CONTROLE DE VAZÃO
Natal discute rotas celulósicas para o etanol

Pesquisadores nacionais e internacionais estudam meios de garantir o atendimento da crescente demanda pelo etanol e desenham alternativas para aumentar a produtividade pela criação da segunda geração do álcool, tendo por base o bagaço da cana-de-açúcar e outras biomassas. No XVII Simpósio Nacional de Bioprocessos (Sinaferm 2009), realizado em agosto, em Natal-RN, dos 679 trabalhos inscritos, 59 eram voltados para a geração de energias renováveis. Praticamente todos apresentaram novidades relacionadas ao bioetanol que soaram como contribuições da Green Chemistry para mover a economia e garantir a sustentabilidade de uma matriz energética que, além de não poluir, pode aprimorar estruturas econômicas tradicionais no Brasil, como o setor canavieiro, ou dar um impulso ao aproveitamento de resíduos de outras culturas, como a do caju, do coco, do milho e do arroz.

A concretização dessas possibilidades passa pelos bioprocessos. Eles transformam matérias-primas em outros produtos com o uso de micro-organismos e de enzimas – a bola da vez no tratamento e aproveitamento das biomassas e que representam um mercado mundial da ordem de US$ 10 bilhões. Para se ter uma ideia do quanto elas vêm ganhando evidência, o Sinaferm 2009 registrou 330 trabalhos vinculados a processos fermentativos e enzimáticos.

Para o engenheiro químico José Geraldo da Cruz Pradella, pesquisador sênior do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, o uso da hidrólise enzimática para transformação do bagaço da cana-de-açúcar em açúcares fermentescíveis pode até dobrar a produção das usinas que hoje queimam esse resíduo para gerar vapor e eletricidade. “De cada tonelada de cana-de-açúcar, sobram 276 quilos de bagaço e 165 quilos de palha que podem ser convertidos em etanol pelo processo de hidrólise enzimática. Apenas o bagaço de uma tonelada de cana pode gerar 50 litros de etanol”, afirma, adiantando que o CTBE está inaugurando, a partir do final de outubro, vários laboratórios de pesquisa e uma planta piloto para desenvolvimento de processos, direcionada ao estudo da transformação da biomassa lignocelulósica (bagaço e palha) em etanol. A unidade servirá para análises e experimentos acadêmicos e industriais (detalhes no site: www.bioetanol.org.br).

O que era lixo se acabou – O bagaço e a palha, da cana ou de outras culturas, e os resíduos do processamento das madeiras, a casca do coco, a casca de arroz, o sabugo e a palha de milho são todos eles compostos por celulose, lignina e hemicelulose, formando uma estrutura bem estável. Para produzir o álcool de segunda geração, eles precisam ser separados, passando por um pré-tratamento como, por exemplo, a explosão por vapor, seguido pela remoção da lignina remanescente com soluções de bases fortes, a exemplo do hidróxido de sódio e do hidróxido de potássio.

Durante o pré-tratamento, hemicelulose e lignina, em grande parte, são removidas e a celulose que fica é então tratada por enzimas celulolíticas que a despolimerizam até glicose. “Este carboidrato pode ser fermentado a etanol em conjunto com o caldo de cana no tradicional processo de produção deste combustível”, garante José Pradella.

A hemicelulose, segundo ele, além do etanol pode gerar outros subprodutos, como propanol, acetona, butanol e ácido acético, todos eles obtidos hoje por via sintética, baseada no petróleo. Produtos inovadores como os polímeros biodegradáveis polilactato e polihidroxialcanoatos, terpenóides, ácidos graxos especiais, além de ácido láctico, ácido succínico, xilitol, entre outros, também podem ser produzidos com base nesse componente da biomassa.

Outra perspectiva é a de dar uma destinação mais valorizada à lignina, hoje usada apenas para gerar energia nas caldeiras das usinas. “Ela poderá, entre várias opções, ser usada como matéria-prima para a realização de rotas químicas inovadoras baseadas em compostos aromáticos”, afirma Pradella.

Para produzir o álcool de segunda geração, as usinas precisam instalar unidades de pré-tratamento de bagaço e de palha ao lado das linhas produtivas tradicionais, bem como contar com a disponibilidade de enzimas celulolíticas de baixo custo. Hoje elas são produzidas principalmente pelas gigantes Novozyme e Genencor, e importadas ao custo de US$ 4 a US$ 8 por quilo. O pesquisador do CTBE estima que o investimento numa unidade de pré-tratamento e de produção de enzimas para viabilizar a operação de uma usina com um padrão de produção de cerca de um milhão de litros de etanol por dia fique entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões. Considerando que para cada tonelada de biomassa são necessários 11 quilos de enzimas e o resultado será a produção de 50 a 100 litros de álcool, o negócio ainda é inviável economicamente. O desafio é produzir as enzimas a baixo custo.

Farmacêutico bioquímico do CTBE, ­Fábio Squina traz para o centro a expertise adquirida nos Estados Unidos em projetos em cooperação com a Edenspace, empresa americana especializada em bioengenharia, e com o National Research Energy Laboratory (NREL). Ambos usam enzimas para o aproveitamento dos resíduos do milho em biocombustível. “Trabalhamos com micro-organismos não cultiváveis dos quais extraímos o DNA proveniente de amostras ambientais, e já estamos formando no CTBE uma coleção de enzimas para o álcool de segunda geração”, revela Squina. Segundo ele, a proposta é identificar enzimas que possam ter diversas aplicações, entre elas a produção do etanol.

