| |
COURO
Laboratório gaúcho apóia produção
sustentável
O
Laboratório de Estudos em Couro e Meio Ambiente (Lacouro), da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mantém a produção científica e
tecnológica permanente para promover o aperfeiçoamento do couro em paralelo
com a indicação de vetores para diminuir o impacto ambiental gerado pela
indústria de curtumes.
|
A
coordenadora das pesquisas no Lacouro é a professora doutora Mariliz
Guterres. Especialista em uma etapa muito específica do acabamento do
couro, o engraxe, ela saiu do Brasil em 1997 com uma dissertação de
mestrado sobre industrialização do couro. Retornou em 2001 com a tese
de doutorado aprovada na Alemanha sobre o engraxe. Ela sabe, por
exemplo, que o limite desejável de adição de um óleo engraxante sobre
a superfície interna de uma pele, onde esses produtos são aplicados,
começa a ficar crítico acima dos 7%.
A análise de Mariliz partiu do estudo com couros curtidos em sulfato
de cromo e |
Fernando C. de
Castro

Mariliz: pesquisa detectou limite de aplicação do engraxante |
taninos. Para chegar ao engraxe
correto, é preciso conhecer as propriedades físicas e químicas do couro.
Foram levadas em conta as condições cinéticas e de trabalho, mudança das
propriedades e comportamento micelar de concentração justamente porque as
emulsões de engraxe são substâncias tensoativas e têm uma parte hidrofóbica
e outra hidrofílica.
Com isso, existe um momento em que o estado termodinâmico dessa emulsão
começa a formar micelas. Para cada tipo de óleo engraxante há uma
concentração micelar crítica depositada sobre o couro. O objetivo do estudo
produzido por Mariliz consistiu justamente em procurar a interface a ser
depositada, associá-la com a hierarquia da estrutura fibrosa e calcular a
superfície interna dos elementos estruturais de colagênio, pois a estrutura
do couro é formada por uma complexa rede de fibras, feixes, fibrilas,
microfibrilas e moléculas tríplices em formato de hélice.
Para tanto, foi empregado o microscópio eletrônico de varredura capaz de
tornar visível a nanoestrutura e proporcionar um couro macio com o nível
exato de penetração do óleo na superfície interna. Mariliz empregou
substâncias de engraxe com tamanho de moléculas conhecidas e calculou o
volume exato de maneira a cobrir uma superfície em posição perpendicular a
essa mesma superfície.
A primeira conclusão é que essas moléculas devem habitar as microfibrilas,
ou seja, a superfície interna para que o couro fique macio e não se torne
oleoso. O efeito micelar ocasiona uma maior retenção das moléculas sobre a
superfície.
Outro ponto está relacionado com o tamanho da molécula para classificar os
tensoativos e especificar quais as situações podem funcionar como umectantes
ou apenas engraxantes propriamente ditos. Os tensoativos podem funcionar
ainda como agentes hidrofugantes e assumirem função impermeabilizadora.
O primeiro efeito de maciez já é verificado com a adição de 1% de óleo de
engraxe. Daí em diante o volume irá derivar em função do tamanho da molécula
e do nível de maciez a ser atingido. Na resistência mecânica também a
recomendação fica em 1%. Até 6% é aceitável. Se variar até 20% ocorrerá
excesso de óleo e se ele não for fixado quimicamente, o tecido pode
endurecer com o tempo.
A pesquisadora analisou os grupos funcionais expostos nas microfibras como
forma de verificar quantos são os pontos de reação com o óleo. Não existem
grupos funcionais suficientes que suportem grandes teores de óleo na
superfície interna. Por isso, apontar o efeito hidrofóbico é muito
importante.
O Lacouro foi criado em 2001, mas a primeira iniciativa da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul em estudar e desenvolver tecnologias voltadas à
química industrial do couro remonta a 1949. Naquele ano foi formado o
primeiro curtume laboratório em um galpão próximo ao centro de Porto Alegre.
Depois surgiram os cursos livres de curtimento voltados aos proprietários de
curtumes. Mais adiante passou a se chamar curso de tecnologia em curtentes.
Em 1974, junto à escola de engenharia da UFRGS, pela importância do pólo
industrial regional de couros e calçados, foi firmado um convênio entre o
Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Ministério da Indústria e Comércio
e com a Secretaria de Tecnologia Industrial. O curso foi extinto em 1980 por
conta das novas diretrizes acadêmicas as quais fixaram os cursos superiores
para um mínimo de quatro anos de duração.
Uma modificação importante ocorreu em 1997 com a introdução das disciplinas
específicas direcionadas à química industrial do couro. No mesmo ano,
Mariliz Guterres apresentou, na forma de dissertação de mestrado, a
possibilidade de industrialização de um compósito de couro com resinas
termoplásticas em substituição às chapas aglomeradas de madeira por meio de
fundição em prensa, passando ainda pelos processos de mistura e moagem.
