Marcelo Fairbanks
Acendeu a luz amarela no comércio de produtos químicos. O estouro da bolha imobiliária norte-americana desencadeou uma crise econômica que, embora tenha o centro fincado nos EUA, espalha a marola por todo o mundo, em variados graus de intensidade.Embalado pelos resquícios da euforia global e anabolizado pela expansão do crédito ao consumidor, o mercado brasileiro mantém o ritmo de crescimento. O lado ruim do panorama: os empresários do setor esperavam resultados ainda melhores para o início de 2008.
A combinação dos movimentos de globalização, a alta do petróleo, o fortalecimento do real e as mudanças no perfil dos produtores químicos (por meio de fusões e aquisições) colocou em xeque o estreito relacionamento entre distribuidoras e distribuídas. O momento se apresenta favorável a operações de compra e venda isoladas de produtos, sem vínculos contratuais de origem, que no passado eram apontados como oportunísticos, no sentido depreciativo do termo. No entanto, encontrar fontes alternativas de suprimento desponta como tendência firme no setor, permitindo oferecer aos clientes reduções significativas de custos. Durante o 4º EBDQuim (Encontro Brasileiro dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos), realizado de 5 a 9 de março em Camaçari-BA, foi salientada a visão européia atual sobre a distribuição química, na qual estão proibidas (por sentença judicial) as imposições dos fabricantes sobre os distribuidores. Cláusulas contratuais como exclusividade de suprimento, fixação de limites geográficos de atuação e obrigatoriedade de informar todos os dados dos clientes estão terminantemente vedadas. Além disso, a crise econômica americana afetou os resultados de fundos de investimento, segmento responsável pelos maiores movimentos de fusões e aquisições na distribuição química mundial durante os últimos anos. Com isso, o ânimo para novas megaconsolidações arrefeceu.
No Brasil, as mais recentes operações de consolidação de negócios foram feitas entre empresas do ramo. A Brazmo (grupo Formitex) comprou e uniu as atividades da Bandeirante Química, enquanto a Braskem assumiu a líder Ipiranga Química como conseqüência de uma negociação maior: a compra de todo o grupo Ipiranga, feita em parceria com o grupo Ultra e a Petrobras.

Expansão setorial – A distribuição química apresenta trajetória crescente de negócios desde o lançamento do Programa de Distribuição Responsável (Prodir), em 2003. De lá até o final de 2007, a evolução do faturamento setorial foi de US$ 1,7 bilhão para US$ 4,0 bilhões, segundo levantamento estatístico conduzido pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim). No mesmo período, o lucro bruto caiu de 18,77% para 13%, em média, enquanto o resultado líquido encolheu de 2,6% para 2,0%. “Essa rentabilidade não cobre sequer a inflação do período”, avaliou o presidente da entidade, Rubens Medrano. A permanecer esse quadro de margens reduzidas, algumas empresas do setor poderão apresentar problemas de liquidez.
O EBDQuim teve como pano de fundo essa preocupação, motivando os empresários a pensar nos seus pontos fortes e fracos para delinear uma estratégia de negócios capaz de garantir melhor rentabilidade. Nesse ponto, a grande incógnita continua sendo o impacto que a economia brasileira sofrerá com a crise dos EUA e quando será sentido. Medrano atribui grande parte do crescimento de vendas de produtos finais registrado no ano passado à expansão do crédito aos consumidores. Com base nos dados da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, da qual integra a diretoria, ele identifica o esgotamento desse veio, explicado pelo alto endividamento da população. “A demanda tende a se estabilizar e até a diminuir por causa disso; e deveria dispensar o aumento dos juros básicos pelo Banco Central, medida que dificulta a tomada de recursos para investimentos produtivos”, afirmou.
