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bio &
farma
Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Sarcosina denuncia agressividade de câncer de próstata
Sarcosina, aminoácido até recentemente visto como metabólito
inofensivo de seu congênere glicina, agora é suspeito de cumplicidade
na evolução de variedade agressiva de câncer de próstata. A molécula
foi selecionada como biomarcador (substância cuja presença ou
quantificação permite o diagnóstico de disfunções orgânicas) para
neoplasias prostáticas com tendência a criar metástases em triagem
realizada por pesquisadores da Universidade de Michigan. O estudo,
assinado por Arul Chinnaiyan, do Instituto Médico Howard Hughes, ao
lado de outros 26 coautores, foi publicado na revista Nature
457:910-4, de 12 de fevereiro passado.
Com a ajuda de cromatógrafos de líquido e de gás equipados com
detetores de massa, os estudiosos avaliaram quantitativamente nada
menos que 1.126 metabólitos obtidos em 262 amostras biológicas,
incluindo 42 de tecidos, 110 de sangue e outras tantas de urina. Na
avaliação da sarcosina, verificaram a ocorrência de concentrações mais
elevadas do metabólito em amostras oriundas de tumores agressivos,
aqueles que tendem a produzir metástases, em comparação com dosagens
reduzidas encontradas em neoplasias confinadas à próstata e de
crescimento mais lento, ditas benignas.
A descoberta enseja, em prazo que pesquisadores estimam ser de três a
cinco anos, o desenvolvimento de novo ensaio clínico rápido, fácil e
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econômico, capaz de estabelecer o grau de malignidade do câncer de
próstata pela urina do paciente. Atualmente, o diagnóstico é feito pela
dosagem plasmática do antígeno prostático específico (PSA, do nome em
inglês), exigindo, nos casos em que esta se encontre elevada, avaliação
histológica feita por meio de dolorosa biópsia.

As implicações da descoberta vão, contudo, mais adiante. Os pesquisadores
estudaram células modificadas, isentas de glicina-N-metil transferase, a
enzima responsável pela metilação do aminoácido glicina, convertendo-o em
sarcosina. Tais células se mostraram resistentes à conversão em células
tumorais. Em contrapartida, a adição ao meio celular de sarcosina exógena,
bem como a inibição da sarcosina desidrogenase, que reverte sarcosina em
glicina (ver figura 1), induziu o fenótipo invasivo em células epiteliais
portadoras de câncer benigno. A observação abre caminho para o futuro
desenvolvimento de fármacos anticancerígenos dotados da capacidade de
antagonizar a glicina-N-metil transferase.
Transfusão de sangue
eleva risco de infarto de miocárdio
Transfusões de sangue sempre envolveram riscos, entre os quais a
transmissão de doenças como aids, hepatite e doença de Chagas. Embora tais
perigos sejam hoje reduzidos graças ao aperfeiçoamento de controles de
sangue doado, descobre-se agora nova ameaça aos transfusionados: maior
risco de morte por infarto de miocárdio.
A conclusão é fruto de avaliação estatística realizada por Sunil Rao e
equipe, da Faculdade de Medicina da Universidade Duke (Durham, NC), em
2004. O pesquisador verificou que a probabilidade de óbito de pacientes
com insuficiência coronária nos 30 dias subsequentes à transfusão era de
8%, contrastando com apenas 3% de risco de mortandade entre os doentes que
não se submeteram à transfusão prévia. Em outras palavras, os primeiros
apresentaram probabilidade três vezes maior de morrer no período, em
relação aos últimos.
A prestigiosa Proceedings of the National Academy of Sciences inclui
artigo, em sua edição de 23 de outubro de 2007 (PNAS 104(43):17058-17062),
propondo explicação para o fenômeno. Assinado por colegas de Rao na
universidade, liderados por Jonathan Stamler, o artigo descreve
experimento no qual se verificou que a concentração de óxido nítrico,
componente responsável pela dilatação dos vasos sanguíneos, facilitando o
fluxo de sangue e, portanto, o acesso de oxigênio aos tecidos, em sangue
mantido em bancos de sangue hospitalares começa a cair rapidamente após a
coleta. Decorridas 24 horas, a taxa de S-nitro-hemoglobina, forma de
transporte do óxido nítrico no sangue, baixa 70%. No vigésimo primeiro
dia, exatamente a metade do período de 42 dias durante o qual o sangue
armazenado pode ser usado em transfusões, a taxa de S-nitro-hemoglobina
cai para níveis abaixo da detetabilidade.
Segundo Stamler, a transfusão de sangue sem óxido nítrico provoca não
somente diluição e, portanto, queda da concentração de óxido nítrico
disponível no sangue circulante, como pode atrair o gás vasodilatador
disponível nos tecidos vasculares, provocando constrição, a decorrente
hipóxia. Assim, a presença do sangue novo predispõe para a ocorrência de
infartos em pacientes com deficiências coronarianas.
