Tratamento de efluentes

Divulgação/EcoAqua

Serviço terceirizado tende a reduzir o custo da água

Retração
nos projetos estimula oferta
de terceirização
por BOTs,
BOOs, AOTs
ou AOOs...

Marcelo Furtado

Momentos de crise podem reservar também boas oportunidades para determinados tipos de ofertas no ramo industrial. É o que ocorre, por exemplo, no mercado de tratamento de efluentes, especificamente entre as empresas que comercializam os chamados BOTs (build, operate and transfer) ou BOOs (build, operate and own), operações de terceirização em que o ofertante investe e se responsabiliza pela construção e operação das unidades por um período acordado.

A lógica da oportunidade nesse ramo é simples e começa, em primeiro lugar, pela necessidade comum atualmente dos clientes de reduzir quadros de funcionários próprios para minimizar os efeitos da crise. Isso promete levar muitas indústrias a terceirizar a gestão das utilidades como forma de diminuir seus custos trabalhistas e, ao mesmo tempo, preservar a mão-de-obra das áreas produtivas da empresa, mais importantes de serem mantidas para garantir a competitividade em épocas difíceis. Isso sem falar que, no caso da gestão da água, a modalidade pode ainda ajudar o cliente a economizar seus gastos com medidas de redução de desperdícios e reúso.

A expectativa torna as ofertas de BOTs ou BOOs um ato longe de parecer tresloucado em uma fase em que a indústria adia projetos e diminui a produção. Pelo contrário, oferecer a custo inicial zero um upgrade ou substituição de uma estação de tratamento de efluentes defasada, com promessas de ganhos na “conta da água”, soa como bom argumento de vendas. Tanto é assim que a esperança com as novas possibilidades é compartilhada entre as principais BOTistas – como são conhecidas no mercado essas empresas de engenharia e prestação de serviços – com maior, menor ou nenhum grau de ceticismo.

Escopo ampliado – “É o momento certo para a indústria ver as vantagens do nosso modelo de gestão”, afirmou Alain Arcalji, o diretor-executivo da EcoAqua, empresa sediada no Rio de Janeiro, de propriedade do grupo português SGC e especializada em BOTs e outros pacotes de prestação de serviços similares em tratamento de água e efluentes industriais. E, ainda segundo Arcalji, a busca por redução de custos pós-crise já tem levado clientes a procurar as ofertas de terceirização da EcoAqua, as quais ele considera como de “escopo ampliado“ ou “especiais”.

A definição dos modelos de gestão da EcoAqua, que de certa forma norteia também as ofertas de outras empresas da área, serve como resumo daquilo que essa terceirização especial pode proporcionar aos clientes. Isso porque os BOTs e demais modelos são diferentes da prática comum da indústria de chamar de terceirização apenas a transferência da mão-de-obra, usando-a como ferramenta para diminuir os

altos encargos trabalhistas de funcionários contratados. “O nosso modelo envolve responsabilidade integral pela operação. A única preocupação do cliente será fiscalizar o cumprimento do contrato, que estabelece volumes e a qualidade da água tratada ou do efluente descartado ou reusado”, explicou. “Se a empresa não está interessada em terceirizar totalmente a gestão, nós educadamente declinamos da oferta”, disse.

Com a delegação integral, além de ter a garantia do tratamento o cliente pode programar melhor seu fluxo de caixa, segundo completou Arcalji. “Afora não se preocupar mais com a água, ele saberá quanto vai gastar com o seu gerenciamento”, disse. Os contratos da EcoAqua, apesar de serem formulados caso a caso, normalmente envolvem uma parcela fixa mensal para cobrir os custos e os investimentos, mais uma variável, referente aos volumes tratados. Isso tudo em uma planilha de custos calculada para amortizar o valor dos ativos dentro do prazo normal dos BOTs de dez a quinze anos.

Divulgação

Arcalji: prestação de serviço com responsabilidade integral

Modelos similares a esses são implementados em clientes como a Klabin, de Otacílio Costa-SC, onde a EcoAqua ficará por dez anos como responsável pela captação e tratamento de água, a desmineralização e o tratamento dos efluentes descartados da indústria de papel. A única peculiaridade aí é a Klabin continuar como proprietária dos equipamentos. Somando outros clientes, como Petrobras (Cenpes) e a siderúrgica Thyssen Krupp-CSA (em implantação no Rio e cuja concorrência de terceirização foi vencida em novembro de 2008), a EcoAqua já soma R$ 270 milhões investidos em contratos de terceirização, com recursos próprios e de linhas privadas de financiamento (na Klabin, metade são recursos do fundo Itaú-BBA).

