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3 de março de 2001

Soda-Cloro: Escassez de energia breca investimentos

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    Sem ver atendidos seus pedidos de aumento de fornecimento de energia, essencial para expandir sua capacidade produtiva já no limite, indústria nacional de soda-cloro teme a longo prazo pelo desabastecimento do mercado

    Química e Derivados: Soda-Cloro: Estoque de sal no Carbocloro em Cubatão-SP.

    Estoque de sal no Carbocloro em Cubatão-SP.

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    escassez de energia no Brasil começa a fazer suas primeiras vítimas na indústria. De atividade eletrointensiva, o setor de soda-cloro nacional está engavetando projetos de expansão por ver seguidas vezes negados seus pedidos de aumento de demanda pelas concessionárias energéticas. Sem essas expansões, a longo prazo o suprimento desses insumos básicos para toda a cadeia industrial pode ficar ameaçado daqui a alguns anos.

    Levantamentos da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis e Cloroderivados (Abiclor) atestam que os produtores locais operam há mais de cinco anos no limite da capacidade instalada, oscilando nesse período entre 88% e 95% de nível de utilização.

    O cenário fica duvidoso no futuro ao se levar em conta o desempenho dos segmentos de principal consumo de cloro: os de PVC e de poliuretano (PU), juntos responsáveis por 70% do consumo nacional, 38% e 32%, respectivamente. O mercado de PVC, onde o cloro tem papel preponderante, reagindo com o eteno para produzir dicloroetano, cresce a uma média de 7% ao ano. Já a cadeia do PU, na qual o halogênio entra na produção de óxido de propeno (via cloridrina) e de TDI (diisocianato de tolueno), registra crescimento anual da ordem de 4%. Acompanhar esse ritmo acelerado de consumo pode tornar-se tarefa árdua para um setor cujo incremento anual, desde 1998, estacionou na média irrisória de 0,3% a 0,5%.

    O fornecimento de cloro para suas principais aplicações só não tem sido prejudicado em razão de algumas compensações. Certos usos, antes de grande consumo desse gás, reduzem cada vez mais sua importância.

    É o caso do branqueamento de celulose, no qual o cloro perde mercado, a um ritmo de 12% ao ano, para as seqüências ECF (livres de cloro elementar, usando no lugar dióxido de cloro). “Nos próximos cinco anos essa aplicação vai desaparecer totalmente“, afirma Luiz Pimentel, gerente de marketing para a América Latina da Dow Química, maior produtora mundial de soda-cloro (capacidade de 6,5 milhões de t/ano) e a segunda maior no Brasil, com 415 mil t de soda e 400 mil t de cloro.

    Química e Derivados: Soda-Cloro: Pimentel - produção atual atende próximos cinco anos.

    Pimentel – produção atual atende próximos cinco anos.

    De acordo com Pimentel, há mais motivos para garantir pelo menos cinco anos de tranqüilidade para o mercado nacional, cuja demanda de cloro de 1,2 milhão de t, em 2000, para ele ainda não urge expansões. As metas do Protocolo de Montreal de redução de emissões de clorofluorcarbono (CFC) fazem a produção de solventes clorados caírem cerca de 10% ao ano. Também há de se levar em conta o crescente reaproveitamento do cloro na produção de dicloroetano, por meio do processo de oxicloração, que recircula o subproduto ácido clorídrico como matéria-prima para o DCE. Porém, se até mesmo essas tendências não fizerem sobrar cloro suficiente para o mercado interno, o gerente da Dow aponta uma outra saída: “O Brasil exporta muito DCE (cerca de 150 mil t/ano) e pode reduzir essas vendas.”

    Mas, se o mercado para o cloro está assim mais resguardado, o mesmo não pode se dizer da soda cáustica, produzida na referência média de 1,12 t por cada tonelada de Cl2. Com demanda interna de 1,5 milhão de t, em 2000, e capacidade instalada igual, o nível de 87% de utilização provocou importações de 200 mil t/ano de soda no ano passado. A maior parte veio do Golfo do México (cerca de 150 mil t) e o restante, da Venezuela e Argentina.

    Esta última tem escoado parte da produção recém-ampliada da Solvay-Indupa (mais 84 mil t). De acordo com o diretor-geral da Solvay, Raul Bustamante, a unidade argentina tem vendido toda sua produção de 184 mil t, exportando em média de 3 mil a 5 mil t/mês de soda para o Brasil.

    Com uso maior em digestão de celulose (75%), ou na produção de alumina, sabões, detergentes e química, a soda está com preço em alta, de cerca de US$ 400/t, contra US$ 200/t do cloro, e deve continuar a provocar déficits na balança comercial do setor. Isso porque seu consumo cresceu de 2% a 4% ao ano e as ampliações do parque produtivo, quando possíveis, são movidas apenas pelas necessidades do cloro.

    Química e Derivados: Soda-Cloro: Unidade da Trikem em Maceió - células trocadas para reduzir o consumo.

    Unidade da Trikem em Maceió – células trocadas para reduzir o consumo.

    Energia preocupa – As compensações do mercado do cloro, porém, não devem ser encaradas de forma muito otimista. A se estender por muitos anos, o déficit energético vai realmente colocar em risco a competitividade da soda-cloro nacional. E isso justo nas vésperas de uma prevista baixa oferta mundial, visto que para os próximos anos não haverá ampliações de peso. Projetos novos apenas acrescentarão 500 mil t na capacidade mundial em 2001 e mais 250 mil t em 2002, insuficientes para o crescimento da demanda anual estimada por volta de 800 mil t a 1,2 milhão t de cloro.

    “Os produtores de soda-cloro, assim como toda a sociedade, devem passar por um processo longo e doloroso de racionalização de energia, pior do que o até então anunciado pelo governo”, prevê o diretor-executivo da Abiclor, Martim Afonso Penna. Considerado grande consumidor de energia, com demanda por volta de 640 megawatts (MW), equivalente a quase 2% do total do País, o setor se ressente dos investimentos não feitos pelo governo. Isso não só em geração como em transmissão. Para Afonso Penna, por falta de rede de transmissão com capacidade suficiente, a geradora do Rio Grande do Sul (Gerasul) deixa de verter para o resto do País um excedente de 1.000 MW. “Essa energia seria suficiente para quase triplicar o setor inteiro”, compara o diretor.


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