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bio &
farma Michael
Nothenberg é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Febuxostato reforça
arsenal antigota
Decorridos quarenta e cinco anos da introdução do alopurinol,
considerado o mais importante e popular fármaco para o controle da
artrite gotosa, surge agora alternativa promissora no tratamento desta
doença milenar. Trata-se do febuxostato (Adenuric), disponível na
Europa desde sua aprovação pela Agência Europeia de Medicamentos (Emea),
em abril de 2008. Deverá estrear no mercado norte-americano quando a
FDA liberar o produto, algo que dificilmente deixará de ocorrer no
início de 2009, face à recomendação nesse sentido feita por comissão
de especialistas em novembro passado, em resposta a uma representação
da Takeda Pharmaceuticals, de Osaka, no Japão.
O febuxostato, ex-TMX-67, será comercializado em países europeus sob
licença da Teijin Pharma (Tóquio, Japão). Na França, a licença é
exclusiva da parisiense Ipsen, que participou da P&D do novo fármaco a
partir de 2003.
Cristais inflamatórios – À primeira vista, o febuxostato se
assemelha ao alopurinol, pois ambos os fármacos inibem a xantina
oxidase, também denominada xantina oxidoredutase. A enzima alvo é
responsável pelos estágios terminais da catabolização de purinas,
particularmente adenina e guanina, que participam da composição dos
nucleotídios, ingredientes
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moleculares básicos de ácidos nucleicos, DNA e RNA. Nestas reações, a
xantina oxidase responde por sucessivas hidroxilações, convertendo
hipoxantina em xantina e esta em ácido úrico (Esquema), que, por sua vez,
é eliminado pelos rins.
O ácido úrico, cuja solubilidade no plasma – 120 mg/dL a 37°C – é
razoável, apresenta-se, contudo, predominantemente na forma de urato
monossódico, cuja solubilidade plasmática é cerca de 50 vezes menor que a
do ácido, apenas 6,8 mg/dL à mesma temperatura. A ionização do ácido úrico
decorre de seu pKA 5,75 estar abaixo do pH do fluido extracelular, na
faixa de 7,4, bem como da abundância de sódio no meio. Explica-se assim a
relativa facilidade de, em caso de hiperuricemia (elevação das taxas de
ácido úrico no sangue), ocorrer formação de cristais de urato que, ao se
depositarem sobre juntas e articulações ósseas, iniciam o processo
inflamatório que resulta na artrite gotosa. Na urina, com pH em torno de
5,0, o equilíbrio reverte para a forma livre de ácido úrico, cuja
solubilidade no meio é estimada em 15 a 20 mg/dL.

Por um aparente defeito da evolução, os humanos são a única espécie de
mamífero com risco de contrair gota. Isso se deve à incapacidade de
expressar a enzima uricase (urato oxidase), responsável pela conversão de
ácido úrico na hidrossolúvel alantoína, facilmente excretada nos rins.
Análogos e bloqueadores – Uma vez estabelecido que artrite gotosa
decorre de hiperuricemia, não é difícil presumir que a inibição da xantina
oxidase, responsável pela biossíntese do ácido úrico, pode trazer
benefícios terapêuticos. Assim surgiu o alopurinol, sintetizado em 1956
como anticancerígeno potencial e introduzido na terapia da artrite gotosa
a partir de 1963, por iniciativa de Gertrude Elion e George Hitchings,
laureados pela descoberta com o prêmio Nobel de medicina em 1988.
O alopurinol é análogo estrutural da hipoxantina, substrato natural da
enzima, diferenciando-se desta na posição do átomo de nitrogênio no anel
imidazólico, que passa a pirazólico. A mudança faz com que a enzima se
associe ao inibidor com afinidade 15 a 20 vezes superior, reduzindo sua
capacidade de produzir xantina. Em compensação, origina metabólito do
alopurinol – oxipurinol ou aloxantina –, molécula que inibe a enzima de
forma mais eficiente que o precursor, graças à meia-vida mais prolongada,
18 a 30 horas, em lugar de apenas 2 a 3 horas.
Os dois agentes atuam sobre a xantina oxidase de forma competitiva. O
processo compreende a ligação dos inibidores e substratos ao sítio ativo
da enzima, mais exatamente, a um átomo de molibdênio, que tem sua valência
reduzida de 6+ para 4+ no processo. O febuxostato, por sua vez, apresenta
estrutura distinta à das purinas, não competindo com elas na associação ao
molibdênio. Sua ação envolve bloqueio da passagem de substratos por um
canal que dá acesso ao sítio ativo da enzima, mecânica que pesquisadores
consideram mais eficiente que o processo competitivo, permitindo ação
hipouricemiante mais potente e prolongada que a do alopurinol. Doses
diárias de 80 a 120 mg de febuxostato produzem quedas na concentração
plasmática de ácido úrico superiores às proporcionadas por 300 mg de
alopurinol.
Outra vantagem do febuxostato é a sua seletividade com relação à xantina
oxidase, não interferindo com outras enzimas envolvidas no metabolismo de
ácidos nucléicos. Decorre daí menor incidência de efeitos colaterais
comuns na terapia com alopurinol, como hipersensibilidade, intolerância
gastrintestinal e lesões de pele, que surgem em 20% dos pacientes
tratados, obrigando 5% deles a suspender o tratamento.
