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Farmoindústria
a caminho dos
emergentes
O
planejamento estratégico das grandes multinacionais farmacêuticas para
a virada da década será marcado por uma mudança nos alvos de
investimentos. Os atuais países desenvolvidos, tradicionais
beneficiários de investimentos na modernização de instalações,
pesquisas clínicas e lançamento de novas especialidades, darão lugar a
países emergentes, particularmente BRICs (Brasil, Rússia, Índia e
China), não necessariamente nesta ordem e sem descuidar de países como
México, Malásia, Indonésia, Turquia, Taiwan e Coréia do Sul, entre
outros. Será essa a fórmula com a qual a “big farma”, denominação que
habitualmente abrange o conjunto das 13 gigantes do setor
farmacêutico, espera participar da colheita bruta superior a US$ 1
trilhão/ano prevista até 2012, antevendo, para tanto, respeitável
crescimento anual médio do mercado global, da ordem de 8%.
O mercado farmacêutico global, estimado em US$ 712 bilhões em 2007,
acumulou um acréscimo de US$ 178 bilhões em relação ao faturamento de
2002. A expansão já reflete, contudo, desaceleração, se comparada à
taxa de crescimento de quase 12% registrada em 2001 e expansão
comparativamente modesta de 6,4% entre 2006 e 2007. Em 2008, a taxa de
crescimento global não deverá ter superado 4,5% a 5,5%. |
Prognósticos - Extraídas do relatório Global Pharmaceutical
Forecast to 2012, preparado pela Research and Markets, consultoria sediada
em Dublin, Irlanda, e de dados incluídos no relatório IMS Global
Pharmaceutical and Therapy Forecast, divulgado pela consultoria
norte-americana IMS Health (Norwalk, CT) em outubro de 2008, as previsões
também indicam que a América do Norte continuará sendo o principal mercado
mundial no próximo quadriênio (42,8% do mercado em 2007). O mercado
norte-americano, em particular, deverá ter crescido apenas 1% a 2% em
2008, mantendo a mesma taxa de crescimento em 2009. Assim, poderá atingir
faturamentos entre US$ 287-297 bilhões e US$ 292-302 bilhões,
respectivamente, nos períodos citados.
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Analistas apontam, entre fatores envolvidos na queda de receitas, o
advento de menor número de entidades químicas em 2009. Serão no máximo
25-30 novas moléculas, incluindo quatro ou cinco blockbusters
(fármacos com potencial para render mais de US$ 1 bilhão por ano),
dedicados ao tratamento de doenças cardiovasculares, diabetes, artrite
reumatóide e meningite. Também são previstos prejuízos da ordem de US$
24 bilhões com o vencimento de patentes de antiepilépticos,
antiulcerogênicos inibidores de bomba de prótons, e antivirais, entre
outros. As perdas da exclusividade de vendas por parte dos detentores
das patentes deverão ser compensadas com o faturamento conjunto da
ordem de US$ 68 bilhões por parte dos fabricantes de versões
genéricas, 8% acima das receitas previstas para 2008.
O início da gestão de Barack Obama na Casa Branca também causa
preocupação. Há temores de que o novo presidente possa permitir a
importação de medicamentos mais econômicos do Canadá e/ou pressione
pela concessão de maiores descontos nas especialidades adquiridas para
o programa assistencial estatal Medicare. Analistas acreditam que a
concretização desta última hipótese poderia acarretar perdas de
receita da ordem de 3% a 10% para a indústria farmoquímica
norte-americana. Por outro lado, fala-se na universalização da
assistência médica no país, o que dificilmente deixaria de beneficiar
as vendas do setor farmacêutico. |
Cuca Jorge

Michael Nothenberg
é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com |
Nem todos os segmentos do mercado farmacêutico enfrentarão dificuldades
em 2009. Os fármacos éticos, receitados por especialistas, deverão ter
suas vendas elevadas em 9%, respondendo por 67% da expansão prevista para
o ano. Biofármacos, produtos oncológicos e antivirais usados no controle
do HIV deverão crescer acima da média, com taxas de até 12%, 16% e 14%,
respectivamente.
Fora dos Estados Unidos, os prognósticos do setor também não são
animadores. Os cinco principais membros da Comunidade Europeia – França,
Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido – poderão crescer 3% a 4% entre
2008 e 2009, totalizando US$ 162-172 bilhões em vendas de medicamentos no
ano. Os números não refletem uma possível expansão mais significativa nos
mercados dos antigos países satélites soviéticos, situados no centro e
leste do continente europeu. O Japão, segundo principal mercado
farmacêutico mundial, deverá surpreender, crescendo a taxas de 4%-5% no
período, totalizando entre US$ 84 e 88 bilhões, graças à promoção de
programas governamentais de medicina preventiva, manutenção de preços e
avanço menos expressivo dos genéricos.
