Embora projete um futuro brilhante, o setor sucroalcooleiro tem um presente difícil. Animado pelo interesse manifesto dos países desenvolvidos em adotar o etanol como combustível automotivo ou, pelo menos, como aditivo oxigenado de origem renovável para a gasolina de origem fóssil, o setor manteve nos últimos anos um ritmo frenético de investimentos para ampliar a capacidade produtiva. A tecnologia de motores bicombustíveis afastou os temores de desabastecimento e fez crescer o mercado interno do combustível “verde”. Porém, a evolução explosiva dos embarques do álcool para o exterior não se concretizou. A produção excedente segurou os preços em um patamar pouco atraente, gerando um desequilíbrio que motiva a consolidar a atividade em grandes players. “Não temos expectativas de aumento no mercado externo”, afirmou Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), entidade representativa dos produtores de açúcar e álcool do estado. A exportação de álcool na safra 2008/09 (termina em março, ao fim da produção do Nordeste) ficou perto de 5 bilhões de litros, mas a previsão para a próxima safra é de um recuo de um bilhão de litros. Registre-se que a produção norte-americana de etanol, feita com milho, cresceu para mais de 30 bilhões de litros/ano em 2008, mas deverá cair em 2009. A crise econômica afetou os
O bom desempenho internacional do açúcar brasileiro deve ser atribuído às quebras de produção na Índia, por motivos climáticos. Segundo o diretor da Única, o mercado estava ofertado há alguns anos, mas essas quebras reverteram o quadro. “O Brasil é o único país do mundo capaz de suprir o mercado mundial com rapidez”, explicou Pádua. Apesar disso, ele salienta que as exportações de açúcar não são suficientes para sustentar o setor na atual circunstância. “Ajuda, com certeza, mas falta crédito até mesmo para bancar essas exportações”, disse. Sem acesso aos contratos de antecipação de câmbio (ACC), os usineiros podem ter de vender mais álcool no mercado interno para bancar a operação internacional. Isso deprimiria ainda mais as cotações do etanol. O diretor-técnico salientou os esforços empreendidos para manter a liderança tecnológica mundial no setor. A produtividade atual na Região Sudeste chega a invejáveis 7 mil litros de álcool por hectare em cada safra. Para 2018, a meta setorial é de alcançar 12 mil litros/ha, considerando os ganhos na parte agrícola e na industrial. A safra em fase de encerramento (2008/09) deverá superar a produção de 27 bilhões de litros de etanol (nas formas anídrica e hidratada) no Brasil, sendo quase 25 bilhões de litros oriundos da chamada região Centro-Sul (principalmente Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás) e 2,4 bilhões de litros nas regiões Norte e Nordeste (destaque para Alagoas e Pernambuco). “No próximo ano, a produção deve aumentar para 30 bilhões de litros”, calculou Pádua. Pelos números apresentados e considerando que a produção de 2007/08 foi de 22,5 bilhões de litros, verifica-se o crescimento aproximado de 20%. A previsão de 30 bilhões de litros para a safra que começará em abril indica a expectativa de crescimento de 11% na oferta de etanol. “O crescimento na safra 2008/09 foi muito grande, contando com a entrada em operação de vários empreendimentos”, comentou Pádua. “Na safra que vai começar isso não deve se repetir na mesma intensidade.” Em 2008, cerca de 30 usinas iniciaram produção no Brasil, número que ficará entre 15 e 20 durante 2009. Algumas usinas entraram em produção no segundo semestre do ano passado e, como tinham cana madura, permaneceram em produção durante o tradicional período de entressafra na região Centro-Sul, de novembro a março. “A maioria dessas estreantes foram projetadas para produzir álcool para exportação”, comentou. Só a queda de consumo de combustíveis pode afetar as exportações de álcool. “No exterior, o etanol é vendido em misturas com gasolina, em busca de um ganho ambiental”, explicou Pádua. Mesmo com os preços baixos da gasolina, as misturas continuarão a ser vendidas, até por força de regulamentação nos países de destino. O mercado interno, por sua vez, apresenta 34% de crescimento no consumo de etanol hidratado entre 2007 e 2008, chegando a 11,67 bilhões de litros. As vendas de álcool total para uso nacional cresceram menos, 25,2%, somando 16,4 bilhões de litros. A explicação pode ser encontrada