Material similar ao aglomerado de couro e polímero é produzido
industrialmente por algumas empresas do Vale dos Sinos, as quais fornecem as
chapas à indústria de móveis. Segundo Mariliz, para produzir os aglomerados
a empresa necessita de capital expressivo, porque a linha industrial é a
mesma de uma fábrica de beneficiamento de madeira. Na mesma década, foram
oficializados os cursos de pós-graduação e que resultaram até o presente
momento em 20 dissertações de mestrado, 14 na área de curtimento e seis em
controle ambiental.
É o caso da dissertação produzida por Guilherme Pantaleão da Silva Priebe em
2007, intitulada produção de oleína extraída do tecido subcutâneo de peles
bovinas. O estudo mostra que a eliminação de materiais indesejáveis é a
primeira etapa do processo de beneficiamento do couro, para melhorar o
processo de curtimento e evitar a contaminação do couro acabado. A primeira
etapa é denominada pré-descarne. Realizada mecanicamente, tem como objetivo
eliminar o tecido subcutâneo para permitir a melhor absorção dos agentes
químicos.
Conforme Priebe, a operação é caracterizada pela geração de resíduos
constituídos basicamente por tecido subcutâneo e aparas, nos quais são
observados conteúdos elevados de materiais graxos, minerais, proteínas e
água. As matérias graxas presentes no tecido subcutâneo são constituídas de
triglicerídeos (ésteres glicéricos de ácidos graxos), cuja presença ou não
de insaturações em suas cadeias carbônicas determinam várias de suas
características físicas.
A produção de oleína a partir dos constituintes do resíduo de pré-descarne é
realizada por meio das operações unitárias de extração e posterior
fracionamento do material graxo (sebo). A extração é realizada via
processamento térmico, no qual ocorre a fusão e parcial emulsão dos
constituintes em água. Após, é efetuada a separação do material sólido
(rejeito protéico) e separada a matéria graxa (sebo) da fração aquosa. O
fracionamento via seca (“winterização”) é realizado visando a separação dos
compostos presentes na matéria-prima, em frações com características
específicas para a sua utilização posterior. O processo necessita de um
minucioso controle de qualidade em razão dos fins a que a oleína produzida
será destinada. Uma de suas principais aplicações é a confecção de óleos
engraxantes para couro, etapa fundamental do processo em curtumes, no qual a
presença de compostos saturados (estearinas) pode levar aos problemas
conhecidos como eflorescências graxas.
O método de trabalho incluiu itens como caracterização das correntes de
entrada e saída das etapas do processo estudado, identificação dos pontos
passíveis de melhoria, trabalhos experimentais visando a determinação dos
parâmetros mais adequados para as operações e o desenvolvimento de uma
metodologia analítica específica para o monitoramento da qualidade dos
produtos, por cromatografia.
O resíduo proveniente da carnaça revelou a seguinte composição: matéria
graxa a 31,83% em massa com alto potencial para reaproveitamento. O teor de
gorduras no rejeito protéico foi de 15,1% em massa, coletado após a etapa de
extração, com indicação de eficiência, contudo a um custo elevado na etapa
de degradação do sebo. As matérias-primas foram analisadas ainda quanto ao
teor de matéria volátil, teor de extraíveis, volume de cinzas, presença de
nitrogênio, substância protéica e quantidade de cloretos totais.
Os óleos foram caracterizados quanto ao índice de acidez, índice de iodo,
saponificação, água, matérial volátil e fração de ácidos graxos saturados e
insaturados. Foram realizados ensaios buscando quantificar o efeito dos
fatores: presença de agitação, temperatura e tempo de extração, sobre a
eficiência da operação e o índice de iodo dos sebos obtidos. Os resultados
apresentaram uma grande dependência do índice de acidez em função do tempo
de processo, sendo que para a eficiência, o tempo e temperatura se
relacionam diretamente, ao contrário da agitação. Na determinação da
composição dos óleos foi desenvolvida uma metodologia analítica específica
por meio de cromatografia gasosa, o que proporcionou um estudo rigoroso do
processo de fracionamento. Esse procedimento determina a composição dos
óleos em função das frações mássicas dos ácidos graxos majoritários, sendo a
injeção das amostras realizada na forma de ésteres metílicos. Os ensaios com
produção estatística revelaram influência positiva nos casos em que o
processo é realizado sob agitação e com menores taxas de cristalização. Com
emprego de hidrolisado protéico de couro como produto recurtente, a busca é
pelo reuso de subprodutos e tem finalidade de diminuir o impacto ambiental
dos poluentes.
