminuir o gap com os equipamentos similares existentes na Europa. De acordo com Ricardo Silveira, não há no velho continente incinerador com capacidade inferior a 40 mil t/ano. Além de, com isso, atenderem a uma demanda muito maior de resíduos (onde por sinal há restrições para destinação em aterros), essa média de tamanho proporciona ganhos de escala que reduzem bastante o preço da destinação, o que não ocorre no Brasil, onde todos os sete incineradores em operação são pequenos. Isso sem falar que os incineradores europeus contam com sistemas de recuperação de energia, o que diminui ainda mais o custo operacional.

    Química e Derivados, Ricardo Silveira, diretor da unidade de transformação de resíduos da Haztec, Tratamento de Resíduos - Tecnologias térmicas para tratar resíduos ainda sofrem com a concorrência dos aterros, mas têm boas perspectivas

    Silveira quer adequar emissões de dioxinas ao padrão

    Não por acaso, paralelo ao projeto de ampliação, a Haztec também encomendou estudo para avaliar a possibilidade de recuperar energia do incinerador, o que poderá ser incluído no projeto previsto para ser iniciado no decorrer de 2010. Na estimativa de Silveira, a ampliação deve envolver um investimento em torno de 2 milhões de euros e faz parte de um forte plano de crescimento da Haztec, grupo que nos últimos anos adquiriu várias empresas da área de meio ambiente e que pretende se firmar como uma das líderes em soluções integradas para a indústria e para o setor público de saneamento e resíduos.

    No forno de cimento – No propósito de ter várias soluções para destinação, a Haztec conta ainda com outras tecnologias, como o coprocessamento de resíduos em fornos de cimento e aterro industrial. No primeiro caso, de acordo com Silveira, a operação conta com interação estreita com a unidade de incineração. Isso se torna necessário na hora de decidir o destino de cada resíduo. Para o incinerador, processo mais caro de destruição, mas onde há o maior controle e garantia para resíduos perigosos, as aplicações mais comuns são organoclorados, PCBs e pesticidas. Com preços que começam a partir dos R$ 1.000 por tonelada, a incineração no Brasil só se justifica nos casos em que não há outra alternativa, como nos exemplos citados.

    Nos fornos de cimento, apesar da vantagem de não gerar cinza como no incinerador e ser mais barato (preço médio de R$ 150 a R$ 250 por t, podendo em alguns casos chegar a R$ 800), há limitações ao cloro, prejudicial ao refratário do forno e à matéria-prima calcário. Nesse sentido, as cimenteiras normalmente recebem resíduos com baixíssimo teor de cloro, que são preparados em unidades dedicadas para se adequar ao forno como combustível ou substituto de matéria-prima. A Haztec conta com central de preparação de blendas (misturas) de resíduos para fornos de cimento em Magé, no estado do Rio de Janeiro, que destina cerca de 4 mil toneladas/mês de resíduos com poder calorífico para substituição energética e 10 mil t/mês sem poder calorífico para uso como matéria-prima, ambos volumes para fornos da região das cimenteiras Holcim e Lafarge.

    Essas áreas também são objeto de investimento da Haztec, em projetos em fase de licenciamento. O coprocessamento contará com nova unidade de blendagem na Bahia e um novo aterro industrial classe 1 no Rio está para receber licença ambiental para, em outras aplicações, receber a cinza do incinerador de Belford Roxo, visto que hoje esse volume, correspondente a 15% dos resíduos incinerados, vai para o aterro de propriedade da Bayer no mesmo sítio industrial.

    Química e Derivados, Dessorção térmica, Tratamento de Resíduos - Tecnologias térmicas para tratar resíduos ainda sofrem com a concorrência dos aterros, mas têm boas perspectivas

    Dessorção térmica no aterro de Caieiras atende Petrobras

    Atentos para investir – A outra empresa com perfil integrado de gerenciamento de resíduos e cujo portfólio inclui soluções térmicas, a Essencis, também confessa estar atenta à breve necessidade de aumento de oferta. De acordo com o gerente de desenvolvimento e inovação tecnológica, Fabiano de Souza, a empresa tem pesquisado por todo o mundo opções para incineração com recuperação de energia. E ainda não fez um investimento desse tipo, o que incrementaria a sua atual capacidade de incineração da unidade de Taboão da Serra-SP (7 mil t/ano), porque na sua avaliação  “a conta ainda não fecha”.

    “Aterro ainda é muito mais barato”, afirmou Souza. E isso tanto ao se pensar em resíduo industrial como no domiciliar, tendo em vista que a Essencis atua nas duas áreas e tem grande aterro em Caieiras-SP, que recebe boa parte do lixo doméstico de São Paulo e cujo site contempla também aterro classe 1. Na média apontada pelo gerente, enquanto a disposição do domiciliar gira em torno de R$ 30 por tonelada, a sua incineração sairia por R$ 150. Enquanto um aterro classe 1 recebe por volta de R$ 200 por t de resíduo, o preço da queima parte do valor de R$ 1 mil/t e pode chegar em alguns casos em até R$ 2 mil/t.

    Um panorama mais favorável para o uso de incineradores em larga escala seria pensar em grandes unidades como na Europa, onde chegam a existir, em países como a Dinamarca, incineradores para resíduo industrial com capacidade para 220 mil t/ano. A economia de escala de equipamentos desse porte seria ainda reforçada pelo fato de eles normalmente terem sistemas de recuperação de energia. “Só para se ter uma ideia, 1 t de resíduo incinerado pode gerar até 520 kWh de energia, enquanto o mesmo volume em um aterro, por meio da captação do metano, geraria apenas 20 kWh”, explicou Fabiano de Souza. Mas mesmo com a vantagem energética, ainda há uma barreira que dificulta o chamado “fechamento da conta” a favor da expansão da incineração. Enquanto no Brasil se paga em média R$ 0,30 pelo kWh de energia, na Europa esse valor sobe para 1 euro.

    Química e Derivados, Fabiano de Souza, gerente de desenvolvimento e inovação tecnológica, Tratamento de Resíduos - Tecnologias térmicas para tratar resíduos ainda sofrem com a concorrência dos aterros, mas têm boas perspectivas

    Souza estuda novos investimentos em incineração com energia recuperada

    Essas constatações não significam, porém, que a Essencis não veja como muito possível um investimento em novo incinerador. “Mas com certeza vai ser pelo menos quinze vezes maior do que o atual e precisará agregar recuperação de energia”, disse. A despeito das possibilidades futuras, porém, a Essencis está com seu incinerador de Taboão da Serra totalmente ocupado, depois de ter passado por uma época de retração que durou até o final do primeiro semestre de 2009, quando chegou a ter 50% de ociosidade. Além disso, sua unidade de blendagem para coprocessamento em Magé-RJ  mantém a marca de 80 mil t/ano de resíduos para serem enviados a cimenteiras da região. Além disso, a empresa – uma sociedade entre a Camargo Corrêa e o grupo Solvi – conta com duas plantas de dessorção térmica (TDU), uma para 35 t/h, em Caieiras, e outra de 15 t/h, em Betim-MG, as quais destroem solos contaminados com hidrocarbonetos, principalmente para refinarias e terminais da Petrobras e postos de gasolina.


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