AOT e AOO – Embora haja diversificação nas necessidades contratuais dos clientes, a experiência da EcoAqua na venda dos modelos de prestação de serviços leva a crer que até o momento o mercado ainda prefere a terceirização clássica com a transferência dos ativos no final do contrato, ou seja, os tradicionais BOTs. “O cliente ainda se sente mais seguro ao saber que no fim do contrato ficará com os sistemas, como se fosse leasings”, revelou Alain Arcalji. Mas, para ele, é uma questão de tempo para os clientes amadurecerem para outras modalidades. Aí entrariam nas negociações os BOOs (em português, constrói, opera e permanece proprietário, do inglês own), ou então os modelos pelos quais o prestador de serviço chega até a adquirir ativos do cliente para se tornar responsável pela operação, os chamados AOO (acquire, operate and own) ou AOT (acquire, operate and transfer).

Estes últimos modelos podem até ter um apelo maior na crise, segundo a percepção de algumas empresas. Isso por um motivo óbvio, visto que, além de não demandar aportes dos clientes como nos BOTs, a operação poderá ainda render um recurso “extra” ao caixa das empresas. A esperança no novo modelo de aquisição de ativos é tanta que faz não só grupos como a EcoAqua reforçarem a sua divulgação no mercado como provoca o interesse de outros competidores. É o caso da White Martins Soluções Ambientais, empresa pertencente ao grupo norte-americano produtor de gases industriais que se especializou na prestação de serviços de tratamento de água e efluentes industriais.

Já com carteira de clientes extensa em BOTs de tratamento de efluentes e reúso de água na indústria e no mercado institucional, como shopping centers, hospitais e prédios comerciais, a White Martins aposta nos AOOs e AOTs para manter um ritmo de crescimento que vinha ininterrupto desde quando foi fundada há sete anos. E isso mesmo com as perspectivas não tão animadoras previstas para 2009. “É uma forma criativa de fugir da visível retração nos negócios”, afirmou o gerente geral, Paulo Bon.

A ideia é propor a compra de estações para melhorias imediatas na operação, que se refletem em economias consideráveis no custo da água, ou substituições de equipamentos para aperfeiçoar o tratamento. Para custear essas operações financeiras ousadas, a White Martins Soluções Ambientais pretende continuar a usar a retaguarda de seu grande grupo controlador, empregando recursos próprios para os investimentos. Até o momento essa mesma estratégia proporcionou a geração de dez BOTs em operação por todo o Brasil, dentro de indústrias do setor químico, têxtil, automobilístico e de alimentos e no mercado institucional, em condomínios comerciais, hospitais etc.

Cuca Jorge

Bon aposta nos AOOs e AOTs para manter crescimento em 2009

Um exemplo possível de AOT em tratamento de efluentes, segundo Bon, pode ser feito na indústria têxtil. Fornecedora de sistemas para tratamento com base em suas tecnologias de geração de gases (foi a partir daí que a White Martins passou a fornecer para o setor ambiental na década de 80), a empresa pode instalar sistemas de remoção de cor de efluentes com ozônio, substituindo os tradicionais tratamentos físico-químicos. “A unidade antiga poderia ser empregada em outro uso, enquanto prestaríamos o serviço com a geração in-situ do ozônio, muito mais eficiente nessa aplicação”, disse. Bom acrescentar que a White Martins já possui um BOT com base na tecnologia de remoção em uma indústria têxtil.

O modelo do AOT é novo apenas na área ambiental, segundo explicou Paulo Bon. Isso porque a própria White Martins, na sua longa experiência de fornecedora de gases industriais, várias vezes comprou unidades geradoras dos clientes para passar a ser a prestadora de serviço, sobretudo no fornecimento de oxigênio na indústria siderúrgica. “O modelo já é conhecido na indústria, basta passar a fazer a oferta que há muita chance de ela ser adotada também em estações de tratamento de água e efluentes”, afirmou Bon.

 

 

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