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bio &
farma Michael
Nothenberg é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Nanominhocas entram na luta anticâncer
Leitores de boa memória
talvez se lembrem do filme “Viagem Fantástica”, de 1966, cujo enredo
inclui um submarino reduzido a níveis microscópicos – juntamente com
seus ocupantes, equipe de cientistas – em uma injeção intravascular
com o intuito de, pela circulação, alcançarem o cérebro de relevante
diplomata, para dali remover coágulo potencialmente letal. Ainda não
chegamos a tanto na vida real, mas pesquisadores das universidades
californianas de San Diego e Santa Bárbara, em associação com equipe
do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT), em artigo
publicado na edição da primeira semana de maio de 2008 do Journal of
Advanced Materials, anunciaram o desenvolvimento de nanominhocas de
óxido de ferro com poder de detectar tumores e, futuramente, servir de
veículos para quimioterápicos anticancerígenos.
A estratégia em si não é nova. Integra a das chamadas “drogas
inteligentes”, projetadas para atuarem o mais exclusivamente possível
sobre células tumorais, sem produzir efeitos nas células saudáveis,
justamente o motivo dos graves efeitos colaterais produzidos pela
maioria dos agentes anticancerígenos. |
Para tanto, os fármacos são
conjugados a moléculas demandadas por células de câncer, como hormônios,
cofatores vitamínicos, componentes de ácidos nucléicos e assim transportados
para seus alvos de maneira dirigida, em estilo cavalo de Tróia.
Um dos aspectos diferenciais do novo material está na sua estrutura
articulada, flexível, composta tipicamente de oito nanopartículas esféricas
de óxido de ferro acopladas. Segundo autores da pesquisa, o formato lembra
minhocas com cerca de 30 nm de comprimento, menos de três milhões de vezes
inferior ao de minhocas de verdade. Talvez seja o formato peculiar o
responsável pela persistência das nanopartículas na circulação sanguínea:
enquanto nanopartículas esféricas do óxido metálico são removidas do plasma
por anticorpos em poucos minutos, as nanominhocas aparentemente não são
detectadas pela defesa imunológica do organismo e, apesar do tamanho
avantajado, persistem no sangue de camundongos por várias horas.
Para criar a necessária afinidade das minhocas por células cancerosas, são
elas revestidas com película de dextrana, derivado polissacarídico obtido na
fermentação de sacarose por leveduras. Por meio do biopolímero se dá a
fixação de peptídios denominados F3, desenvolvidos por uma das equipes
integradas ao projeto para permitir a fixação, por afinidade, às células
tumorais. Nesse particular, os cientistas salientam a vantagem da estrutura
vermiforme, permitindo o transporte de múltiplas moléculas de peptídio. O
desafio futuro dos pesquisadores será associar tais complexos a fármacos
antitumorais, fazendo com que esses sejam levados seletivamente aos
respectivos alvos.
Propriedade importante dos núcleos de óxido de ferro é seu
superparamagnetismo, graças ao qual nanopartículas são facilmente detectadas
por dispositivos de ressonância magnética (MRI) empregados no diagnóstico e
localização de tumores. Novamente, surge a vantagem das minhoquinhas, cujo
conteúdo mais elevado de óxido metálico eleva a sensibilidade do exame, em
comparação com a propiciada por nanopartículas monoparticuladas.
Enzima
artificial promovida a ferramenta de síntese
A síntese de enzimas capazes de
mediar reações para as quais não existam biocatalisadores disponíveis na
natureza é vista como novo recurso da biotecnologia industrial,
particularmente útil à síntese de biofármacos. A proeza científica, descrita
na edição de maio de 2008 da revista Nature, tem por objetivo a catálise da
eliminação de Kemp, reação orgânica envolvendo a remoção de próton (átomo de
hidrogênio destituído de seu elétron e, portanto, detentor de carga
positiva) de átomo de carbono (Figura 1). A reação é
reconhecida como emblemática em função da alta energia de ativação
necessária à sua efetivação.

O desenvolvimento envolveu duas
etapas, realizadas, respectivamente, por equipes da Universidade de
Washington (Seattle, WA) e do Instituto Weizmann (Rehovot, Israel). O
primeiro desafio foi selecionar, in silico (por meio de técnicas
computacionais), cerca de 60 estruturas protéicas virtuais, integradas por
diferentes seqüências de 200 aminoácidos, com potencial catalítico.
A segunda etapa, envolvendo o que os autores denominam evolução acelerada,
em tubo de ensaio, representou o aperfeiçoamento laboratorial de algumas das
estruturas propostas. O método consiste na síntese e triagem de estruturas
artificialmente mutadas por meio da substituição de aminoácidos,
particularmente aqueles associados ao sítio ativo da enzima, e resultou na
obtenção de moléculas 200 vezes mais eficazes na catálise do que aquelas
propostas originalmente por computador. Em comparação com a reação sem
catálise, a reação química foi acelerada cerca de um milhão de vezes.
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