fimec 2008

Nanotecnologia, insumos ecológicos e de alto desempenho foram os destaques químicos da feira gaúcha do couro

Texto e fotos de Fernando C. de Castro

Fimec 2008

Um adesivo com nanotecnologia incorporada e know- how nacional foi um dos lançamentos de destaque por ocasião da 32ª edição da Fimec (Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes e Acessórios, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes). O evento contou com a participação de mais de 50 mil visitantes e mil expositores, de 8 a 11 de abril, em Novo Hamburgo-RS.

Na oportunidade, a Killing S/A, com sede em Novo Hamburgo, anunciou a chegada ao mercado brasileiro de uma família de produtos com base na nanotecnologia química para colagem. O lançamento é o resultado do desenvolvimento conjunto da empresa com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e demandou investimentos de US$ 1,5 milhão.

O diretor-presidente do grupo, Milton José Killing, revelou ainda que as pesquisas exigiram dois anos até que o produto final ficasse pronto. Denominado Kisafix nano, o adesivo apresenta como principal característica o aumento de 25% do poder de colagem na comparação com os produtos à base de água convencionais. Nos testes com hidrólise, o adesivo apresentou condições de aderência ideais na composição com EVA e TR, a chamada borracha termoplástica. Sobremaneira alcançou 80% de resistência à temperatura.

“Somos uma empresa inovadora e colocamos para o mercado um produto com alto valor agregado e desenvolvido por um grupo 100% nacional”, assinalou Killing. Durante a Fimec, o grupo gaúcho assinou um convênio de cooperação científica com a Universidade Luterana Brasileira (Ulbra) para a continuidade das pesquisas para a produção de novos itens centrados na tecnologia de ponta da química industrial.

Ao comentar o intento da Killing, o presidente da Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro, Vilmar Trevisan, sentenciou que a Fimec é como uma volta à escola, onde técnicos de todas as idades aprendem muito com as novidades e as últimas tecnologias. “É como uma reciclagem”, elogiou Trevisan. Outro grupo gaúcho da indústria de adesivos também anuncia uma linha de produtos com tecnologia de nanoemulsões e nanosferas. Trata-se da Artecola, também de Novo Hamburgo. O diretor do grupo, José Luís Haubrich, explicou que ao longo de 2008 a Artecola poderá aproveitar eventos relacionados com os seus sessenta anos de atividade e apresentar os produtos. Atualmente, a Artecola pesquisa ainda a obtenção de adesivos de origem vegetal.

Enquanto a nanotecnologia não vem, a Artecola aproveitou a Fimec para mostrar alguns produtos novos como o Arteprymer H3, destinado a borrachas em geral. Permite maior giro de fôrma no processo. Por exemplo, se uma empresa opera com cem fôrmas para suprir a demanda de cada célula de produção, com o H3 poderá preparar até cinco vezes mais peças com o mesmo número de fôrmas, ou seja, quinhentas unidades.

O Artecol PU é considerado outra evolução na linha de adesivos aquosa e serve para colar forros, solados e reforços, entre outros materiais. Elimina a presença de solventes orgânicos, contribui para a redução de VOCs (compostos orgânicos voláteis) e diminui o consumo de recursos renováveis.

A Artecola lançou também sistemas de aplicação com spray ou pincel, os que mais crescem em termos de forma de aplicação e no que tange às formulações. Atualmente, os adesivos de todas as aplicações são aquosos e correspondem a uma produção de 3,2 mil toneladas por mês, dentro do portfólio de produtos da empresa. Encontram aplicações em outros segmentos como as indústrias de móveis, embalagens e têxtil.

Os adesivos base água da Artecola são produzidos em Novo Hamburgo, Diadema, Buenos Aires, Santiago do Chile, Bogotá e Cidade do México. Conforme Haubrich, o tolueno e o xileno sobrevivem porque existem algumas aplicações sem solução tecnológica substituta. Mesmo assim, eles estão cada vez mais diluídos. Na sua visão, a saída dos solventes aromáticos da cadeia produtiva do couro é uma questão de tempo.

Da mesma forma, a Brascola mostrou cinco versões da linha Ecopren, adesivos dispersos em solução aquosa. O 326 Air é um adesivo para poliuretanos, EVA, SBR, madeira e poliuretano termoplástico expandido. Já o Ecopren Standard é um sistema poliuretânico disperso em água, ideal para a colagem de calçados em geral. Além disso, há o Ecopren Pesponto para cabedais e o Ecopren Pesponto spray formulado para as aplicações com pistola. O Ecopren Forte é proveniente de uma reação química com policloropropeno, também empregado na montagem de calçados.

