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ENSINO SUPERIOR
Cursos ligados à Química enfatizam lado ambiental

A combinação entre a evolução tecnológica e as novas demandas da sociedade – hoje interessada não apenas na economia, mas também na preservação do planeta –, tem impacto direto nos cursos do ensino superior vinculados à indústria química. Agora, eles buscam formar profissionais capazes de pensar sobre as várias vertentes de sua atuação de uma maneira mais abrangente, e assim atender melhor às necessidades de empresas cada dia mais posicionadas como provedoras de soluções destinadas ao bem-estar e à vida, em vez de meras fornecedoras de insumos e commodities.

Ao mesmo tempo, esses cursos se abrem para os conteúdos oriundos dos campos de atividade gerados por essa mescla entre evolução tecnológica, econômica e as demandas sociais. Hoje, de maneira geral, tais conteúdos podem ser aglutinados em três campos: biotecnologia, sustentabilidade ambiental e energia.

Esses dois últimos campos de conhecimento foram colocados, este ano, como bases do curso de Engenharia Química da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo, agora apresentado como Engenharia Química com ênfase em Energia e Sustentabilidade. A nova nomenclatura trouxe consigo uma reformulação curricular destinada a reforçar os conteúdos vinculados a esses temas em disciplinas como Química Orgânica dos Combustíveis; Tecnologia de Gás, Petróleo e Carvão; Gestão da Água, entre outras.

As razões desse novo foco: “Qualquer ramo da engenharia precisa hoje considerar essas duas questões: matriz energética e sustentabilidade”, explica Francisco Paletta, diretor da Faculdade de Engenharia e da Faculdade de Computação e Informática da FAAP.

Já a Biotecnologia, cuja integração às grades curriculares acontecia já há algum tempo, ganha agora mais ênfase, destaca Cleber Wanderlei Liria, coordenador do curso de Engenharia Química das Faculdades Oswaldo Cruz. “Hoje, esse conteúdo está relacionado a diversos temas, e muito atrelado à sustentabilidade ambiental”, ele acrescenta.

Segundo Liria, nas Faculdades Oswaldo Cruz há atualmente disciplinas como Bioquímica Industrial – nos cursos de Engenharia Química e Química Industrial – e Biotecnologia, componente da grade dos cursos de licenciatura e bacharelado em química.

Na realidade, a biotecnologia gera até cursos específicos, como Engenharia Bioquímica, e, mais recentemente, Engenharia de Bioprocessos, lembra José Luis de Paiva, coordenador de graduação do curso de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). A Engenharia de Bioprocessos, por exemplo, é oferecida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. E, na opinião de Paiva, também a nanotecnologia ampliará sua presença nos conteúdos dos cursos. Para ele, “não existe consenso quanto às mudanças necessárias na estrutura curricular, porém há consenso quanto à necessidade de mudanças”.

Relacionamento e antecipação – No próximo ano, o curso de Engenharia Química da Politécnica da USP trabalhará de forma mais intensa na integração entre diferentes disciplinas. Por exemplo: Termodinâmica e disciplinas dedicadas ao transporte de calor e aos sistemas de transporte de fluidos, atualmente oferecidas por professores diferentes em um mesmo quadrimestre (já há alguns anos, os últimos três anos desse curso estão estruturados em quadrimestres, e não em semestres). “Não é mais interessante ficar administrando disciplina por disciplina, o mercado hoje exige profissionais com visão mais generalista”, justifica Paiva.

Para ele, é preciso considerar ainda que o êxito profissional dos egressos das universidades não depende mais apenas do conhecimento teórico e técnico, mas também da capacidade de relacionamento e do trabalho em grupo. Por isso, ele avalia, mostra-se bastante interessante o modelo atualmente adotado por sua escola, no qual quadrimestres acadêmicos são intercalados com outros nos quais os alunos realizam estágios em empresas conveniadas.

Segundo Paiva, a formação dos profissionais da área química cada vez mais valoriza a formação em ciências básicas, como Física, Matemática, Química e Informática, e os conteúdos relacionados às disciplinas das ciências da engenharia química, como Termodinâmica, Engenharia das Reações Químicas e Engenharia Bioquímica. “Já as disciplinas de cunho descritivo de processos químicos perderam espaço na estrutura curricular”, complementa.
 

A visão dos profissionais

Biopolímeros e biocombustíveis são temas já merecedores de cadeiras específicas nos cursos superiores de Química, avalia Letícia Mendonça, gerente de especialidades plásticas da Basf. E, para ela, o profissional interessado em colocar-se melhor no mercado precisa ter também o conhecimento relacionado à sustentabilidade, pois as empresas devem necessariamente trabalhar de maneira sustentável. Esse tema, aliás, nem pode ficar limitado a uma única disciplina: “Ele deve permear o conteúdo de todo o curso”, diz Letícia, graduada em engenharia química em 1993.

Berenice Santos Freire, diretora-comercial da Garden Química – e bacharel em química industrial desde 2004 –, também considera os conhecimentos relacionados à sustentabilidade indispensáveis para os novos profissionais da química, e aconselha a combinação entre a teoria e o intercâmbio direto com a empresa nos trabalhos de conclusão dos cursos. “E não vejo a necessidade de matérias não aplicáveis na indústria, nem de conteúdos programáticos extensos, sem nenhuma aplicabilidade na realidade do dia-a-dia; inglês técnico, por exemplo, para mim é matéria totalmente desnecessária em um curso de graduação”, especifica Berenice.

Essa perda de espaço das disciplinas meramente descritivas ocorre também porque, conforme enfatiza Liria, da Oswaldo Cruz, não é mais possível transmitir aos alunos todas as informações geradas pelo aceleradíssimo movimento de expansão do conhecimento. Por isso, as instituições de ensino superior precisam antecipar tendências e demandas, e inserir essas informações na formação dos alunos. “Mas elas precisam ser oferecidas juntamente com o conhecimento básico, um profissional da área química precisa conhecer Química, Física e Cálculo e não apenas as tendências de mercado e novas demandas”, finaliza Liria.

Antonio Carlos Santomauro

 
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