Caruaru & Caxias do Sul – O custo para a produção e mais ainda para a utilização das enzimas ainda é considerado muito alto pelos pesquisadores e produtores de álcool, mas tende a cair com processos inovadores como o desenvolvido entre a pernambucana Bioenzima, que alega ser a única empresa nacional a produzir essas enzimas, e a Universidade de Caxias do Sul-RS (UCS), que patentearam um processo para a produção do etanol celulósico no Brasil.

Sócio da Bioenzima, empresa instalada em Caruaru-PE, o engenheiro Carlos Fernandes das Chagas afirma que os testes de bancada apontam para a viabilidade técnica e econômica da produção do etanol de bagaço de cana, um diferencial em relação a outros processos que vêm sendo desenvolvidos ou pesquisados por ser capaz de gerar a própria enzima que irá degradar a biomassa e liberar a hexose.

Defendendo a viabilidade comercial do projeto, Chagas afirma que ele pode produzir 240 litros de etanol obtido da glicose retirada de uma tonelada de bagaço seco e outros 122 litros da hemicelulose. “No nosso processo, há indícios de que, além da glicose, as leveduras estão usando as estruturas de cinco carbonos (pentoses). Se confirmarmos, isso irá revolucionar o processo, porque o grande desafio é exatamente aproveitar as pentoses”, afirma Chagas. O pesquisador da UFC, Aldo Dillon, responsável pelo projeto com a Bioenzima, considera mais vantajoso o uso do bagaço para a produção de etanol do que para a cogeração. “A energia elétrica no Brasil é muito barata. Vale mais a pena produzir o combustível”, afirma.

De cana, de coco ou de caju – Pode até parecer cardápio ou pergunta de garçom de sorveteria nordestina, mas não é. Entre as tantas pesquisas com biomassas para a produção do etanol de segunda geração, Gorete Macedo, coordenadora da Rede Nordeste de Pesquisa e Biotecnologia Industrial e professora de Engenharia Química da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cita duas que envolvem resíduos comuns à região: a do pedúnculo do caju (usado na indústria de sucos e doces) e a das cascas de coco.

Ambas estão sendo estudadas para a produção de enzimas, ainda em escala de laboratório, mas poderão servir também para o álcool de segunda geração ou para os dois. Com o uso de micro-organismos de coleção de cultura já foram geradas enzimas e, segundo a professora, na fermentação alcoólica o pedúnculo apresenta os mesmos resultados do bagaço de cana.
Embora o estudo econômico ainda não tenha sido executado, ela adianta que apenas 10% do pedúnculo é usado na produção de sucos e doces do Rio Grande do Norte e do Ceará. E, mesmo no processo de industrialização, 40% da fatia aproveitada vira um resíduo que poderá ser transformado em álcool. “Esse substrato é vendido a apenas R$ 0,20 o quilo para ração animal”, revela. Considerando que o Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará produzem dois milhões de toneladas por ano do pedúnculo do caju, verifica-se a possibilidade de agregar mais valor à cadeia produtiva.

Já a casca de coco não chega a ser comercializada nem a preço baixo. Segundo Gorete Macedo, 70% do lixo gerado no litoral de Natal e Fortaleza, algo em torno de sete milhões de toneladas por ano, corresponde à casca de coco. Os estudos já foram apresentados em um seminário promovido pela Petrobras e a produtores de sucos que demonstraram interesse no assunto
Os resultados da pesquisa, financiada pelo CNPq e orçada em quase R$ 700 mil para três anos, darão base a um novo projeto que deverá viabilizar a continuação dos estudos e análises em escalas maiores. A proposta da Rede Nordeste, que reúne grupos de bioprocessos das universidades federais de Pernambuco (UFPE/UFRPE), do Ceará (UFC) e de Campina Grande (UFCG) e alunos de mestrado, doutorado e iniciação tecnológica, é agregar valor aos resíduos agroindustriais.

A Bioenzima também caminha nessa direção, só que os ventos a levaram até a Colômbia onde, em parceria com a americana Sai, está desenvolvendo um projeto para a utilização das sobras de polpa e da casca da banana em etanol. O estudo foi encomendado pela Associação de Bananeiros de Algura, região onde o volume desses resíduos pode gerar 120 mil litros de etanol por dia, segundo Carlos Fernandes das Chagas. “Esse seria um etanol intermediário entre o de primeira geração, que retira os açúcares dos frutos, e o de segunda geração, produzido apenas com resíduos”, explica.

O processo é o mesmo do etanol celulósico que já tem a patente temporária da Colômbia e dos Estados Unidos e poderá ter a definitiva em cerca de três meses, quando a Bioenzima der entrada no pedido nesses dois países. Com as pesquisas finalizadas, Chagas pretende montar uma planta piloto na Colômbia até 2010 e dar início à produção do etanol da banana.

Instalada no agreste de Pernambuco, região onde a seca levou a população a trocar as enxadas por máquinas de costura, formando um polo de confecções, a Bioenzima produzirá, a partir deste semestre, seis toneladas por mês de enzimas para uso pelos maiores fabricantes de jeans do polo do agreste. No ano que vem, com a ampliação da fábrica, mediante investimentos de R$ 2 milhões aportados por dois novos sócios, a produção poderá chegar a 18 t/mês. Oferecida em bombonas de 25 quilos e de 50 quilos, as enzimas de Caruaru custam R$ 14,00 o quilo, praticamente o mesmo preço das importadas.

Etiene Ramos

 

 

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