Junto com a nova linha de produtos, a Brascola exibiu suas linhas tradicionais compostas por dez itens adesivos. São apresentados como 100% isentos de solventes e representam uma queda de 70% a 100% de elementos voláteis no processo de colagem de artefatos de couro.

Por sua vez, a unidade de couro da Basf apresentou sua grade completa de químicos para o processamento de couros, como engraxantes e surfactantes. “Além de nos aproximar ainda mais dos clientes, a Fimec é para nós uma plataforma nacional e internacional para a divulgação de nossos produtos e inovações”, comentou Adriano Magalhães, gerente de químicos para couros do grupo alemão.

Magalhães confirmou investimentos na ordem de € 1,5 milhões, em 2007, destinados à ampliação de seus laboratórios de desenvolvimento e de testes físico-químicos no Brasil e na Argentina. Entre os equipamentos adquiridos se destacam o toggling de expansão, a prensa contínua, fulões de inox para testes, secador a vácuo, máquina de amaciar couros, multiponto, suntest XLS+, cold impact tester, câmara climática, scuffing, martindale, crockmeter, espectrofotômetro de cor, estereomicroscópio óptico e titulador automático.

A unidade de químicos industriais da Basf reforçou ainda as aplicações possíveis do ácido fórmico. A formulação é largamente empregada no tratamento químico de couros como auxiliar do curtimento, principalmente na regulagem do pH.

Já a Lanxess lançou mais um produto de sua linha para beneficiamento de couros, o Levotan C-Cel. Trata-se de uma formulação produzida com base em microcápsulas expansíveis de polímeros dispersos para a fase de recurtimento. A vantagem é a capacidade do produto de penetrar no interior do colágeno durante o processo de recurtimento para formar micromoléculas de alta resistência. O desenvolvimento do novo sistema químico exigiu a construção de uma máquina específica de origem italiana como forma de permitir sua aplicação correta.

Ainda em recurtimento, a Lanxess promoveu em primeira mão o Levotan L., um polímero voltado a garantir a maciez do couro. Nessa linha, há ainda o Baykanol Licker LSM, um engraxante de última geração.

Na área de acabamento, os lançamentos da Lanxess ficaram por conta da linha Aquaderm, como o X_Shield, em base aquosa, desenvolvido pelo grupo alemão e a empresa japonesa Daikin, com estrutura química baseada em politetrafluoretileno incorporada à polimerização, a qual adere com grande firmeza à superfície do couro.

Em cobertura, foram apresentados os produtos Lanxess Aquaderm mateante 100, base poliuretano; o Aquaderm Finish OM, base acrílica; e o novo Aquaderm XL DI reticulante com formulação em isocianato para injeção direta. Há também uma nova linha de vernizes denominada Baygen Finish P. A Lanxess é uma das líderes em especialidades químicas e obteve um volume de vendas de € 6,61 bilhões em 2007. Conta com 14,6 mil funcionários espalhados em 21 países. Eles operam 41 unidades de produção em escala global. No Brasil, são 407 funcionários distribuídos em unidades produtivas em São Paulo, Porto Feliz-SP e São Leopoldo-RS.

Ao fazer um balanço da participação da Rhodia na 32ª Fimec, em Novo Hamburgo, o diretor de intermediários da Rhodia América Latina, Antonio Luvizeto, informou que a empresa aposta nos novos produtos e nas tecnologias desenvolvidas recentemente, as quais foram apresentadas em caráter inédito na feira. Os destaques ficaram por conta do filamento de poliamida de alta tenacidade Nitya, que oferece inúmeras possibilidades de aplicações em calçados esportivos e tênis com alta resistência a atrito e ao rasgamento.

Na linha de químicos para couro, as formulações da marca Rhodiaeco passam por constante desenvolvimento. Nos últimos anos, esses produtos, principalmente os relacionados com a fixação do cromo na pele, receberam aperfeiçoamentos como a geração de menor volume de efluentes, e permitiram ao curtume utilizar melhor a área de aproveitamento do couro. Esses produtos especiais circulam na ordem das cinco mil toneladas por ano no Brasil. “Nós somos químicos. Enxergamos a molécula e como modificá-la em termos de propriedades. O químico é quem desenvolve a molécula e aumenta a eficiência dos produtos”, observou Luvizeto. Com isso, acrescentou, a Rhodia conseguiu chegar às substâncias ambientalmente corretas como o poliuretano reciclável. “O PU não tinha uma densidade aceitável para o calçado e a Rhodia pesquisou e encontrou um parâmetro ideal.”

