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Cuca Jorge |
Mercado aquecido não é
suficiente para acelerar a introdução de tecnologias mais amigáveis ao
meio ambiente
Domingos Zaparolli
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O
mercado de processos químicos para tratamento de superfície está aquecido.
Como relata Douglas Fortunato de Souza, presidente da Associação Brasileira
de Tratamento de Superfície (ABTS), em 2007 o setor apresentou um aumento de
vendas em volume da ordem de 11% e a estimativa é de que em 2008 o
desempenho seja ainda melhor, com um crescimento de 15%. Mas nem tudo reluz
no setor. O aumento de custos dos insumos sinaliza a necessidade de uma
correção de preços. Por outro lado, a introdução de inovações, muitas das
quais com potencial de reduzir significativamente o impacto ambiental dos
processos, ocorre de forma lenta no Brasil.
A ABTS calcula que o mercado de processos químicos para tratamento de
superfície tenha movimentado algo como US$ 200 milhões no último ano. Este
faturamento é dividido praticamente ao meio entre os processos de
pré-tratamento de superfície para posterior pintura ou proteção a óleo, e o
plating, o qual por sua vez é dividido em duas categorias: acabamentos
decorativos (80% deste segmento), e acabamentos técnicos, para peças que
exigem tratamento anticorrosivo.
O bom desempenho vivido pelo setor, avalia Fortunato, está diretamente
relacionado com a estabilidade econômica e com o aumento do crédito. Fatores
que têm impulsionado as vendas no mercado interno de automóveis,
eletrodomésticos e imóveis, três grandes consumidores de itens que exigem
proteção anticorrosiva, e também de peças com acabamentos decorativos
galvanizados.
Este desempenho da indústria de tratamento de superfície tem atraído o
interesse de players estrangeiros, que sondam o mercado brasileiro com o
intuito de investimentos locais, provavelmente por meio de aquisição de
empresas nacionais. “Hoje temos cinco ou seis empresas estrangeiras
pesquisando o mercado, interessadas em vir para o Brasil”, afirma o
dirigente.
Como lembra o presidente da ABTS, por volta de 90% dos processos químicos
para tratamento de superfície comercializados no país têm origem de
fabricação estrangeira. As empresas, no Brasil, fazem a formulação final da
mistura e realizam ajustes para se adequar às características climáticas de
cada região do país. Nos últimos anos, portanto, o fortalecimento do real
perante o dólar americano tem contribuído muito para segurar os preços
finais dos processos comercializados. O problema, porém, é que a escassez de
inúmeros insumos no mercado mundial está gerando uma pressão nos
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preços.
Alguns insumos têm encarecido muito rapidamente. Em apenas três meses,
relata o executivo, o preço da sacarina sódica aumentou 430%; o ácido
sulfúrico, 150%. Assim como todos os derivados ácidos têm registrado
forte aumento de preços.
Em média, informa Fortunato, os custos dos processos químicos para
tratamento de superfície subiram entre 15% e 20% nos últimos meses.
Por enquanto, apenas metade deste aumento foi repassada para os
clientes, em média uns 8% de reajustes. Mas na avaliação do presidente
da ABTS, à medida que os estoques dos fornecedores de processos
químicos forem sendo renovados, os reajustes serão repassados. “É
inevitável, estes aumentos chegarão aos nossos clientes, apesar de
todos os esforços para amenizar este impacto”, diz. |
Divulgação
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Fortunato: preço alto dos químicos eleva custos |
Entre as
iniciativas da indústria de processos químicos para reduzir o impacto dos
aumentos de custos, relata o executivo, está o investimento em equipamentos
para a recuperação e reaproveitamento de ácidos. Por outro lado, diz
Fortunato, a nova legislação de transporte de produtos químicos (em vigor a
partir de junho de 2008), exigindo embalagens resistentes a impactos
homologadas pelo Inmetro e rotulações com a especificação técnica dos itens
transportados na embalagem, além da restrição ao transporte de cargas
incompatíveis em um mesmo veículo, gerou um aumento de custos para o setor.
Substituição de metais pesados – Os processos de tratamento de
superfície, cujo principal objetivo nas aplicações em metais é o combate à
corrosão, há muito tempo já alcançaram patamares de qualidade compatíveis
com as necessidades das indústrias. As inovações tecnológicas em curso visam
principalmente a reduzir o impacto ambiental dos processos e, assim, se
adequar às exigências de uma sociedade cada vez mais preocupada com a
sustentabilidade de suas decisões de consumo.
Na Europa, no Japão e em vários estados norte-americanos, o cromo
hexavalente, tradicional insumo em processos de tratamento de superfície,
tem sido banido por causa da sua característica cancerígena e agressiva ao
meio ambiente. Por enquanto, o principal substituto é o cromo trivalente,
menos agressivo.
No Brasil, porém, o hexavalente ainda é admitido e, na opinião de Fortunato,
continuará majoritário enquanto não houver uma exigência legal de sua
proibição. A substituição do insumo, no país, se dá mediante apenas às
exigências dos mercados consumidores. Sendo assim, ela ocorre de forma
irregular. Segundo o presidente da ABTS, nas aplicações com finalidade
técnica para a cadeia automotiva a adoção do cromo trivalente já é uma
prática plenamente aceita, respondendo por quase a totalidade dos processos.
Já para outras aplicações técnicas e também nos segmentos decorativos, o
cromo trivalente ainda é pouco usual no Brasil, apesar de utilizado em larga
escala em países como Estados Unidos e China. Segundo Fortunato, os
processos com cromo trivalente apresentam uma resistência mais baixa à
corrosão, algo em torno de 30%. É possível, porém, igualar a resistência por
meio de aditivos. Mas esta solução acaba 40% mais cara, daí a baixa adesão
entre os aplicadores à substituição do material. A aceitação do cromo
trivalente é mais baixa entre as aplicações com finalidade decorativa. Neste
segmento de mercado, o cromo trivalente está em apenas 3% das aplicações. O
motivo é o brilho, mais azulado, da peça cromada com o cromo hexavalente ser
considerado mais bonito. No processo com o cromo trivalente, o resultado é
uma cor mais acinzentada.
Apesar de mais caro, o uso do cromo trivalente exige menos recursos no
tratamento dos efluentes, reduzindo a diferença real de custos entre os dois
processos. O problema, portanto, está em convencer o usuário, principalmente
as indústrias de galvanização, a assumir de imediato um custo de insumos
mais elevado, em troca de um ganho com uma economia no tratamento de
efluentes, o qual nem sempre é realizado de forma adequada. Mesmo diante
deste desafio, o presidente da ABTS aposta no futuro dos processos de menor
impacto ambiental. “Por mais lenta que seja a migração, a tendência é de
aumento da demanda dos processos com cromo trivalente em detrimento das
soluções com o cromo hexavalente. A mudança ocorrerá à medida que a
sociedade exigir, uma vez que tecnologia, para isso, já há disponível”, diz
Fortunato.
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