Para o engenheiro químico Igor Vigannico da Silva, as atividades econômicas
primárias, secundárias e terciárias produzem resíduos que devem ser
adequadamente gerenciados e tratados. “Peles são matérias-primas dos
curtumes geradas como subproduto da indústria da carne.”
“Entretanto, o processo de curtimento gera grandes quantidades de
subprodutos e resíduos”, assinala Silva. Em sua dissertação, comprovou que
mil quilos de pele salgada geram no final do processo 200 kg de couro, 250
kg de resíduo sólido curtido, 350 kg de resíduo sólido não-curtido e 100 kg
são perdidos como resíduo líquido. “Nos últimos anos, pesquisas em
laboratório descrevem processos para recuperação da proteína e cromo desses
materiais”, sublinha Silva.
Nesses processos, os farelos de rebaixamento são digeridos com um álcali e
uma protease alcalina, isolando uma torta de cromo e duas correntes
líquidas, uma de gelatina e outra de colagênio hidrolisado. “O espectro da
distribuição de peso molecular das correntes de proteína desses experimentos
mostra que não ultrapassa alguns milhares de Daltons”, acrescenta o
especialista.
Conforme Silva, um processo de modificação da proteína ecologicamente
correto, onde se alcance proteínas modificadas de peso molecular mais alto,
é feito por meio de tecnologias combinadas de recurtentes. Ele explica que
os processos de curtimento onde se alcança maior estabilidade hidrotérmica
no interior de cadeias polipeptídicas das peles são os curtimentos
combinados de sulfato de alumínio/extrato de acácia e glutaraldeído/extrato
de acácia.
Os resultados obtidos apontaram a possibilidade de utilização de hidrolisado
protéico modificado com glutaraldeído como recurtente em couros de
qualidade, com boas resistências físico-mecânicas, com bom enchimento e
firmeza de flor. Os resultados da análise dos banhos residuais sugeriram
esgotamento adequado dos produtos e indicaram uma boa interação do material
com o colagênio do couro.
“As variáveis controladas analisadas nesse experimento foram peso molecular
por cromatografia de permeação em gel, tipo de tratamento químico,
interações com pó-de-pele, propriedades conferidas ao couro como enchimento
proporcionado, firmeza da flor, resistências físico-mecânicas, variações no
tingimento e parâmetros do banho residual, como percentual de sólidos totais
e a demanda química de oxigênio e demanda biológica de oxigênio”, detalha
Silva.
A análise por GPC da hidrolisado protéico modificados mostra que há aumento
de massa molar média nas amostras modificadas com os glutaraldeídos Relugan
GTW e Relugan GT-50%. Nos experimentos de recurtimento de pó-de-pele,
obteve-se aumento de massa e volume dos tabletes de pó-de-pele quando foi
utilizado hidrolisado protéico modificado com glutaraldeído, especialmente
com Relugan GT-50% da Basf. Com isso, ocorre um indício de interação do
hidrolisado protéico modificado com glutaraldeído com o colagênio do
pó-de-pele.
A variável compressibilidade dos couros wet-blue recurtidos foi estudada
porque se pensava que havia uma relação entre a compressibilidade dos couros
e seu grau de enchimento. Os experimentos de recurtimento com pedaços de
couro wet-blue e com tiras de couro wet-blue, no entanto, mostraram que há
uma relação entre a compressibilidade dos couros com sua maciez.
Ainda no experimento de recurtimento com tiras de couro wet-blue, apresentou
indícios de que a combinação de hidrolisado protéico modificado com
glutaraldeído e adição de recurtente vegetal leva a couros com firmeza de
flor ainda maior. A análise de exaustão dos banhos de recurtimento, em
pedaços de couro wet-blue pelo teor de não-voláteis e em tiras de couro pela
DQO, revelou melhores índices de exaustão nos processos em que foram
utilizados hidrolisados protéicos modificados com glutaraldeído,
especialmente com Relugan GT-50%.
A análise de DBO ficou abaixo do limite de detecção da técnica. De acordo
com o pesquisador, percebe-se que a modificação com glutaraldeído,
principalmente com Relugan GT-50%, mostrou-se viável tanto pelas
características conferidas aos couros quanto pelos índices de exaustão dos
banhos residuais obtidos.
Além disso, os resultados indicam que a combinação desse material com
curtente vegetal leva a couros com características de firmeza de flor e
enchimento ainda mais interessantes. Silva atesta que a utilização de
hidrolisado protéico modificado com glutaraldeído no recurtimento de couros
pode se tornar mais uma alternativa na destinação dos resíduos de couro
curtidos ao cromo, diminuindo sua disposição em aterros sanitários.
Fernando C. de Castro |
|