“Como o mercado é orientado a custo, a saída é buscar as melhores formas de usar bem os biocidas, tanto melhorando as formulações como buscando formas mais adequadas de incorporação aos produtos, ou adotando tecnologias de micronização e encapsulamento”, considerou Luiz Wilson Pereira Leite, diretor de marketing e negócios internacionais da Ipel Itibanyl Produtos Especiais. Atuante desde 1988 e líder no fornecimento de biocidas para a indústria nacional de tintas, a Ipel conta com fabricação própria de 40 moléculas que podem ser combinadas entre si e também com produtos de terceiros com custos favoráveis.

O uso de ingredientes em escala nanométrica é visto com reservas pelo diretor. “Temos alguns produtos nessa escala, para outros setores industriais, e estamos desenvolvendo algumas nanoemulsões, mas consideramos que há um risco elevado para os manipuladores porque os equipamentos de proteção individual existentes não conseguem protegê-los”, comentou. Partículas menores que um bilionésimo de metro atravessam sem dificuldade as máscaras respiradoras e podem penetram pela pele por simples contato.

A empresa mantém filial na Espanha para atender aos clientes europeus. Essa filial conduzirá a entrada dos produtos da Ipel no sistema Reach e também acompanhará a evolução das diretrizes para biocidas (BPD). Leite explica que o custo de aprovação de moléculas e formulações no Reach é muito elevado, sendo possível que as indústrias químicas se unam para ratear as despesas e conseguir a aprovação conjunta de seus insumos.

Ele espera uma forte evolução quantitativa nas vendas de biocidas no Brasil, puxada pela indústria de tintas que deve ser mais solicitada a partir deste ano para a pintura de edificações novas que entrarão em fase de acabamento. “O mercado de tintas está equilibrado, com o aumento da renda da população também as vendas de tintas no varejo têm crescido muito”, disse. Pelo lado da qualidade, ele também relata melhoria paulatina dos produtos finais, exigindo a incorporação de mais biocidas. Há alguns anos, como informou, as vendas se concentravam em agentes para a proteção da tinta na lata. “Hoje, a venda de fungicidas alcançou a de bactericidas”, comentou.

Latas limpas – A proteção da tinta na lata garante que o consumidor receba o produto em condições adequadas para aplicação, sem que os ingredientes tenham sido degradados por microorganismos, especialmente as bactérias. No Brasil, a combinação de clorometil e metil isotiazolinona (CMIT/MIT) com liberadores de formol domina claramente essa aplicação.

“Essa formulação tem custo acessível, a CMIT age rapidamente mesmo em baixa concentração, e os liberadores de formol garantem a proteção também do espaço vazio das latas (headspace)”, disse Leite. A empresa produz a MIT isolada e também a CMIT/MIT, nesse caso aplicando cloro no reator, em quantidades adequadas.

O diretor explicou que a relação CMIT/MIT considerada padrão de mercado é de 3:1, com boa eficácia. É possível alcançar relações maiores, 5:1, por exemplo, sem grandes dificuldades. A concentração do ativo em solução também é sempre muito baixa, exceto para transportes de longa distância, situação que exige operar com teor de 14%. “A CMIT é altamente irritante para a pele e para os olhos, impondo cuidados na manipulação”, afirmou. “Por isso, é sempre preferível trabalhar com relações menores de CMIT/MIT e concentrações mais baixas.” A Ipel mantém o programa Prosseguir, pelo qual todos os clientes são visitados regularmente e os trabalhadores envolvidos no processo recebem treinamento para lidar com o biocida. Observados os cuidados, o produto é seguro, tanto que é o mais usado também na Europa, limitado ao máximo de 15 ppm na tinta para evitar uma rotulagem mais agressiva.

Os liberadores de formol também merecem atenção. “O formol livre também irrita os olho e tem odor desagradável”, considerou. Para ele, os produtos mais adequados e bem dosados liberam a quantidade certa de formol para matar as bactérias, sem residuais. A Ipel dispõe de cinco diferentes semi-acetais, alguns dos quais nem se aplicam ao mercado de tintas. Segundo Leite, os liberadores tendem a ser restringidos, abrindo caminho para outros ativos, entre eles insumos contendo bromo ou usando a benzo-isotiazolinona (BIT), ainda cara. Caso seu consumo cresça e force a ampliação da oferta, o preço pode cair.

A BIT tem a vantagem de tolerar temperaturas até 100ºC que poderiam acelerar a degradação da CMIT. Também suporta meios alcalinos. Mas é deficiente para controlar alguns microorganismos deletérios, exigindo a combinação com outros ativos.

A Miracema-Nuodex, contando com seu método microbiológico de avaliação, concentrou esforços no aprimoramento dos semi-acetais usados com a CMIT/MIT. “Verificamos que havia um excesso de liberadores de formol em relação às isotiazolinonas e rebalanceamos a formulação”, relatou Agostini. Com isso, foi criado o Liocide 811, que pode reduzir em um décimo as dosagens dos produtos tradicionais, dependendo do grau de contaminação do meio.

