Petróleo
A Petrobras não está mais resistindo: em setembro começa a comprar, mesmo em estado bruto, o óleo extraído dos 27 campos maduros, também chamados marginais, das bacias da Bahia (Recôncavo), Sergipe, Rio Grande do Norte e Espírito Santo – campos estes arrematados tamponados em 2005 e 2006, nos leilões da Agência Nacional de Petróleo (ANP), por pequenas empresas de variados ramos, que agora se apresentam como pequenos produtores independentes de petróleo, ou minipetroleiras. A Petrobras prometeu também que até novembro de 2009 transferirá em comodato, para a entidade que representa esses produtores, a Associação dos Produtores de Petróleo e Gás Natural Extraídos de Campos Marginais (Appom), uma estação de tratamento, para que eles próprios tratem o óleo. “A Petrobras reconheceu a importância de estabelecer uma parceria com os pequenos produtores independentes”, avalia diplomaticamente o diretor-executivo da Appom, Anabal Santos Jr. Até recentemente, alegando que sua capacidade de tratamento de óleo bruto estava no limite, a Petrobras anunciava que só haveria negócio se o óleo fosse entregue tratado, completamente isento de água e sal, exigência que era interpretada como completo desinteresse em estabelecer parceria com as minipetroleiras. Pressões da ANP e a má repercussão de tal resistência, principalmente na Bahia, teriam forçado a mudança.

Ainda investindo na reativação dos campos arrematados, essas incipientes petroleiras nem imaginaram a hipótese de investir também em uma ou mais estações de tratamento – onerosa instalação que requer tanques, bombas de transferência e, principalmente, caldeira e reservatório com serpentinas para aquecer óleo e água a 60ºC. Para operar a estação cedida em comodato, os pequenos produtores precisarão apenas construir um conjunto de tanques para receber o óleo, investimento de cerca de R$ 2 milhões que Santos Jr. considera viável. “Até já estamos pensando no projeto”, adianta. O executivo revela que oito dos 27 campos maduros – seis na Bahia e dois em Sergipe – já estão produzindo cerca de 400 barris/dia, conjuntamente. A previsão é de que todos os 27 produzirão 2 mil barris/dia, volume que será acrescido da futura produção resultante dos campos a serem arrematados nos próximos leilões da ANP. No próximo, em outubro, serão oferecidos entre 15 a 17 campos. A decisão da Petrobras de comprar o óleo a partir de setembro foi considerada essencial para assegurar boa participação nesse leilão.
Até a Petrobras começar a comprar o óleo, as minipetroleiras continuarão enviando a produção para a Univen, uma minirrefinaria de Itupeva-SP. É um negócio ao mesmo tempo rentável e gravoso. Rentável porque o alto preço do petróleo assegura a boa remuneração; gravoso porque no caminhão tanque segue também, por mais de 1.500 quilômetros, a água salgada emulsionada ao petróleo. Santos Jr. lamenta: “O frete está pesando muito, corresponde a 20% a 25% do valor da nota fiscal.” Ele revela que apesar de a Petrobras informar que vai comprar o óleo, a Univen está interessada em instalar uma minirrefinaria na Bahia.
O campo que a Sinalmig, empresa de programação visual e sinalização sediada em Belo Horizonte, quer devolver à Agência Nacional de Petróleo é o menor dos 27 leiloados em 2005 e 2006 – um campo, a 60 quilômetros de Salvador, de reduzidos 0,98 m² e um único poço. A Sinalmig o arrematou por R$ 51.233 (bônus) e mais o compromisso de investir R$ 600 mil no Programa de Trabalho Inicial (PTI), lance que venceu os dos outros competidores: a Geobras Pesquisas Minerais, que ofereceu bônus de R$ 10 mil e disposição de investir R$ 650 mil no PTI; e a Petroima, Indústria, Comércio e Serviços, com R$ 3.102 de bônus e R$ 450 mil no PTI. Originalmente, o campo da Sinalmig foi o Campo Rio Una, descoberto pela Petrobras em 1976
contendo estimados 377 mil barris padrão Brent (33º API) e 600 mil m³ de gás – mas que só em 1985 começou a produzir por meio do único poço, que logo no ano seguinte foi tamponado, com a vazão de 40 barris/dia. Nesse pouco tempo produziu 11 mil barris e 35 mil m³ de gás. Na edição 458, Química & Derivados revela que a expectativa da Sinalmig era de obter pelo menos 20 a 25 barris/dia, o suficiente para pagar os custos e garantir o retorno do investimento com o pretendido lucro. O gás, se saísse na quantidade mínima para viabilizar a instalação de um compressor e a conseqüente canalização até o duto da Petrobras, daria uma receita extra – se não, seria queimado na boca do poço.
