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RECICLAGEM
Itália cria coleta seletiva remunerada

Em toda a Itália, independentemente da procedência doméstica ou industrial, que o lixo é um negócio altamente rentável ninguém dúvida. Depois que as imagens da emergência sanitária em Nápoles invadiram televisores do mundo todo e que, graças ao distrito antimáfia da cidade, revelou-se um acordo entre o chamado consórcio Eco 4 – ligado à temida Camorra e a dezoito prefeituras da província de Nápoles –, a ineficiência do poder público local na gestão dos aterros de lixo ficou inegável.

Talvez por isso, a iniciativa de uma empresa de Turim, no norte da Itália, a primeira a propor a liberalização do mercado da reciclagem, está provocando diversos debates entre ambientalistas, expoentes políticos e cidadãos do país.

Localizada em Moncalieri, a Recoplastica acaba de lançar uma proposta inovadora: valorizar o lixo reciclável e aproximar as pessoas do processo de triagem e separação de resíduos orgânicos e inorgânicos.

No último dia 6 de setembro, a empresa inaugurou o chamado Ecopunto. Trata-se de um local onde qualquer morador da cidade pode levar o próprio lixo reciclável e vendê-lo ao preço de mercado. Para cada quilo de alumínio, por exemplo, paga-se 50 centavos de euro. Já os valores do quilo do ferro e do plástico e papel são respectivamente estimados em 20 e 18 centavos de euro.

“Muitas pessoas incentivaram a iniciativa da Recoplastica porque na Itália assim que os resíduos são produzidos se tornam patrimônio público”, declara a direção da empresa.

Na verdade, as normas italianas sustentam que, até não ser depositado em aterros sanitários públicos ou mesmo nas lixeiras comuns, os resíduos são de propriedade privada, além do que, as prefeituras ou as empresas terceirizadas contratadas por elas são as únicas instituições responsáveis pela sua coleta e destinação.

Portanto, sob o ponto de vista legal, uma brecha na norma permite que o proprietário dos resíduos possa vendê-los a uma empresa autorizada como a Recoplastica, por exemplo.

Não é difícil entender por que o Ecopunto é uma iniciativa de sucesso. Primeiramente, representa uma maneira indireta de compensar os gastos de cada cidadão com a chamada Tarsu (Tassa per lo smaltimento dei rifiuti solidi urbani).

Para que seus próprios resíduos sejam recolhidos, anualmente cada núcleo familiar contribui com uma taxa destinada à prefeitura da cidade onde vive, cujo valor varia de acordo com o número de componentes de cada família. “Nossa idéia era ajudar principalmente os aposentados, uma das faixas mais penalizadas da população. Por isso, pensamos em uma iniciativa de caráter social e que significasse economizar algum dinheiro com o lixo doméstico”, sustenta Roberto Gravinese, consultor da Recoplastica e responsável pelo projeto.

“O lixo doméstico é uma propriedade privada e é justo que os próprios cidadãos possam recapitalizá-lo diretamente de uma maneira eficiente”, completa.

O interesse demonstrado pelo projeto foi tanto que, até 2009, a Recoplastica pretende inaugurar, em um sistema de franchising, 50 pontos de coleta, compra e reciclagem de lixo inorgânico. Até agora, mais de 320 cidades já manifestaram interesse, entusiasmadas com a idéia do Ecopunto.

O ambicioso projeto da empresa, no entanto, já é motivo de polêmica, porque representaria uma eventual ameaça às empresas e consórcios de coleta e transformação de resíduos que prestam serviços às prefeituras italianas e que juntos detêm uma grande fatia do mercado de reciclagem. Estima-se que, com a venda de lixo inorgânico para o Ecopunto, comerciantes possam ganhar até 2,5 mil euros por mês; uma cifra que beneficiaria os cidadãos e o ambiente e também faz refletir sobre a estratégia pública italiana de limpeza urbana.

Basta pensar que, enquanto em Nápoles e província são empregados 11,7 mil lixeiros (6,2 mil só na capital) – o que equivale a um custo anual de 350 milhões de euros –, a sede da montadora Fiat na cidade de Pomigliano d’Arco, na mesma província, possui em seu quadro 5,7 mil funcionários.