Com base nos dados preliminares do setor, o dirigente avalia que o primeiro trimestre manteve o ritmo de crescimento verificado em 2007. No entanto, dada a instabilidade da economia norte-americana e a elevação das cotações do petróleo, ele consideraria positiva uma nova expansão do PIB entre 4,5% e 5% ao final do ano. Entre os percalços encontrados pelo caminho, ele mencionou a greve dos auditores fiscais da Receita Federal iniciada na segunda quinzena de março e que se estende pelo mês de abril (era mantida até o fechamento desta edição). Durante mais de trinta dias, a liberação de mercadorias importadas, químicos incluídos, foi bloqueada ou severamente prejudicada. “Os danos ao mercado nacional só não foram piores porque a cadeia estava estocada e a rede de distribuição possui capacidade para suportar interrupções de suprimento até 45 dias, em média”, comentou. O dirigente mencionou que a Associquim pediu e obteve a liberação dos produtos importados por seus associados por força de Mandado de Segurança. Embora satisfaça a necessidade imediata, é preciso salientar que a impetração do pedido e o acompanhamento dos processos importaram custos.
Depender de suprimentos importados exige uma difícil adaptação por parte dos distribuidores. Fora as eventuais greves no sistema aduaneiro e logístico, que sempre encerram majorações de custos, é preciso considerar a exposição ao risco cambial e o comprometimento do capital de giro para bancar as operações. “A distribuição não importa de maneira oportunística, mas atua por necessidade, uma vez que a indústria química nacional é incapaz de suprir totalmente a demanda nacional”, explicou. Em relação aos rumos da distribuição química européia, Medrano considera importante acompanhar e discutir o que se passa por lá, porém sem perder de vista a realidade do mercado brasileiro de produtos químicos, ainda muito ligado à origem dos produtos (nomes dos fabricantes). “Nós brincamos que o distribuidor carrega o nome das distribuídas como sobrenome”, disse. Ele também considera importante verificar os efeitos da nova legislação européia sobre produtos perigosos denominada Reach (ver reportagem especial sobre o tema na QD-471). A imposição de mecanismos radicais de controle das substâncias poderá provocar uma reorganização profunda do mercado europeu, desde os produtores até a rede de distribuição. Um primeiro efeito já pode ser notado com os movimentos de países fora do bloco para montar esquemas semelhantes, com o risco de criar uma rede de sistemas de proteção não-alfandegária de mercados. “Os membros do Nafta [EUA, Canadá e México] desenvolvem o ChAMP (Chemical Assessment and Management Program), criado em 2007, com previsão de entrar em operação em 2012”, comentou.

“As exigências do Reach são tão severas e implicam custos tão elevados que algumas empresas de distribuição de menor porte podem deixar a atividade ou mudar radicalmente a forma de atuação”, comentou Hendrik Abma, diretor-geral da Associação Européia dos Distribuidores Químicos (FECC), durante o EBDQuim. Ele tem certeza de que o programa será efetivado ao final deste ano, até porque ele representa um fortalecimento da estrutura burocrática da União Européia. Uma das atividades da associação consiste em fazer lobby (devidamente regulamentado) nas entidades internacionais de regulamentação. Recentemente, a FECC mudou sua sede para Bruxelas, situando-se a menos de uma quadra da sede do Parlamento Europeu, facilitando o diálogo. A FECC programou uma sessão sobre o Reach durante o próximo congresso anual da entidade, que será realizado de 2 a 4 de junho no Marriott Hotel, em Budapeste. Em novembro, a entidade setorial promoverá um seminário específico sobre a implementação do programa, que já está sendo anunciado há tempos para os associados, dominando uma seção específica da newsletter mensal da entidade.
Peso da consolidação – A Associação Norte-Americana dos Distribuidores Químicos (NACD) foi representada no EBDQuim pelo vice-presidente Bruce Schechinger, com o objetivo de demonstrar os benefícios do Responsible Distribution Process (RDP) para o setor desde o seu início, em 1991, dez anos antes de ser introduzido no Brasil. Os números de redução de acidentes e perdas de produtos, somados ao maior volume trabalhado pelas distribuidoras nos últimos dez anos, permitiram aos membros da NACD uma diferenciação em relação aos não-membros. E quem atesta essa diferença são os fabricantes, os clientes e os órgãos governamentais. “O RDP nos qualificou como interlocutores das principais agências governamentais dos EUA”, informou. Outra vantagem sensível é a concessão de descontos de 10% no valor dos fretes contratados por associados com RDP válido.