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CELULOSE
Incertezas marcam congresso do setor

"Tsunami financeiro”. A expressão talvez tenha sido a mais pronunciada pelos participantes do 41º Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel. Realizado entre os dias 13 e 16 de outubro na cidade de São Paulo, bem no meio do período de altas e baixas muito fortes das bolsas de valores de todo o mundo, o evento reuniu as principais lideranças nacionais e empresas fornecedoras de serviços e equipamentos. O encontro levou a assinatura da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP).

Nenhum representante das entidades ligadas ao setor presente no evento se arriscou a dizer o que acontecerá com os negócios nos próximos meses. Alberto Mori, presidente da ABTCP, foi enfático. “Nesse momento, é impossível avaliar o que vai acontecer”, resumiu. Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), reforçou a tese. “Acho que teremos que esperar alguns meses para saber o rumo que a economia vai tomar”, disse.

O quadro apresentado durante as palestras realizadas no congresso foi traçado dias antes do pavor tomar conta do mercado financeiro. Não fosse a crise, o cenário seria dos melhores, em especial para os produtores nacionais de celulose. No caso da indústria do papel, o otimismo era mais moderado. Pelo menos uma notícia foi bem recebida. Exportador de vários produtos, o setor espera que o dólar não retorne ao patamar pré-crise. “Caso o efeito de toda a turbulência se resuma à desvalorização do real, pode-se dizer que o ‘terremoto’ deixa a taxa de câmbio como saldo positivo. Desde, é lógico, que não ocorra um quadro de recessão”, avaliou Mori.

Antes do “tsunami financeiro”, as empresas de papel e celulose anunciaram investimentos da ordem de US$ 8,7 bilhões entre 2008 e 2012. Se forem realmente aplicados, esses recursos devem elevar a capacidade de produção, no final desse período, para 17,5 milhões de toneladas de celulose e 11,5 milhões de toneladas de papel. Desses totais, 10,5 milhões de toneladas de celulose e 2 milhões de toneladas de papel seriam destinados à exportação. “É muito cedo para dizer se esses planos serão mantidos após a crise”, disse Elizabeth. Se para o futuro as coisas são incertas, vale a pena ressaltar o esforço feito por esse segmento nos últimos anos. De 2003 a 2007, empresas de celulose e papel realizaram investimentos da ordem de US$ 6,5 bilhões no país.

Celulose – Números apresentados pela Bracelpa aos participantes do evento deram uma idéia do desempenho do setor de celulose nos últimos tempos. A produção nacional em 2007 ficou na casa de 12 milhões de toneladas, crescimento de 7,3% em relação a 2006. Nos primeiros oito meses de 2008, ela foi de 7,7 milhões de toneladas, 11,1% superior à do mesmo período do ano passado. “No último mês de junho, o país passou do sexto para o quarto lugar no ranking dos maiores produtores mundiais”, revelou Elizabeth.

O Brasil é grande exportador de celulose. Ao todo, em 2007, arrecadou divisas da ordem de US$ 3 bilhões com as vendas externas, contra US$ 232 milhões de importações. Em 2008, até agosto, as exportações atingiram US$ 2,6 bilhões e as importações US$ 177 milhões, contra, respectivamente, US$ 1,9 bilhão e US$ 138 milhões no mesmo período do ano passado. Só para o mercado chinês, as exportações brasileiras da celulose no primeiro semestre de 2008 cresceram 90% em relação a 2007.

Alguns fatores ajudam a entender esse ótimo desempenho, em especial no nicho da celulose de eucalipto, no qual o país surge como líder mundial de produção. Aliadas à ótima produtividade da indústria, proveniente dos altos investimentos em pesquisa e tecnologia, as condições de clima e solo brasileiras são extremamente favoráveis ao desenvolvimento da árvore. O Brasil produz, anualmente, uma média de 50 m3 de madeira por hectare, volume muito mais elevado que o verificado em outros países. Por aqui, em sete anos, uma árvore de eucalipto já está em ponto de ser colhida. Na maioria dos países, o ciclo de colheita demora catorze anos. 

Em paralelo, nos últimos tempos, com o aquecimento global da economia, o consumo de celulose vem evoluindo de forma consistente, pelo menos até o estouro da crise. Além da crescente demanda verificada nos países desenvolvidos, o rápido crescimento de países emergentes, como China e Índia, tem cooperado com as exportações brasileiras. Isso no momento em que produtores da Europa, que se encontram entre os principais do mundo, enfrentam estagnação pelo alto custo da energia e pela escassez de madeira.