Agostini explicou que isso se deve à sinergia entre os componentes da formulação. Os ativos precisam alterar a permeabilidade seletiva da membrana celular das bactérias para poder atacar seu interior. A combinação adequada de ingredientes permite atravessar a membrana e liberar o formol dentro das células, sem desperdícios. Foram também escolhidos semi-acetais de liberação mais lenta de formol, garantindo resultados a longo prazo. “A formulação funciona até contra bactérias Gram negativas, cuja parede celular é mais complexa, fato que lhes proporciona mais resistência aos biocidas”, afirmou.

Agostini salientou que a Miracema-Nuodex também pode oferecer combinações de outros insumos com ou sem formol ou CMIT, atendendo aos requisitos apontados pelos clientes. Mas, em geral, o preço baixo da CMIT/MIT com liberadores é o preferido. “Além das restrições das normas e do cheiro forte, o formol também sofre, porque seu preço no mercado internacional ficou muito mais caro no ano passado”, comentou o gerente de pesquisa e desenvolvimento. Como a produção de semi-acetais depende desse insumo, o preço acabou afetado.

Marcelo Junho também observa que as isotiazolinonas e o formol liberado atuam de forma diferente sobre as bactérias, evitando o desenvolvimento de estirpes resistentes. “A CMIT/MIT atua em seis diferentes pontos das células, entre os quais a membrana, mitocôndrias e núcleo”, comentou. Ao bloquear a respiração (ciclo de Krebs), elas cortam o suprimento de energia das células, matando-as. Apesar do amplo espectro de atuação desse grupo de produtos, a Rohm and Haas também formula biocidas isentos de isotiazolonas. Também é possível formular sem usar liberadores, um desejo de fabricantes de tintas interessados em produtos isentos de VOCs.

A Lanxess concorda que a união da CMIT/MIT com liberadores de formol domina o cenário da proteção in can, mas identifica uma demanda por alternativas ao formol, geralmente provenientes de regras internas de empresas globais. “Nesses casos, o uso de CMIT/MIT com bronopol resolve o problema”, afirmou Ligere, ressaltando que esse ativo é muito eficiente contra bactérias redutoras de sulfato. O liberador preferido pela Lanxes é o benzil hemiformol.

“Lançamos o Preventol D6GF, formado por CMIT/MIT com liberador de formol em base aquosa, isento de solventes orgânicos, com baixa emissão de VOC”, aduziu Roberto Griebel.

O melhor aproveitamento dos biocidas aplicados para proteção na lata de tintas é alcançado quando todos os elos da cadeia produtiva se preocupam com o controle microbiológico. Os slurries minerais, as resinas e a água de processo podem funcionar como fontes de contaminação significativas, afetando o resultado final. Nas resinas, a BIT leva vantagem, pela possibilidade de incorporação a quente, ainda no reator, evitando que as bactérias se multipliquem e tornem mais caro o tratamento.

Alguns fabricantes de tinta tentam reduzir as dosagens de biocidas argumentando que os resíduos de preservantes existentes nos insumos citados completariam a dosagem. “Como não se sabe qual foi a dose aplicada nos slurries e nas resinas, e também não se tem idéia do grau de contaminação inicial desses materiais, não é possível contar com teores residuais que talvez sequer existam”, condenou Agostini. Os biocidas reagem contra as bactérias, eliminando-as, mas também consumindo o insumo químico. Como há uma dose mínima inibitória, abaixo da qual o produto/formulação não faz efeito, o melhor é respeitar a recomendação do fornecedor do biocida. “A dosagem já é tão pequena que não faz sentido reduzir”, completou.

Paulo Igarashi

Leite: Europa usa os mesmos produtos nas latas

“Embora o preço unitário dos ativos pareça alto, a participação final dos biocidas no custo das tintas é irrisória”, concordou Leite, da Ipel. Ele menciona que a proteção da tinta nas latas feita no Brasil é quase idêntica à realizada na Europa, inclusive nos cuidados com a higiene das fábricas, com uma diferença de dosagem, bem mais alta nos europeus.

Película protegida – Depois de aplicadas nas superfícies, as tintas formam uma película que pode servir de alimento para microorganismos, principalmente fungos. Atualmente, o fungicida que reúne as melhores condições de custo/benefício nessa aplicação é o carbendazim, que domina o mercado. Mesmo na Europa, ele é muito usado, embora tenham surgido restrições em algumas aplicações.

“Enquanto a proteção nas latas é similar à européia, no caso dos filmes secos a situação é totalmente diferente, pois os europeus usam muito mais produtos e em doses mais altas que nós, quando deveria ser o contrário”, avaliou Luiz Wilson Pereira Leite. Com clima mais quente e mais úmido, associado à proximidade com matas, o Brasil apresenta condições muito mais críticas à proliferação de microorganismos do que a Europa.

 

 

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