Sonda Itinerante – Santos Jr. anuncia que por causa do leilão de outubro a Appom está programando um workshop “para contribuir no esclarecimento a potenciais investidores”, que ainda não conhecem o negócio. Ele avalia que a intenção de investimento é das mais altas, baseando-se nos lances não-contemplados, oferecidos por mais de cem concorrentes nos dois leilões já realizados: R$ 320 milhões. Soma-se a isso, a expectativa adicional, causada pela explosão no preço do petróleo, agora beirando US$ 120, o barril. “Os interessados devem se inscrever logo”, recomenda. O executivo lembra que um estudo da ANP datado de 2002 revela que a reativação de todos os campos tamponados nas bacias do Nordeste e do Espírito Santo ensejaria R$ 500 milhões em investimentos e 6 mil postos de trabalho. “Nos 27 campos arrematados em 2005 e 2006 estão sendo investidos R$ 80 milhões”, assegura. Aos associados, o principal serviço prestado pela Appom é a sonda de perfuração, que mantém alugada para uso em sistema de condomínio – uma sonda itinerante, que percorre os quatro estados onde estão os 27 campos marginais. “Atualmente está no Espírito Santo, acabando de preparar um poço que está produzindo 100 barris/dia, ótima marca para um campo marginal”, comemora Santos Jr.
A resistência da Petrobras em comprar o óleo dos campos marginais leiloados em 2005 e 2006 surpreendeu as pequenas empresas que se tornaram donas desses campos: embora nos editais de licitação da Agência Nacional de Petróleo (ANP) não constasse nenhuma garantia expressa de que a Petrobras compraria, ninguém imaginou que haveria algum motivo para não comprar. Além de exigir que as minipetroleiras entregassem o óleo tratado, a Petrobras exigia também que fosse caracterizado, trabalho que teria de ser feito no exterior. No Brasil, o único laboratório capacitado para tanto, o Cenpes, da própria Petrobras, alegava que precisaria de um certo prazo, então considerado extenso em demasia. As 27 áreas ou campos marginais foram leiloados em duas ocasiões: em outubro de 2005, na sétima rodada, juntamente com alguns blocos exploratórios, ocasião em que 16 dos 17 desses campos das bacias da Bahia e
Sergipe/Alagoas foram arrematados; e em julho de 2006, no 1o leilão de campos marginais da ANP, quando foram arrematados 11 dos 14 campos oferecidos nas bacias do Maranhão, Rio Grande do Norte e Espírito Santo. Todos os campos foram entregues aos vencedores do leilão fora de produção e tamponados. Quando foram abandonados, apresentavam produções muito baixas – eram então considerados sem interesse comercial para a Petrobras. Posteriormente, foram transferidos para a ANP, em obediência à Lei 9.478/97, a Lei do Petróleo. Antes de a Lei do Petróleo ser aprovada, a Petrobras podia leiloar os campos que não interessassem comercialmente, porém só realizou um leilão, em 2001. Duas empresas, a W. Washington e a Petrosynergy, arremataram a maior parte dos campos. Receberam alguns em produção, e todos com a garantia de que todo o óleo seria imediatamente comprado, como está sendo feito até hoje.
A sonda que põe poço desativado em produção está sempre sendo disputada. “Às vezes, o próximo da fila ainda não está preparado, e outros logo começam a briga pela oportunidade”, relata o executivo. Ocupa a “janela”, como a oportunidade é chamada, quem melhor atender aos requisitos consensuais. “Um poço que já esteja operando, e que precise da sonda por dois ou três dias para um trabalho emergencial, sempre tem a preferência.” Nesse tempo de preço nas alturas, os poços maduros tendem a ser vistos como vacas de ordenhar petróleo que prometem riqueza rapidamente, mesmo que produzam apenas 20 barris/dia – mas o risco não deixa de estar presente. Nem sempre o resultado é o que se imagina certo. Este é o sentimento de dois associados da Appom – a Sinalmig e a C.Foster –, ambos agora empenhados em convencer a ANP a receber os poços de volta e a desonerá-los das obrigações contratuais, que incluem até hipotecas e aval bancário. Alegam impossibilidade de cumprir o programa de investimento, em razão de falhas mecânicas supervenientes. A Sinalmig diz que encontrou o tubo do poço excessivamente oxidado e bloqueado por um objeto estranho incrustado – um “peixe” na língua “petrolesa” –, que teria resistido a todas as formas possíveis de “pescaria”. A única solução, argumenta, está economicamente fora de propósito: cavar ao lado outro poço, de iguais 2.100 metros. José valverde