Emergentes – Resultados declinantes nos mercados de primeiro
mundo contrastam com os de países em desenvolvimento e ajudam a explicar
alguns dos prognósticos otimistas para o início da próxima década. Em
2007, os mercados da China, Coréia do Sul e Índia experimentaram expansões
de 25,7%, 10,7% e 13%, respectivamente, ao passo que Rússia e Turquia
cresceram 20,2% e 17,2%, respectivamente. São taxas expressivas quando
comparadas com a expansão de 3,8% verificada no mercado norte-americano no
mesmo período. Há previsões de que países emergentes possam representar,
em conjunto, um mercado de US$ 300 bilhões em 2017, aproximando-se do
montante hoje representado pela soma dos mercados dos cinco principais
países europeus mais o norte-americano.
Não surpreende, pois, a crescente atração da “big farma” pelos países
emergentes, e não faltam exemplos para ilustrar a tendência. A britânica
GlaxoSmithKline assinou recentemente acordo de licenciamento com a Aspen,
fabricante de genéricos da África do Sul, adquirindo, pouco depois, por
US$ 200 milhões, as instalações de sua concorrente Bristol Myers-Squibb no
Egito. Seguindo as pegadas da AstraZeneca e da Abbott, que não escondem
seu entusiasmo com os resultados da exploração comercial de remotas
províncias chinesas, a Pfizer, não satisfeita em atuar somente nas
metrópoles costeiras, anunciou a expansão de suas atividades comerciais,
abrangendo 130 cidades no hinterland chinês.
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Brasil sinaliza vocação para potência farmacêutica |
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Inquestionável membro do grupo de sete países – ao lado de Rússia,
China, Índia, México, Coréia do Sul e Turquia – cujos integrantes
poderão, segundo a consultoria IMS Health, exibir taxas de crescimento
do mercado farmacêutico da ordem de 12% a 13% em 2009, o Brasil é o
décimo mercado farmacêutico mundial. Avaliada em US$ 5,2 bilhões em
2007, a receita produzida pelas vendas de medicamentos no Brasil torna
o país vice-líder latino-americano, superado apenas pelo México. A
farmoindústria brasileira, responsável pela ocupação de
aproximadamente 47 mil empregados, é constituída por 553 laboratórios,
um quinto dos quais estrangeiros. São estes, contudo, detentores de
75% do mercado interno. A indústria nacional, representada por
empresas como Medley, EMS, Biosintética e Eurofarma, experimenta
expansão impulsionada primariamente pela produção de especialidades
genéricas. Segundo a consultoria Frost & Sullivan, o mercado de
genéricos, que conta também com a expressiva participação de empresas
estrangeiras, como a alemã Hexal, a indiana Ranbaxy e a canadense
Apotex, deverá crescer mais de 27% ao ano até 2011, elevando a
participação destas especialidades para 25%, a partir dos 17%
conquistados no período de oito anos iniciado com a regulamentação do
setor, em 1999.
Esclarecimento e liberdade - Evento significativo no
panorama farmacêutico nacional foi a implantação local de subsidiária
da futura multinacional Moksha8, em abril de 2008. Com denominação
que, à primeira audição, lembra nome de espaçonave russa, mas na
realidade provém do sânscrito, significando algo como esclarecimento e
liberdade, a empresa tem sede na China, onde foi fundada em dezembro
de 2006. A Moksha8 foi criada com recursos de montante não divulgado
originários de dois fundos de investimentos, Texas Pacific Group, dos
EUA, e Votorantin Novos Negócios, do grupo Votorantim.
A filial brasileira, a primeira a ser criada dentre as planejadas
em oito países alvo (de onde se origina o numero oito no nome da
empresa) deverá absorver US$ 500 milhões ao longo dos próximos cinco
anos. O primeiro objetivo no Brasil será a promoção de vinte
especialidades populares, incluindo produtos como o antibacteriano
Bactrin, o ansiolítico Lexotan e o hipoglicemiante Diabinese – com
valor de mercado anual conjunto da ordem de R$ 130 milhões –, graças a
acordos de distribuição já celebrados com produtores como Pfizer e
Roche. Numa segunda fase, a empresa planeja estender suas atividades
comerciais a especialidades mais modernas, ainda não disponíveis fora
dos países mais adiantados, assumindo, para tanto, a responsabilidade
pelo licenciamento onde tais procedimentos lhe sejam permitidos. Os
projetos da Moksha8 no Brasil incluem, até o final do primeiro
quinquênio de atividades, a criação de planta dedicada à produção de
fármacos de origem biotecnológica. Está assim explicada a contratação
de Fernando Reinach, ex-pesquisador do Instituto de Química da USP e
ex-presidente da Comissão Técnica de Biossegurança, CTNBio, como
diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios.