Papel - A produção nacional de papel, por sua vez, foi de 9 milhões de toneladas no ano passado, número 3,2% superior ao de 2006. Nos primeiros oito meses deste ano, atingiu a casa dos 6,1 milhões de toneladas, 1,7% a mais do que no mesmo período do ano passado. O Brasil é o décimo primeiro maior produtor do mundo e tem ambição de chegar ao décimo ou até ao nono posto em prazo não muito longo. No caso do papel, as exportações são bem menos significativas. As exportações brasileiras, em 2007, ficaram na casa de US$ 1,1 bilhão, contra US$ 672 milhões de importações. Até agosto de 2008, as exportações de papel foram de US$ 1,3 bilhão, contra US$ 919 milhões de importações.

O mercado internacional de papel é bem mais competitivo do que o de celulose. Um dos empecilhos é o fato de as grandes fábricas geralmente se instalarem próximas dos mercados consumidores. Os investimentos por aqui em novas plantas de grande escala, com potencial de vendas para o exterior, esbarram em questões de transporte. O país, por exemplo, compete em desigualdade de condições com os grandes produtores europeus, vizinhos de grandes mercados consumidores. Isso levou o palestrante Carlos Farinha e Silva, vice-presidente da consultoria Pöyry Tecnologia, a dar uma sugestão. “Por que os grandes fabricantes do setor não abrem fábricas de papel abastecidas com celulose nacional na China?” Para Silva, trata-se de um investimento com bom potencial para o sucesso. Afinal, poderia ser usada celulose brasileira, as boas condições de produção chinesas e estar próximo de um mercado para lá de promissor. “É um negócio que merece ser avaliado”, resumiu.

“Temos um sério problema na área de papéis para impressão”, ressaltou Elizabeth. O país concede benefícios fiscais para os papéis utilizados na impressão de livros e mídias impressas. A prática tem estimulado muitas fraudes. Volume considerável de papel importado chega por aqui como se fosse para a impressão de produtos educativos ou de difusão de informação e acaba sendo desviado para outras finalidades, prejudicando os produtores nacionais. “Temos feito várias reuniões com autoridades da receita para tornar essa fiscalização mais rigorosa”, explicou.

Juros, financiamento... – Alguns aspectos econômicos enfrentados pelas empresas do setor no cotidiano foram avaliados durante o congresso. A presidente da Bracelpa vê com bons olhos o Plano de Desenvolvimento da Produção, lançado em maio pelo governo federal e que tem como meta levar o Brasil à liderança mundial na produção de celulose e papel no prazo de cinco anos. Mas reclamou da elevada carga fiscal do país, em especial dos impostos que recaem sobre as empresas que investem na expansão da produção. Ela também lamentou os juros altos cobrados por aqui, até mesmo os praticados pelo BNDES. Sem falar na desvalorização do dólar ocorrida nos últimos tempos. Mas isso foi antes da crise, ninguém sabe em que patamar o dólar vai se estabilizar nos próximos meses.

Outro aspecto abordado por Elizabeth foi o da questão ambiental, hoje no centro de todas as discussões. O setor, não raro, é acusado como predatório por defensores da natureza. A dirigente anunciou o lançamento de um plano de comunicação para esclarecer o público, feito em parceria com outras entidades ligadas ao setor.

A idéia é demonstrar que existem algumas falácias sendo repetidas, como a de que o papel desmata a Floresta Amazônica. De acordo com a dirigente, a árvore utilizada não vem da Amazônia. Ela é plantada, da mesma forma que um produto agrícola. Durante o ciclo do corte, as árvores promovem benefícios ao meio ambiente, ao contrário do que ocorre com as pastagens ou o cerrado. Além disso, os fabricantes de papel mantêm áreas de floresta preservadas. Para ela, o papel não merece ser vilão nesse quesito.

Exposição – Em paralelo ao congresso, foi realizada uma feira que contou com nove mil metros quadrados, onde cerca de 230 expositores mostraram suas novidades aos fabricantes. Estima-se que ela foi visitada por aproximadamente 18 mil pessoas. “A feira tem o propósito de difundir tecnologia e permitir a interação dos profissionais ligados ao setor”, explicou Mori. A grande maioria dos expositores era formada por fornecedores de máquinas e equipamentos. “Os grandes temas explorados durante a exposição foram ganho de produtividade por meio de automação, proteção ao meio ambiente e economia de energia”, resumiu o presidente da ABTCP.

José Paulo Sant‘Anna

 
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