Alternativas – A “artrite dos ricos”, apelido dado à gota no
passado pelo fato de sua origem, em boa parte dos casos, estar associada
ao abuso na ingestão de bebidas alcoólicas e alimentos sofisticados, como
frutos do mar e carnes de primeira, já vitimava egípcios cerca de três mil
anos antes do início da era cristã e foi diagnosticada pelos gregos
Hipócrates e Galeno (± 460 a.C. a ± 370 a.C. e 129 d.C. a 200 d.C.,
respectivamente). O primeiro agente eficaz no alívio das dores agudas
produzidas pela doença foi a colchicina, alcalóide vegetal introduzido na
terapêutica pelo médico vienense barão von Störk, em 1763. Seu uso é
evitado por provocar dores estomacais, decorrência de sua ação inibitória
sobre a mitose celular (células do epitélio gástrico apresentam alta taxa
de renovação).
Um recurso de tratamento, por vezes associado ao emprego de inibidores de
xantina oxidase, é o dos agentes uricosúricos, ou seja, aqueles dotados da
capacidade de elevar a excreção renal de ácido úrico. O primeiro a mostrar
tal propriedade no final do século XIX foi o indefectível ácido
acetilsalicílico, só que em doses tóxicas de 4 a 6 g/dia. Posteriormente,
foram adotadas sulfinpirazona, originalmente planejada como analgésico, e
probenecida, idealizada para inibir a excreção renal da cara e escassa
penicilina disponível durante a 2ª Guerra Mundial. No início da década de
80 surgiu a benzbromarona, quimicamente aparentada ao antiarrítmico
amiodarona, considerado o uricosúrico mais potente dentre os conhecidos.
Agentes cardiovasculares como losartana (anti-hipertensivo antagonista do
receptor da angiotensina II) e fenofibrato (hipolipêmico) apresentam
propriedades uricosúricas moderadas e vêm sendo receitados no controle da
gota off label, prática que consiste em receitar medicamentos para
tratamentos distintos daqueles para os quais foram aprovados.
De emprego restrito em razão do alto custo e risco de ocorrência de
reações imunogênicas, inclusive anafilaxia, viabilizou-se recentemente a
administração intravenosa de uricase fúngica recombinante (Elitek,
Sanofi-Synthelabo, 2002), enzima que converte ácido úrico na inofensiva
alantoína. A principal indicação do produto é a síndrome da lise de
tumores, causada pelo emprego de quimioterápicos no tratamento de
leucemias e linfomas, o que eleva a concentração plasmática de ácido úrico
como resultado da destruição generalizada de células circulantes.
Encontram-se em estágios clínicos especialidades contendo uricase porcina
recombinante formulada com polietilenoglicol, a fim de reduzir a
imunogenicidade da enzima e prolongar sua meia-vida. Se aprovadas, serão
incorporadas também ao controle da gota, mostrando-se úteis
particularmente na dissolução dos tofos (depósitos) de urato de sódio nas
articulações e na prevenção da insuficiência renal mediada pelo sal.
Mais café, menos gota, menos Alzheimer
Pesquisa publicada na revista norte-americana Arthritis and Rheumatism,
de junho de 2007, constata que homens com mais de 40, que tomam ao
menos quatro copos de café por dia, têm 40% menos probabilidade de
contrair gota em comparação aos que se abstêm de ingerir a tradicional
infusão. A conclusão é uma das obtidas na compilação, realizada por
Hyon K. Choi e colaboradores, da Universidade da Colúmbia Britânica (Vancouver,
Canadá), de dados dietários detalhados fornecidos ao longo de doze
anos por 46 mil profissionais da área médica do Canadá e dos Estados
Unidos.
Ainda segundo o levantamento, três copos de café ao dia reduzem o
risco em apenas 8%, enquanto os exagerados, que tomam seis ou mais
copos, têm proteção extra, ao nível de 60%. Aparentemente, o resultado
não se correlaciona apenas ao conteúdo de cafeína, uma vez que
usuários de café descafeinado também obtiveram benefícios, embora
menores: quatro copos reduziram a probabilidade da ocorrência de
hiperuricemia em 27%. Choi não esclareceu se o efeito também se
manifesta em mulheres.
Pesquisadores finlandeses e suecos, por sua vez, anunciaram, em artigo
publicado na edição de janeiro de 2009 da revista holandesa Journal of
Alzheimer’s Disease, que indivíduos de meia-idade habituados a tomar
de três a cinco copos de café diários reduzem em 60% a 65% o risco de
contrair demência ou doença de Alzheimer ao atingir idades mais
avançadas. A exemplo de Choi, os estudiosos europeus também não
indicaram o componente responsável pelo efeito, atribuindo-o à
presença de moléculas antioxidantes, exemplificadas pelo ácido
clorogênico, com demonstrada capacidade de neutralizar peróxidos e
superóxidos, lesivos às macromoléculas proteicas e nucleicas. |
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