Espinhos – É bom lembrar que nem tudo serão flores para os
candidatos a investidores no mercado farmacêutico brasileiro. Para um
executivo da IMS Health, as taxas e impostos cobrados pelo governo
brasileiro sobre medicamentos – cerca de 30% do preço de venda – estão
entre as mais elevadas do mundo e respondem pela capacidade ociosa de
aproximadamente 40%, que caracteriza a indústria farmacêutica local.
A crítica do analista da IMS precede em seis meses matéria
publicada em 14 de dezembro passado no jornal “O Estado de São Paulo”,
na qual especialistas alertam que genéricos anti-aids produzidos no
Brasil chegam a custar sete vezes mais que seus equivalentes
produzidos na Índia. O artigo aponta como causas do fenômeno a
incidência de impostos elevados, secundada pela baixa economia de
escala e dificuldades na aquisição de matérias-primas, sem
desconsiderar “certa acomodação” de fabricantes, particularmente
laboratórios estatais, protegidos da concorrência comercial.
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Ainda no Oriente, a Pfizer anunciou a formação de joint venture com o
banco Grameen, de Bangladesh, para distribuir medicamentos básicos em
áreas rurais do país. A estratégia inclui expressiva redução de preços das
especialidades populares, atraindo a população de baixo poder aquisitivo,
com ganhos até US$ 3 mil anuais. A empresa espera assim elevar o dispêndio
com medicamentos desta parcela da população dos atuais US$ 30 bilhões
anuais para US$ 60-70 bilhões ainda em 2012. Uma das medidas destinadas a
concretizar a previsão foi oferecer seu sildenafil (Viagra) aos indianos
por uma fração do valor cobrado aos norte-americanos. Na mesma linha de
atuação, a Merck disponibiliza seu antidiabético Januvia (sitagliptina),
aprovado nos EUA em 2006, a preços reduzidos ao mercado indiano.
Entrementes, a suíça Novartis anuncia planos para expandir sua
participação no mercado rural daquele país, esperando adquirir 50 milhões
de novos clientes até 2010. Em termos globais, o mercado farmacêutico
indiano deverá representar US$ 20 bilhões em 2015, mais do triplo dos US$
6,3 bilhões de 2005.
Discovered in China – A migração do foco da indústria
farmacêutica para o terceiro mundo não se dá apenas na área comercial. A
inauguração, em meados de novembro passado, de três novos escritórios da
FDA em território chinês, em Pequim, Guangzhou e Shangai, com função de
fiscalizar a crescente produção farmacêutica local, é sintoma da
terceirização – o chamado outsourcing – nesta área. A Índia hospeda
atualmente mais de cem instalações farmacêuticas aprovadas pelo FDA,
fazendo do país vice-líder mundial em número de plantas dedicadas ao
setor.
Terceirização ainda mais intensiva é detectada nos ensaios clínicos. Em
2008, a China superou a Índia no número de ensaios clínicos em execução.
Em junho passado, havia 428 ensaios em andamento, de um total de 870
ensaios realizados no país desde o início do ano. A título de comparação,
a Índia sediou 737 ensaios. Segundo avaliação da consultoria londrina
PriceWaterhouseCoopers, o fator determinante para a seleção dos locais dos
ensaios é o custo. Testes clínicos feitos na Índia requerem metade dos
recursos necessários à realização de ensaios equivalentes nos Estados
Unidos.
Há, também, motivações técnicas para algumas especialidades de pesquisa
clínica. A Novartis mantém centros de pesquisas em Shangai e em Cingapura,
levando em consideração variações de natureza farmacogenômica,
responsabilizadas, por exemplo, pela alta incidência de cânceres por vírus
na China, contrastando com sua baixa prevalência na Europa, bem como nas
diferentes reações de asiáticos e europeus a doses de anestésicos.
Nota-se também tendência de migração da inovação tecnológica, na forma
de laboratórios de desenvolvimento de fármacos, em países emergentes, com
ênfase para as pequenas, mas intelectualmente preparadas Cingapura, Coréia
do Sul e Taiwan. Em cinco a dez anos migraremos do “made in China” para o
“discovered in China”, profetiza o executivo entrevistado pela PWC. Não
deixa de ser significativo que somente nove de 18 novas terapias
introduzidas nos Estados Unidos em 2006 sejam originárias de empresas
integrantes da comunidade “big farma”. Alguns fabricantes de genéricos,
originalmente meros copiadores, já dão sinais de capacidade inovadora, a
exemplo da indiana Dr Reddy´s e da gigante israelense Teva. |
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