Entre os sistemas de automação industrial de processos químicos exibidos na Fimec, chamou atenção o Smarttan Web 2.0, que permite o gerenciamento do processo de produção de qualquer lugar do mundo, usando a internet como forma de acesso. É um software capaz de elaborar receita, administrar e executar processos de caleiro, curtimento e recurtimento, sendo apresentado como sistema-chave para curtumes por comandar simultaneamente todos os equipamentos. O software monitora e relata todos os eventos – automáticos ou manuais – ocorridos na unidade de produção e ainda permite a troca de informações via internet. Fornece também todas as informações sobre a posição do estoque de produtos químicos, consumo de água e consumo de produtos químicos por fulão. Segundo Luvizeto, a empresa quer aumentar em torno de 10% as vendas de produtos, insumos e tecnologias para o setor coureiro-calçadista em 2008.

Feira é a segunda maior do mundo

Com 1,165 mil expositores e mais de 50 mil visitantes técnicos, a Fimec se consolidou como segunda feira classe mundial da cadeia produtiva do couro. A afirmação é do presidente da Fenac S/A, empresa promotora do evento, Júlio Cézar Camerini. “Quanto ao volume de negócios fechados, qualquer número que eu falar pode não corresponder ao volume da feira, pois são muitos produtos expostos e cada um tem um comportamento diferenciado”, avaliou.

Camerini enfatizou o fato de que todos os crachás da feira foram distribuídos para visitantes relacionados com os negócios, assim como a seleção de expositores. “Não tivemos aqui empresas promovendo a venda de celulares ou outros produtos e serviços fora do negócio couro e calçados”, exemplificou o presidente. Ele destacou a presença de 23 compradores sul-americanos em Novo Hamburgo, participando da Fimec, interessados em adquirir tecnologia de equipamentos e processos. Ao todo foram realizadas 120 rodadas de negociações entre potenciais compradores e fabricantes do Brasil. As rodadas de negócios anualmente são o ponto alto em termos de operação de compra e venda na Fimec e resultam da iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para Couros e Calçados (Abrameq) com o apoio da Apex-Brasil e do consórcio MEK By Brasil, uma associação das empresas Master, Erps e Klein. Algumas operações de exportação foram concluídas dentro das rodadas. Como ocorreu nos anos anteriores, instituições de financiamento como Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal marcaram presença na Fimec, com diversas linhas de crédito e financiamento para

  • Cézar: rigor para selecionar visitantes
  • Cézar: rigor para selecionar visitantes

facilitar as operações de compra e venda. Entre as soluções de crédito disponíveis na Fimec, constavam o Proger, Finame, cartão BNDES, além das linhas de financiamento à exportação.Já no estande do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) técnicos prestaram informações sobre as linhas de crédito operadas pela instituição e receberam propostas de financiamento. O BRDE financia até 100% de obras civis e instalações para plantas industriais. O prazo total para pagamento é de até 96 meses. O investimento em máquinas e equipamentos nacionais novos tem carência de até 12 meses e o prazo total é de até 60 meses.

O capital de giro associado direcionado às microempresas pode chegar a 70% do valor do financiamento para investimentos fixos. Empresas de pequeno e médio porte podem obter 40% de capital de giro para investimentos. A Caixa Econômica Federal igualmente oferece linha de financiamento direcionada às micro e pequenas empresas. Na opinião do superintendente regional da Caixa, Plínio Graef, a Fimec promove aproximação com os clientes, pois envolve empresas que têm projetos para crescer. “E este é o nosso objetivo, ajudar no desenvolvimento de nossos clientes”, afirmou.

Com soluções de crédito para giro e investimento, a Caixa oferece mais de dez linhas, como Finame, Finame Modermaq, Proger Investimento, Cartão BNDES, Giro Caixa, Operações Estruturadas, antecipação de duplicatas e cheques pré-datados e agora a Carta de Crédito Caixa-P3, que é uma linha de crédito destinada às empresas que desejam comprar imóveis usados, aquisição de terrenos, construção e ou reforma destinadas ao comércio, serviços e indústria. A importância da parceria efetivada entre a Fimec e os bancos de fomento foi destacada pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Délcio Schmidt. Ele salientou que os associados da entidade têm dificuldades de levar seus equipamentos até o cliente e, por isto, a Fimec se transforma numa grande oportunidade de estimular a cadeia produtiva. “Aqui se concentram as novidades para quem quer ser competitivo. Aqui na feira tivemos visitas de todas as regiões e de vários países. Os empresários que tinham interesse em ser competitivos e evoluir em termos de moda e tecnologia estiveram aqui”, completou Schmidt.