R e m e d i a ç ã o    d e    S o l o s

Ambas as soluções, segundo Alarsa, precisam ser estudadas em cada situação, dependendo do tipo de contaminante e da equação de custo. Se o solo for muito perigoso, por exemplo com PCBs (policloreto de bifenila, o isolante térmico ascarel) ou organoclorados, há a possibilidade de serem encaminhados para incineração (no próprio equipamento da Cetrel, em Camaçari, que de acordo com o coordenador passou por recente otimização para baixar seu custo de operação). Outros tipos de solo, com poder calorífico, podem seguir para co-processamento, operação também ofertada pela empresa em unidades de blendagem e por acordos com cimenteiras. Mas não serão todos os solos com chance de serem viáveis para essas soluções. Há a hipótese de a Cetrel Lumina preparar um galpão de tratamento, possivelmente em São Paulo (onde deve haver maior demanda pelo serviço), para realizar operações de oxidação química ou de biorremediação.

Já a colocação do solo novo no local, Alarsa considera como uma operação de prospecção. “A saída mais provável é procurar na região obras civis em operação, para requisitar o solo removido nas fundações. Por lei, ele não pode ser vendido, apenas cedido, o que torna apenas uma questão de pagar o frete para sua remoção”, explicou. Embora pareça algo não tão garantido de ocorrer, Alarsa ressalta que a Cetrel Lumina realiza duas operações do tipo atualmente, que se utilizam desses artifícios. E ressalta ainda que remediações fora dos sítios contaminados, com troca de solos e portanto mais rápidas no livramento das áreas do impacto ambiental, são comuns por exemplo na Alemanha, onde ele visitou vários projetos de remediação. “Eles têm muita necessidade de ocupação de solo e possuem várias áreas contaminadas, tanto por causa da antiga industrialização como em virtude das guerras mundiais em que se envolveram”, explica. “Não é incomum os alemães resolverem o problema de um sítio poluído, entregando-o para um novo uso, em apenas um ano, removendo o solo totalmente”, completa.

Mesmo ainda não sendo uma oferta oficial, a “bolsa de solo” pretende tirar proveito de um mercado visto com grande expectativa pelas empresas do ramo. Embora a Cetrel Lumina esteja se preparando para atuar apenas como prestadora de serviço nesse nicho denominado brownfields (áreas marrons, assim denominadas por representar as regiões urbanas industriais com histórico de contaminação e com várias fábricas abandonadas), outras pensam em participar de forma mais proativa nesses possíveis novos negócios.

A Geoklock, pioneira no Brasil em diagnóstico e remediação ambiental, é o melhor exemplo. Recentemente, ela firmou parceria com a empresa Urban Systems, especializada em análise de oportunidades e riscos de empreendimentos urbanos, para ofertar no mercado novas opções de uso para terrenos impactados. Uma área de negócios criada pelas empresas vai analisar, quantificar e planejar as possibilidades de reocupação. Tomando como base o consenso técnico de que o custo de

recuperação de áreas contaminadas em regiões centrais das grandes cidades é, em média, 20% do valor do terreno recuperado, o propósito é estruturar investimentos que garantam lucro a empreendimentos imobiliários compatíveis com as demandas. A oferta é sintetizada pela elaboração de relatório indicando as possibilidades de ocupação mais vantajosas, a quantificação dos passivos e os custos e prazos para recuperação da área. Uma operação pioneira ocorreu no moderno condomínio de escritórios Rochaverá, em São Paulo, construído sobre antiga fábrica de pesticidas (Ciba), cujo solo foi removido e o lençol freático tratado pela Geoklock.

Não é só pela entrada nessa nova área de negócios que a Geoklock demonstra sua confiança com o desempenho do mercado. Uma outra oferta recente visa a tirar proveito do amadurecimento dos serviços de remediação, ainda sua especialidade. Conforme explica o diretor de engenharia, Rubens Spina, é um

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Unidade piloto de UV e H2O2: reúso de água nos projetos

novo sistema para reúso de água extraída de sistemas de remediação de aqüíferos, baseado em lâmpadas de UV e dosagem de peróxido de hidrogênio que também tratam gases extraídos dos sítios contaminados. Tecnologia da alemã IBL, com quem a Geoklock tem parceria também para outras tecnologias de remediação, o diferencial do sistema, ainda de acordo com Spina, é a tecnologia ultravioleta, integrada

com o H2O2 dosado antes da passagem do gás ou da água pelas lâmpadas, possibilitar a degradação total dos compostos orgânicos, o que permite o reúso da água descontaminada. “Normalmente, o UV está associado apenas à desinfecção da água”, ressaltou o diretor. Outro ponto vantajoso, em comparação com os sistemas de carvão ativado empregados em extração multifásica de líquidos e vapores, é não gerar resíduos, no caso o carvão saturado. Há uma linha completa de lâmpadas para cada tipo de família de contaminantes e o tratamento de gases e de líquidos é feito por reatores dedicados