Segundo os últimos dados divulgados pelo Osservatorio Nazionale sui Rifiuti, órgão do ministério do meio ambiente, em 2005 foram produzidas na Itália mais de 131 milhões de toneladas de resíduos, das quais 31,6 milhões de resíduos urbanos, 57,7 milhões de resíduos especiais ou perigosos e mais de 42 milhões provenientes de construções ou demolições.

Nas áreas urbanas, a reciclagem atingiu no mesmo ano 7,6 milhões de toneladas, mas entre 2000 e 2005 o percentual de resíduos reciclados passou de 24,3 para 23,4 milhões.

Até agora, os métodos mais utilizados pelo governo italiano para incentivar a reciclagem do lixo foram aqueles convencionais, tais como campanhas informativas, a educação ambiental nas escolas ou a aplicação de multas aos condomínios. Todavia, apesar de todos os bairros possuírem contêineres destinados a receber cada tipo de material, ainda é muito comum encontrar sofás ou geladeiras bloqueando ruas, e condomínios pouco dispostos a realizar a triagem do lixo seco e úmido. Isso também porque as regras para a separação dos resíduos são muito precisas, porém pouco divulgadas. As embalagens em tetrapak, por exemplo, devem ser colocadas junto com outros papéis e o alumínio com o vidro. Guardanapos, pratos e copos de plástico – largamente consumidos no país –, assim como as embalagens utilizadas para o acondicionamento das pizzas, não podem ser misturados ao papel, pois contêm resíduos alimentares.

Por outro lado, o óleo utilizado nas frituras, bem como baterias ou pilhas usadas devem ser levados até um local denominado ilha ecológica, enquanto que as mesmas regras prevêem que peças em cerâmica devam ser colocadas junto com o lixo comum. Remédios vencidos, por sua vez, são entregues nos pontos de coleta presentes nas farmácias.

Em Roma, por exemplo, uma vez por mês, a prefeitura também organiza pontos de coleta de materiais eletrônicos e de grandes móveis ou eletrodomésticos.

Outra iniciativa recente aplaudida pelos ambientalistas é aquela do Corepla (Consorzio Nazionale per la Raccolta, il Riciclaggio e il Recupero degli Imballaggi in Plastica), juntamente com a Federação Italiana de Parques e Reservas naturais. Graças a um acordo entre os dois parceiros, produtos como mesas, cadeiras e vasos fornecidos para os maiores parques italianos serão confeccionados com plástico reciclado.

Bons exemplos de respeito ao meio ambiente também emergem no setor privado. Os moradores da região da Campania idealizaram uma petição on-line sugerindo a venda de produtos de limpeza a granel nos supermercados. Na Itália, calcula-se que as embalagens representem cerca de 30% do preço final dos alimentos.

Em outras regiões da Itália, no entanto, a venda de produtos sem embalagens já é uma realidade. Pensando em clientes com exigências diferentes como solteiros ou famílias numerosas, o grupo Crai, cooperativa de distribuição organizada, lançou uma rede de 23 supermercados (o maior deles em Lugo, Ravenna) onde produtos como cereais, macarrão e detergentes são comercializados sem nenhuma embalagem e na quantidade desejada pelo consumidor. Outra rede de  lojas é a MilleBolle, especializada em detergentes e produtos de limpeza sem embalagens.

No país, também se multiplicam os pontos-de-venda de leite fresco diretamente do produtor e de água diretamente da fonte. O consumo per capita de água mineral atinge na Itália a cifra de 200 litros por ano. Mais de 97% das famílias italianas compram garrafas deste produto e, para a maioria delas, a venda da água dessa forma representa uma grande economia, bastando levar de casa um recipiente adequado.

Outra iniciativa análoga é a da rede de lojas Lush, especializada na venda de cosméticos a granel ou com embalagens 100% recicladas como sabonetes, xampus e perfumes.

Divulgação

A produtora de cosméticos Lush usa embalagens recicladas

No setor da bioarquitetura, a maior novidade italiana é um edifício inteiramente ecológico. Localizado na cidade de Conegliano, toda a sua estrutura de dois andares e 600 metros quadrados foi construída com material reciclável como garrafas Pet e serragem.

Anelise Sanchez

 
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