A boa notícia está nos resultados de um ensaio, no qual os pesquisadores
remoçaram hemácias velhas, tratando-as com solução aquosa de óxido
nítrico. A concentração de óxido nítrico nas células aumentou dez vezes,
tornando-as, neste particular, indistinguíveis de hemácias frescas. Ao
contrário do que ocorria anteriormente, ensaios nos quais o sangue tratado
foi transferido para cães evidenciaram aumento no fluxo coronário após a
transfusão.
As pesquisas receberam apoio financeiro de diversas associações médicas
norte-americanas, além da N30 Pharma (Boulder, CO), responsável pelo
desenvolvimento de terapias baseadas em óxido nítrico, incluindo o
desenvolvimento da S-nitrosoglutationa (GSNO) no papel de potente
broncodilatador. O fármaco potencial, denominado N30-201, foi aprovado em
ensaios clínicos de fase I em janeiro de 2008.
Philips desenvolve
cápsula inteligente
A Philips Medical Systems (Andover, MA), braço de pesquisas sobre saúde da
gigante holandesa, anunciou em fins do ano passado o desenvolvimento das
chamadas iPills. Trata-se de dispositivos que, à primeira vista, se
assemelham às coloridas cápsulas de gelatina usadas para antibióticos e
polivitamínicos (11 x 26 mm), mas, ao contrário destas, contêm em seu bojo
dispositivos eletrônicos e eletromecânicos miniaturizados, como
microprocessador, bateria, sensores de temperatura e pH, transceptor de
rádio, bomba de fluidos e reservatório para fármaco em solução.
Apresentada ao público durante encontro anual da American Association of
Pharmaceutical Scientists (AAPS), realizada em Atlanta, GA, em meados de
novembro passado, a iPill, administrada como qualquer cápsula, com auxílio
opcional de um copo com água, tem por objetivo liberar sua carga
medicamentosa em local específico ao longo do sistema gastrointestinal,
permitindo a obtenção de concentrações elevadas e mais eficazes junto a
tumores de cólon ou manifestações de colites ou da doença de Crohn. Também
é admissível que a disseminação mais limitada de fármacos no organismo
possa permitir doses menores e redução na intensidade dos efeitos
colaterais. A liberação do fármaco pode ser desencadeada por controle
externo, via rádio, com base no acompanhamento da trajetória da pílula por
meio de recursos como endoscopia, ressonância magnética ou tomografia
computadorizada. Alternativamente, a liberação pode ser pré-programada e
automatizada em função do gradiente de acidez ou alcalinidade entre as
porções anteriores e posteriores do tubo gastrointestinal, o que explica a
presença do detetor de pH na cápsula. Também é possível programar o perfil
de liberação das drogas, entre gradual e instantâneo.
O lançamento, que, segundo a Philips, já está tecnologicamente maduro para
produção em massa, terá custo inicial unitário de mil dólares. Com a
produção em massa, o fabricante prevê queda do preço unitário para algo
como dez dólares, sem, contudo, fixar prazo para tanto.
Ensaios monitorados - As iPills, ao lado de cápsulas espiãs,
contendo câmeras fotográficas, a exemplo da “gastro-cam”, desenvolvida
pela Olympus em 2004, ou da videocápsula da também nipônica RF System Lab,
atualmente em ensaios clínicos nos Estados Unidos, compreendem nova
geração de microdispositivos com potencial para simplificar e baixar os
custos dos cada vez mais exorbitantes ensaios clínicos necessários ao
desenvolvimento de novos fármacos.
Divulgação

Previsões da consultoria PriceWaterhouseCoopers sobre o estado da arte
na indústria farmacêutica de 2020 prognosticam o uso generalizado desses
aparelhos miniaturizados, dotados de acesso sem fio à internet, passíveis
de implante em pacientes submetidos a terapias medicamentosas, permitindo
a médicos e pesquisadores o acompanhamento, em tempo real, de parâmetros
como ritmo cardíaco, temperatura, taxas de metabólitos em tecidos e no
sangue (glicose, por exemplo) e ainda o monitoramento de concentrações de
fármacos em compartimentos distintos do organismo. Neste contexto, vale
lembrar a proposta da British Telecommunications (BT), que prevê a
“impressão” de circuitos eletrônicos sobre a pele de pacientes. Para a
empresa, a camada exposta do circuito conteria display polimérico e/ou
recursos de telecomunicação, enquanto a camada interna, em contato direto
com capilares sanguíneos e terminações de nervos, poderia monitorar, por
meio de sensores, reações biológicas e até mesmo determinar a liberação de
algum composto bioativo armazenado no dispositivo. |
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