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Cuca Jorge |

SELEÇÃO PELO MENOR CUSTO
ASSOCIADA ÀS RESTRIÇÕES
NORMATIVAS INIBEM A
INOVAÇÃO NA PROTEÇÃO DE
TINTAS, EMBORA A PREVISÃO
DE VENDAS APONTE PARA
FORTE CRESCIMENTO
Marcelo Fairbanks
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As
linhas imobiliárias decorativas são o maior segmento do mercado nacional de
tintas e esperam resultados fulgurantes a partir deste ano. Essa
expectativa, alicerçada nos gordos números da construção civil nacional,
estimula, mas não muito, os produtores de biocidas, insumos essenciais para
as formulações de base aquosa que dominam as vendas do segmento.
Há anos, esse mercado seleciona fornecedores pelo menor custo oferecido, sem
incentivar a criatividade das companhias químicas. Ao mesmo tempo, mudanças
nos sistemas regulatórios dos países desenvolvidos (leia-se Europa, Japão e
Estados Unidos) criam obstáculos cada vez maiores e mais caros para a
introdução de novas moléculas. Ingredientes ativos que poderiam apresentar
desempenho excepcional e impacto ambiental muito menor acabam sendo
duplamente prejudicados.
O resultado desse quadro perverso é a universalização do uso de substâncias,
as mais econômicas. O agravamento da situação transformou um mercado que era
considerado sofisticado, no qual pontificavam as valiosas especialidades, em
um campo de commodities com baixa rentabilidade. Algumas companhias
internacionais já admitem, reservadamente, que o mercado de tintas (as
decorativas, em particular) não lhes interessa mais, preferindo concentrar
esforços em outros setores. Outros se esforçam para ingressar nesse mercado.
As tintas marítimas, abrangendo as plataformas de petróleo, oferecem um
exemplo de alta atratividade, dada a necessidade de eliminar os metais
pesados das formulações antifouling (ou anticraca).
É preciso considerar também as mudanças ocorridas na indústria mundial de
tintas. “Houve um processo forte de concentração de negócios e isso se
reflete no relacionamento com os fornecedores”, observou Marcelo Junho,
gerente de mercado para a América Latina em preservação, higiene e biocidas
da Rohm and Haas. Essa consolidação tornou globais as políticas de uso de
biocidas, instituindo listas negras de produtos.
A formulação dessas políticas acaba por transferir a todos os países algumas
restrições que deveriam ser apenas regionais. É o caso da diretiva européia
de biocidas (BPD), cujos limites de uso acabam se estendendo a todas as
filiais de produtores europeus. Também a necessidade de eliminar os odores e
as emissões de compostos orgânicos voláteis (os famosos VOCs) provoca
mudanças de composição nas tintas, exigindo acompanhamento por parte dos
fornecedores de biocidas.
“Interessante notar que o perfil de contaminação das fábricas de tintas no
mundo está mudando para pior”, comentou Junho, referindo-se ao maior uso de
materiais de origem natural e insumos de base aquosa, mais propícios ao
desenvolvimento microbiológico. Isso abre caminho para a prestação de
serviços de higienização, monitoramento de instalações e, também, para a
venda de sanitizantes.
A inclusão desse serviço, ao lado do controle de eficácia microbiológica dos
produtos, da engenharia de manipulação e aplicação dos biocidas, está se
tornando um padrão de atendimento aos principais clientes do mercado. “Com a
correta avaliação das contaminações do processo e da planta, controle de
qualidade dos insumos e um cronograma adequado das higienizações, é possível
reduzir sensivelmente o consumo dos ativos preservantes das tintas”,
comentou Luís Gustavo Ligere, representante técnico de vendas de Material
Protection/Biocides da Lanxess.
A empresa alemã, originada da antiga Bayer, elegeu o setor de tintas como
uma de suas prioridades mundiais, exigindo investimentos regionais. A antiga
divisão de preservantes foi dividida em áreas de negócios mais ligadas a
produtos industriais e outra específica para madeira e derivados, esta
sediada no México. “Mais de quinze novos biocidas foram lançados
mundialmente pela Lanxess nos últimos anos”, confirmou o gerente de vendas
da divisão Material Protection, Roberto Griebel. Ele explicou que a atuação
da companhia assumiu o papel de provedor de soluções, deixando de lado a
idéia de apenas fornecer produtos.
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Dadas as
condições de competitividade no mercado local de tintas, a fabricante
preferiu concentrar esforços nos clientes estratégicos, deixando o
atendimento dos demais a cargo da tradicional distribuidora
Agroquímica Maringá, com quem mantém longo relacionamento. “Prestamos
assistência técnica e colocamos nossos laboratórios à disposição de
todos os clientes, quando necessário”, explicou Ligere. Ele considerou
a transferência para o distribuidor como interessante para todos os
envolvidos.
