Farmácia e Biotecnologia

5 de outubro de 2004

Tecnologia: Pesquisa nacional desenvolve medicamento nanoencapsulado

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Publicado por: Fernando C. de Castro
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    Em setembro, na cidade de Porto Alegre, a doutora em farmácia Sílvia Guterres, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou a linha de pesquisa na qual atua como orientadora para a produção de medicamentos nanoencapsulados em polímeros biodegradáveis microparticulados. Em palestra organizada pela Associação Brasileira de Engenharia Química, ela explicou como funcionam essas substâncias para tratamento específico e seletivo de infecções, em condições delaboratório e em escala piloto.

    Segundo Sílvia, doenças que estão localizadas em alguns órgãos, como o fígado, futuramente serão tratadas com nanopartículas. Ela atua justamente em estudos com a finalidade de desenvolver sistemas com viabilidade tecnológica e econômica para a produção de comprimidos a partir de polímeros contendo hormônios e antiinflamatórios, em nanocápsulas, nanoesferas e nanoemulsões. Um desses trabalhos tem a parceria da empresa de cosméticos O Boticário.

    “A nanotecnologia é uma área emergente de cruzamento disciplinar da química, física e da biologia, para obter produtos em escala bilionésima do metro”, assinalou a especialista. No caso específico dos fármacos, há uma sinergia também com a química industrial e a medicina.

    Conforme explicou, a nanotecnologia aplicada à indústria farmacêutica busca construir vetores capazes de atingir exclusivamente o tecido enfermo, maximizar as ações e minimizar os efeitos indesejados, como a quimioterapia contra o câncer. Atualmente, os medicamentos atuam sobre os tumores, mas intoxicam as células saudáveis do organismo. O objetivo principal da nanotecnologia aplicada à farmacologia é carrear a substância diretamente no local da ação do medicamento e manter a parte saudável intacta.

    A pesquisa na UFRGS partiu da caracterização, tamanho das partículas, análise morfológica, medidas de pH em microscópio eletrônico de varredura e de transmissão. Os cientistas verificaram o potencial zeta, a quantificação e o comportamento do produto no organismo de ratos. “Todas as questões éticas foram levadas em consideração e aprovadas nas instâncias competentes da universidade”, salientou Sílvia, ao explicar os estudos com cobaias.

    O método utilizado pela equipe de Sílvia Guterres é denominado precipitação de polímeros préformados, disponíveis no mercado em poliéster (estado sólido) e obtidos a partir de um monômero proveniente do ácido lático. A partir do desenvolvimento do procedimento analítico dessas pesquisas, foram determinados os modelos para as nanopartículas e o diâmetro fundamental para saber se é um nanossistema. São consideradas nanopartículas as moléculas a partir de 0,05 µm a 1µm com suspensões coloidais para administração intravenosa, oral ou ocular. “Posteriormente chegamos à produção piloto das nanocápsulas, em que alcançamos a estabilidade das suspensões de nanopartículas poliméricas e finalmente chegamos à forma farmacêutica final em suspensão aquosa dos antiinflamatórios. A polimerização ocorre por meio de surfactantes e solventes orgânicos, posteriormente removidos por evaporação a vácuo”, explicou.

    Com isso, os cientistas gaúchos já conseguiram produzir nanofármacos em grãos e pó, e colocálos em cápsulas de dimensões normais em escala piloto e projetam o futuro de alguns tratamentos médicos à luz da nova ciência. O diclofenaco (comercialmente, Voltaren) aplicado com a nanofarmacologia evitará seu efeito deletério causador de úlcera. No caso da melatonina, o hormônio regulador do sono, a pesquisa com micropartículas microrrevestidas, tenta produzir um medicamento capaz de resolver os distúrbios provocados no organismo humano pelas mudanças constantes de fuso horário.

    Mais um exemplo de nanotecnologia aplicada à farmácia, também em fase de pesquisa, é a etionamida usada no tratamento da tuberculose. “São efeitos positivos dos mais variados como a possibilidade de vencermos a barreira hematoencefálica”, acrescentou. Outra área de interesse são os produtos de aplicação cutânea, emulsões de filtros solares e fotoproteção. A Lancome já fabrica comercialmente um creme para a pele contendo nanocápsulas de vitamina E. Nesse caso, as nanopartículas são geradas por adsorção.

    As primeiras tentativas de obter moléculas nano ocorreram de 1904 a 1914, nos laboratórios coordenados por Paul Erlich sob o conceito “a bala mágica do organismo”. Nos anos 60, foram iniciados os estudos fundamentais sobre a aplicação nanotecnológica nos fármacos. Primeiramente foram utilizadas as estruturas em lipossomas ou vesículas fosfolipídicas, como carreadores de fármacos hidrofílicos ou lipofílicos.


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