Renata Pachione
O mercado de tintas para plástico está em compasso de espera. Alguns fabricantes operam à metade de sua capacidade produtiva. No entanto, tecnologia não falta, aliás, sobra, a ponto de a pintura ser hoje uma ferramenta para corrigir falhas do substrato, fruto da crescente fabricação de peças de qualidade ruim. Acostumada com clientes exigentes, a indústria já domina os recursos para superar eventuais dificuldades de adesão da tinta ao substrato, mas sofre com a falta de espaço para avançar em novos segmentos e aplicações. Por isso, de maneira geral, as companhias adotaram a estratégia de oferecer suporte para a máxima especialização, consolidando a venda taylor made – feita sob medida.
A capacitação técnica do setor embute know-how de primeira ordem. Para elucidar o seu poderio, basta citar os principais players nacionais, encabeçados por Basf, DuPont e Akzo Nobel. Há também produtos importados, como os da norte-americana Red Spot Paint e da japonesa Fujikura Kasei, disponíveis localmente pela Arpol Tintas.
Independentemente do ramo de atuação, os fabricantes hoje concentram seus esforços em duas frentes de trabalho de altíssimo nível: a tecnologia de cura por ultravioleta (UV) e a troca dos sistemas base solvente por base água. “São as grandes evoluções do mercado”, atesta o coordenador de negócios de tintas automobilísticas da Basf, Daniel Rodrigues Nascimento.

Cada um à sua maneira traz no portfólio desenvolvimentos baseados nesses dois pilares. Para se ter uma idéia, a mais recente tecnologia apresentada pela Basf se trata de um verniz de cura UV com 100% de sólidos, para pintura de faróis e lanternas da linha automotiva. Não por acaso, a Akzo Nobel também destaca seus vernizes de cura UV 100% não-voláteis. Conforme explica esse fabricante, ao contrário dos convencionais revestimentos à base de solvente ou água, as tintas com cura por UV são formuladas com polímeros base, diluentes não-solventes e fotoiniciadores. “O sistema UV oferece maior resistência física e química”, afirma o gerente de negócio de Tintas para Plásticos – Tintas Industriais da Akzo Nobel, Marcos Antonio Antoniassi. Entre as vantagens, há o aspecto ecológico e ganhos de eficiência e produtividade.
Ninguém quer ficar de fora. A Arpol Tintas, sob a licença de parceria internacional, também oferece ao mercado uma linha de vernizes por cura UV para lentes de faróis. Mas quer ir além, vislumbra a sua fabricação aqui no país. “O foco do nosso investimento hoje está na possibilidade de produzir esses vernizes no Brasil, terceirizados para a Red Spot”, antevê o diretor da Arpol Tintas, Narciso Moreira Preto.
As tecnologias verdes também ditam os novos rumos do mercado. A utilização de tintas base água tem sido a aposta da indústria para a redução do teor de solventes orgânicos. Não por acaso, um dos mais recentes desenvolvimentos da Eastman se refere a um promotor de adesão livre de halogênios e AFEO (alquilfenoletoxilato) para revestimentos à base de água. De acordo com o representante de Desenvolvimento Técnico da Eastman, Renan Urenhiuki, em geral, os produtos base água têm desempenho inferior aos de base solvente, por uma questão de tecnologia. Ele diz que um verniz para pintura original automotiva não pode ser base água, pois o desempenho é inferior, mas o primer surface e o base coat podem ser. “As empresas trabalham forte para desenvolver produtos base água com desempenho igual ou superior”, avisa.

Por que pintar? – Tendências à parte, os fabricantes são unânimes em relação à superioridade da pintura em comparação à peça injetada na cor. Para eles, a possibilidade de enobrecer o plástico assim como a homogeneidade do revestimento e a grande variedade de opções de acabamento representam grandes trunfos da indústria de tintas. Ou seja, a pintura do substrato vai aonde o plástico injetado na cor não consegue chegar, pois atende às especificações técnicas de mercados exigentes, como o automotivo e o de telefonia celular. “A pintura viabiliza a fabricação de uma peça totalmente fosca, com 1,2% de brilho e toda uniforme; no plástico injetado, não se obtém esse efeito”, compara Preto. Para ele, por mais que haja tecnologia embutida na injeção, com a pintura o substrato ganha mais vida e beleza.
No plástico, a tinta assume um caráter tanto estético quanto de proteção. No primeiro quesito, destaca-se a capacidade do revestimento de oferecer mais brilho e efeitos especiais à peça. No caso do setor automotivo, a diretora técnica da Akzo Nobel, Elaine Cristina Eiras Poço, afirma que o acabamento pela adição de cores aos “bulks” dos plásticos não é muito vantajoso para as peças empregadas no exterior dos automóveis. Um dos pontos cruciais se refere à diferença de textura e brilho do acabamento em relação ao restante do veículo. “O acerto das nuances de cores não seria perfeito. O uso de tinta permite harmonizar a cor com o restante do veículo proporcionando uma estética superior”, explica. Em termos de proteção, observam-se melhorias quanto à durabilidade da peça, por conta da promoção de mais resistência. De acordo com a explicação de Elaine, a tinta protege o substrato contra raios UV, intempéries e substâncias agressivas, e ainda oculta imperfeições da superfície. “Foi-se o tempo em que a tinta era utilizada apenas como acabamento estético”, completa o químico e gerente de desenvolvimento da Brazilian Color, Deivid José Balbino Carvalho.