no aumento da frota de automóveis com motores do tipo flex, hoje dominantes em mais de 80% dos carros licenciados. “O mercado interno depende diretamente do preço da gasolina, se este cair pode dar prejuízo ao setor”, afirmou. Nesse caso, segundo explicou, a situação está longe de ser tranquila. Atualmente, os produtores de álcool recebem R$ 0,70 por litro, valor muito próximo ao do custo de produção e incapaz de justificar investimentos. “O setor busca um novo patamar de preços para manter sua expansão”, afirmou. Isso se reflete no adiamento de quase uma centena de projetos anunciados no Brasil. Novas usinas são projetadas para moer de 2,5 milhões a 3 milhões de toneladas de cana por safra, considerada a escala ótima de produção nos moldes atuais. “O problema acaba sendo a falta de uma estrutura de comercialização adequada para o álcool, uma vez que os compradores são as distribuidoras de combustíveis que têm grande porte e capacidade financeira”, comparou. Uma forma de lidar com o problema é verticalizar a atividade, como foi feito pelo maior grupo do setor, a Cosan, que comprou a distribuição de combustíveis da Esso no Brasil. A Petrobras anunciou que entrará na produção de álcool, tanto para a exportação quanto para o mercado interno, onde possui a maior distribuidora nacional, a rede BR. Na situação atual, os produtores de álcool são obrigados a carregar o custo de estocagem do produto durante a entressafra. Ou devem vendê-lo durante a safra, com preços mais baixos. Historicamente, os preços na entressafra da região Centro-Sul apresentam elevação significativa, permitindo uma remuneração mais favorável aos usineiros. “Nos últimos dois anos não se verificou variação de preço na entressafra e faltou crédito, forçando a venda de álcool com preço deprimido”, disse Pádua. No dia 5 de março, o governo federal aprovou a concessão de R$ 2,5 bilhões para financiar a estocagem de cinco bilhões de litros de álcool da safra 2009/10, por meio do BNDES. As liberações devem começar a partir de maio. Isso atende a um pleito da cadeia alcooleira que foi denominado de “warrantagem”. O neologismo deriva de warrant, um título de crédito que tem por lastro um lote de mercadoria fungível. Pádua lamenta a falta de uma política permanente de warrantagem, que daria estabilidade de preços aos produtores. “O mercado mundial resiste a entender o etanol como uma commodity, nem a nossa BM&F [Bolsa Mercantil e Futuros] sabe como precificar o produto e o setor fica nas negociações spot”, criticou. Enquanto isso, a despeito da crise econômica global, permanecem ativas as operações de consolidação no setor sucroalcooleiro. Grandes grupos nacionais estão em plena fase de negociação. É o caso da anunciada fusão entre os grupos Nova América e Cosan e da definição de um novo parceiro para a Santelisa Vale. “Há mais tratativas acontecendo, porém os possíveis compradores estão inseguros e os vendedores esperam propostas mais generosas”, comentou. As operações alcoolquímicas são vistas com apreço pela cadeia produtiva do etanol pela possibilidade de ampliar o leque de consumidores. Porém, o volume é muito pequeno quando comparado ao uso como combustível. Também em relação à produção de biodiesel, um éster de ácidos graxos, Pádua confirma que há pouco consumo de etanol nas reações de transesterificação. “A cadeia do etanol ainda não está integrada com a do biodiesel, que usa mais o metanol”, comentou, sem descartar a possibilidade de uma futura aproximação. Petroleira avança – A Petrobras divulgou em
fevereiro a revisão do Plano Estratégico de Negócios para 2009-2013 que
estava sendo aguardada desde setembro. A estatal pretende figurar entre as
cinco maiores produtoras mundiais de biocombustíveis até 2020, atuando de
forma rentável e tecnologicamente avançada, com alta integração na cadeia
de produção e consumo, respeitando o desenvolvimento sustentável e a
proteção ao meio ambiente. Os projetos que envolvem a produção estão
submetidos à subsidiária Petrobras Biocombustíveis (PBio), enquanto as
operações de logística, distribuição e venda dos produtos permanecerão sob
os cuidados da estatal-mãe, a Petrobras.
mercados, embora seja a Petrobras a responsável pela venda e pelo transporte até o destino. “Até o final deste semestre, deveremos anunciar quatro parcerias”, informou. |
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