Segundo Spina, já foram instalados desses sistemas em projetos de remediação da Geoklock. São obras com duração mínima de quatro anos, período que justifica o investimento no sistema. Já se a descontaminação for de curto prazo, no seu entendimento ainda vale mais a pena tratar a água e os gases com o “velho” carvão ativado. O diretor também ressalta que, ao término da obra, a tendência é o cliente desviar o sistema para aplicação em outros reúsos na fábrica, o que ocorrerá em pelo menos

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Spina: UV apenas para as obras mais longas

um caso já vendido. Tudo isso para ajudar a tornar a remediação de solos e águas subterrâneas o mais próxima possível do bom senso, predicado ultimamente um pouco em falta a esse segmento no Brasil. 

Fornecedor de equipamentos aproveita boom,
mas também percebe piora na qualidade

Um bom parâmetro para compreender a evolução do segmento de remediação de solos e águas subterrâneas é prestar atenção no desempenho dos fornecedores de equipamentos e produtos da área. A Clean Environment, de Campinas-SP, serve bem para esse propósito, principalmente por ser uma das primeiras a se estabelecer, em 1995, no Brasil para atender as empresas de consultoria e projetos com sistemas de bombeamento, extração, skimmers, produtos de monitoramento e controle e sistemas químicos de remediação.

Para começar pelo lado mais positivo, basta saber que a empresa, segundo seu sócio-fundador e diretor-técnico, Paulo Negrão, tem crescido de 30% a 50% ao ano, o que demonstra a quantidade cada vez maior de projetos de remediação em atividade no Brasil. Outro bom aspecto é apontado por

Negrão como uma mudança em curso em grandes clientes industriais: “Hoje o nível de exigência é maior do que no começo do mercado, há cerca de 15 anos. É mais comum haver clientes com maior conhecimento técnico.”

Mas, de modo geral, a percepção do diretor da Clean confirma o que boa parte de seus clientes, ou seja, as empresas de consultoria e remediação, constata com pesar. Há uma superpopulação de consultores e “empresinhas”, com intuito oportunista, cujo principal problema foi ter descido a qualidade técnica do segmento, fenômeno ocorrido sobretudo a partir da publicação 273 do Conama, que disciplina a remediação de postos de combustíveis. “Isso tem provocado muitas frustrações no mercado”, afirmou Negrão.

Uma dessas frustrações, explica, ocorreu recentemente no próprio órgão ambiental paulista, a Cetesb. Desconfiado da seriedade de vários projetos de remediação em São Paulo, o órgão fiscalizador resolveu auditar o trabalho de investigação ambiental de forma aleatória. “Eles encontraram um

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Negrão acredita que o mercado ainda vai ser depurado

verdadeiro circo de horrores. Até laudo técnico feito por açougue foi descoberto”, ressalta Negrão. Mas o melhor foi o resultado da operação: a partir daí a Cetesb passou a exigir certificação do Inmetro e da Secretaria do Meio Ambiente de todos os laboratórios de análises ambientais empregados pelas

empresas de remediação e diagnóstico. Outra iniciativa nesse sentido foi passar a exigir das consultorias a assinatura de um termo de responsabilidade pelas informações prestadas ao órgão ambiental, com implicações legais nas esferas cíveis e penais.

Mas a visão do diretor da Clean é otimista. Com experiência internacional, por ter trabalhado durante seis anos nos Estados Unidos em fornecedora de equipamentos para remediação, de onde também prestava serviços para vários locais do mundo, Negrão acredita que o Brasil passará por

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Linha nacionalizada de bombas para remediação

um processo de depuração do mercado. “É sempre assim: no começo há uma euforia com os novos negócios de remediação, o que provoca em seguida o aparecimento das pequenas empresas oportunistas. Mas isso não dura muito, depois há uma filtragem e só ficam os sérios”, explicou. Para ele, dentro de cinco anos, esse ciclo de depuração deve se concluir no Brasil. “Depois que os problemas ocasionados pelas empresas de fundo de quintal começarem a aparecer, não haverá mais espaço para amadorismo”, completa. Oxalá Negrão esteja certo.

 

 

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