Comércio exterior

Indústria polonesa abre escritório no Brasil

A maior indústria química da Polônia completou seu primeiro investimento direto no Brasil. O grupo Ciech estabeleceu um escritório comercial em São Paulo, na região de Pinheiros, criando a Ciech América Latina, para atender o mercado latino-americano de produtos químicos. A iniciativa representa, em parte, a intensificação do comércio entre Brasil e Polônia nos últimos anos. Em 2003, segundo dados brasileiros, as trocas comerciais entre os dois países somavam US$ 200 milhões; já em 2007, elas atingiram US$ 600 milhões. Além disso, os resultados de janeiro de 2008 são muito promissores, pois em comparação ao mesmo período de 2007 as exportações polonesas aumentaram 38%, e as brasileiras, 100%. Entre os principais produtos poloneses vendidos no Brasil aparecem adubos e fertilizantes, sulfato de amônio, motores diesel para veículos, eletrodos de carvão, soda cáustica, caldeiras para a indústria de alumínio e enxofre, enquanto são apreciados no país europeu os aviões, fumo, autopeças, café, ferro, magnésia e carne brasileiros, entre outros produtos.

O grupo Ciech é o maior grupo químico polonês e também da Europa Central, com doze fábricas na Polônia, uma na Alemanha e outra na Romênia. A empresa surgiu em 1945 como estatal para a importação e exportação de produtos e aparelhos químicos. Na economia centralizada de então, ela era a única com direito de comercialização de insumos químicos, e possuía tamanho muito superior às necessidades da Polônia, pois abastecia todo o bloco socialista do centro e leste europeus. Após cinqüenta anos dessa exclusividade, a Ciech se tornou uma sociedade anônima, modificando também seu perfil de empresa comercializadora para produtora de substâncias químicas, com a compra de diversas fábricas. Em 2005, a companhia foi privatizada e passou a negociar suas ações na Bolsa de Varsóvia, mas o governo polonês ainda detém 36,7% de seus papéis. O faturamento da Ciech atingiu cerca de US$ 1,23 bilhão em 2007.

O grupo se divide em quatro áreas. A divisão Soda produz principalmente barrilha leve e densa (o grupo é o segundo maior produtor de barrilha da Europa e o quarto mundial, com 1,8 milhão t/ano), cloreto de cálcio, bicarbonato de sódio e sal; na divisão Química Orgânica, são fabricados TDI (tolueno diisocianato), ECH (epicloridrina) e espumas de poliuretana; a divisão Agroquímicos tem nos fertilizantes com base em fósforo seu ponto forte; e na divisão Silicatos e Vidro, são comercializados silicatos de sódio e de potássio, sodium water glass (Na2O.3SiO2) e blocos de vidro para construção. Segundo o diretor-presidente da Ciech América Latina, Voitek Karol Kordecki, o grupo busca na região oportunidades de venda em grande escala para clientes e distribuidores. A intenção é desenvolver parcerias e vendas de longo prazo, sem interesse por operações no mercado spot. Kordecki cita entre as vantagens do grupo polonês a oferta de matérias-primas de qualidade igual à fabricada pelos maiores competidores da indústria química, porém com preço inferior, a possibilidade de independência em relação às práticas exercidas por essas mesmas empresas, e a garantia de fornecimento em longo prazo.

Com a falência da Companhia Nacional de Álcalis e a total dependência da indústria nacional das importações de barrilha, esse segmento se tornou a grande menina dos olhos no Brasil para a Ciech. A empresa avalia a demanda local em 1,5 milhão t/ano e vê grandes oportunidades de negócio com os produtores brasileiros de vidro. O outro grande atrativo na região é o mercado agrícola (venda de fertilizantes), considerado estratégico, junto com a indústria de vidro, por Kordecki. O grupo desenvolve em suas linhas de pesquisa projetos que podem ser importantes para o Brasil, como a modernização da linha de produção de TDI, uma tecnologia de produção de ECH com base em glicerina (mais barata que a estabelecida atualmente, permitindo custo de produção entre 20% e 25% menor), além de fertilizantes para cultivos de cana-de-açúcar específicos para os solos brasileiros. Nesse caso, trata-se de fertilizantes com base em gesso contendo certo teor de enxofre, destinados a solos originariamente cobertos por vegetação de cerrado ou de mata atlântica. Esse tipo de terreno, bem como aquele próximo a usinas de açúcar, costuma ser contaminado por alumínio, que prejudica a absorção de nitrogênio pelas raízes dos vegetais, em especial nas ramificações mais profundas. Esse fato implica necessidade de altas quantidades de fertilizantes nitrogenados. O uso do gesso na agricultura é conhecido no Brasil há mais de vinte anos, porém é pouco divulgado, na visão do diretor-presidente, porque os fornecedores brasileiros do produto estão com toda sua produção “vendida”, e sem possibilidade de aumentar a capacidade de produção. Na avaliação de Kordecki, assim que o fertilizante estiver disponível para comercialização no Brasil, a Ciech ganhará de imediato um terço do mercado nacional, vendendo sua mercadoria nos locais que não são atendidos pelos fornecedores nacionais. Márcio Azevedo