Um panorama setorial não ficaria completo sem mencionar a busca de
alternativas tecnológicas para melhorar a eficácia das formulações
diferentes, com estratégias diferenciadas em cada empresa. A
Miracema-Nuodex, por exemplo, investiu durante os dois últimos anos no
desenvolvimento de uma metodologia mais adequada para a avaliação do
desempenho de biocidas, conseguindo obter resultados confiáveis na
metade do tempo usualmente consumido para esse propósito. “Com a
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Cuca Jorge
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Ligere: distribuidor apóia atendimento aos clientes |
metodologia
tradicional, o desenvolvimento de uma formulação demora por volta de um ano,
prazo que reduzimos para dois a três meses”, afirmou Gerson Agostini,
gerente de pesquisa e desenvolvimento.
Com o apoio da nova tecnologia, a empresa conseguiu avaliar um grande número
de combinações de ativos, de modo a proporcionar economia significativa para
os clientes, sem prejuízo da eficácia. Ao mesmo tempo, a estrutura de
atendimento foi aprimorada, colocando pessoal mais capacitado para realizar
amostragens de rotina, para auditar as plantas e recomendar sanitizações
quando necessárias, orientando essas operações.
Estratégias – A adaptação ao novo quadro de concentração empresarial
e de limitações ambientais reduzirá o “cardápio” de princípios ativos
aplicados como biocidas em tintas. Para Marcelo Junho, em um prazo de cinco
a dez anos, cerca de 90% do mercado de proteção líquida (in can) será
atendido por isotiazolinonas, alguns poucos liberadores de formol e bronopol.
“O retorno do investimento para criar moléculas novas, registrá-las e arcar
com custos regulatórios é claramente insuficiente”, afirmou. A saída é a
intensificação do uso de formulações com os ativos mencionados, devidamente
aprovados nas normas existentes.
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Além de
aproveitar efeitos sinérgicos nas formulações, Junho enxerga três
estratégias de atuação possíveis nesse mercado. A primeira consiste em
procurar ativos interessantes em outros setores, provavelmente na
indústria farmacêutica. “Como esses ativos já estão desenvolvidos,
aprovados e registrados, o custo de adaptação é aceitável”,
considerou. Outro caminho para aumentar o desempenho e reduzir gastos
pode ser aberto com o uso de tecnologias relacionadas ao controle da
liberação dos ativos. É o caso do encapsulamento e também da
nanotecnologia. Segundo o especialista, a |
Cuca Jorge
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Junho: ganhos em sinergia e controle de liberação |
Rohm and Haas
estudou a possibilidade de usar nanopartículas em biocidas, mas o custo
ainda é proibitivo, motivo pelo qual preferiu desenvolver o encapsulamento.
A terceira via é a aplicação de ingredientes naturais com efeito biocida nas
formulações de tintas, porém ainda dependentes de investimentos em pesquisas
e avaliação de viabilidade.
A avaliação ambiental dos biocidas ganha relevância maior a cada ano. A Rohm
and Haas recebeu o prêmio Green Chemistry do governo americano pelo uso
pioneiro de um derivado da dicloro-octil-isotiazolinona (DCOIT) em tintas
antifouling, dispensando metais pesados. Essa tecnologia passou a ser
oferecida para os demais mercados de tintas para proteção de filme, embora
tenha efeito sinérgico com ingredientes in can, permitindo reduzir sua
dosagem.
Junho ressalta a diferença de significados de biocida “verde” para o
produtor da tinta e para os consumidores finais. “Verificamos que as
indústrias têm interesse em melhorar o desempenho ambiental dos produtos,
mas o consumidor não quer pagar a mais por isso”, lamentou. Sem a devida
valorização, esse avanço é visto apenas como custo adicional, não como
diferencial de mercado. “Além disso, não é só o biocida que precisa ser
‘verde’, mas a formulação toda da tinta deve acompanhar essa exigência.”
A Rohm and Haas também reforçou sua atuação nas formulações, aproveitando as
capacidades da Acima, empresa suíça adquirida há alguns anos, gerando a
marca Rocima. “Estávamos mais ligadas ao fornecimento de ativos isolados
para os clientes, agora podemos oferecer também as formulações biocidas, com
grande flexibilidade”, disse Junho. A empresa tende a se comportar como uma
“farmácia”, dada a capacidade de combinar ingredientes e entregá-los na
apresentação mais adequada para cada caso.
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