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REACH |
Mesmo que esteja dentro do direito da Europa disciplinar seu comércio em
respeito a princípios socioambientais elevados, a queixa difícil de se
contestar se refere à falta de isonomia de tratamento do Reach entre
empresas européias e as estrangeiras. Tem esse ponto de vista a consultora
Nícia Maria Mourão Henrique, exposto na defesa de sua tese de doutorado em
janeiro de 2008 na UFRJ.

Segundo Nícia, que
vem preparando empresas brasileiras e ministrando cursos sobre o Reach em
associações industriais, para começar há um ponto inconteste que prova a
desigualdade na competição. Uma empresa européia downstream user
(fabricante de tinta ou de roupas, por exemplo) fabrica seu produto na
Europa e para isso faz uso de uma série de substâncias químicas. Todas elas
estarão já registradas pelos produtores e isso não acarretará trabalho e nem
custo extra para registro. Já um competidor estrangeiro, que fabrique o
mesmo produto final e deseje vender para a Europa, precisará registrar e
pagar o alto custo decorrente de todas as substâncias empregadas no bem
exportado. “Se isso não é uma barreira, o que é?”, diz a consultora.
Mas as observações críticas, que justificam a qualificação do Reach como
barreira técnica, não param por aí e já começam na fase de pré-registro.
Para que os exportadores possam enviar as informações requeridas até
novembro, eles precisam já ter definido quem será seu representante
exclusivo (em inglês, only representative) na Europa. E essa tarefa,
aparentemente simples, tem gerado muita dor de cabeça. Em primeiro lugar, é
difícil encontrar pessoas físicas ou jurídicas interessadas em oferecer os
serviços. Afinal de contas, esse representante, que precisa entender
tecnicamente das substâncias, se torna o responsável legal pelos produtos
importados e passa a deter todas as informações técnicas. Em virtude da
importância do serviço, tende a ser caro e, pior do que isso, de complicado
entendimento.
Em uma análise mais simplista, o mais lógico seria o importador, seja ele um
produtor ou mais comumente um distribuidor europeu, se tornar o only
representative. Mas aí, segundo explica Nícia Mourão, está havendo muita
resistência dos exportadores. “Com razão, eles não querem ficar na mão de
apenas um trader, o que pode limitar a área de atuação comercial na Europa”,
revela. Uma saída melhor, porém difícil de encontrar, seria conseguir um
representante mais independente comercialmente, como um profissional
aposentado da indústria química que se estabelecesse quase que de forma
exclusiva para operar nos assuntos regulatórios do Reach.
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Mas se a
definição for pelos agentes exclusivos há também quem encontre aí um
novo problema. É o caso do responsável pela implantação do Reach na
Neste Oil, Seppo Loikkanen. Para ele, que precisa importar cerca de 10
substâncias de fora da Europa e as quais serão registradas, não está
claro como será feito o desembaraço fiscal e a organização da
transação comercial. Isso porque quem paga os impostos pela negociação
é a empresa importadora. Mas se esta não for a representante exclusiva
para o Reach, não será ela que receberá a documentação legal da
substância. “Está nebuloso entender quem será o importador de fato. O
produto vai direto para o importador, mas a documentação pelo only
representative”, afirmou Loikkanen. |
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Seppo:
difícil entender quem será o importador de fato |
Chineses na
frente – Fazer-se representar legalmente na Europa deve se tornar um
problema recorrente e, com certeza, um custo alto a mais, entre tantos
outros embutidos no Reach, desde as taxas de registro de cerca de 30 mil
euros por substância até os milhões gastos em testes físico-químicos,
toxicológicos e ecotoxicológicos. De forma unânime entre os especialistas, a
melhor forma para tentar minimizar não só os gastos como os problemas
burocráticos e técnicos advindos da representação seria o país exportador se
unir. E nesse caso a participação dos governos parece ser essencial. “O
Reach é uma questão de estado, porque vai afetar a economia dos países”,
avisa a consultora Nícia Mourão.
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Os próprios
europeus, os menos afetados, já alertam para impactos na economia do
Velho Continente. O diretor-geral da federação da indústria química
finlandesa, Hannu Vornamo, conta com a perda de muitos postos de
trabalho por toda a Europa: “As conseqüências vão ser enormes, porque
os gastos são altíssimos.” Previsão corrente dá conta de que as
empresas européias desembolsarão de 10 a 12 bilhões de euros por ano
para atender o Reach nos próximos doze anos. Ainda na opinião de
Vornamo, as empresas de pequeno e médio porte serão as mais afetadas.
“Elas não têm estrutura para agüentar a monstruosidade regulatória do
Reach”, alerta. Quando a questão envolve as empresas estrangeiras,
então, o diretor |
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Vornamo: Europa vai perder postos de trabalho |
sugere medidas
mais enérgicas de proteção, como a adotada pela China, que inaugurou um
escritório de representação para suas indústrias em Helsinque.
O escritório, que conta com o apoio do Ministério da Indústria e Comércio
chinês, foi denominado CCCMC, sigla para câmara de comércio para
importadores de metais, minerais e químicos. O órgão, com 200 funcionários,
representará legalmente 4 mil companhias dos setores químico e metalúrgico.
Trata-se do único país a tomar uma decisão como esta, mas cujo pragmatismo
deve colocar a China na dianteira das negociações do Reach.
“Além de ficar perto da ECHA, traz um pouco de calmaria para os exportadores
chineses, que não querem perder seus negócios com a Europa”, explicou o
consultor Riku Rinta-Jouppi, diretor do Helsinki Reach Centre, um centro
criado para trocar informações sobre a nova legislação. Segundo informa Riku,
a federação industrial russa cogita imitar o modelo chinês. E outros países,
como Estados Unidos, Japão, Canadá, Coréia do Sul e Índia, também estudam a
possibilidade.
Brasil atrasado – A pena é que o Brasil parece estar distante de
tomar atitudes cooperativas como a chinesa. O governo federal, segundo
informou a consultora Nícia Mourão, está totalmente ausente do assunto e sem
interlocutor para pelo menos ouvir a indústria brasileira sobre seus receios
e necessidades relativos ao Reach. E isso não obstante a importância
estratégica dos setores para a economia e o fato de o Brasil ter exportado
US$ 2 bilhões em substâncias químicas em 2007 para a Europa, e sem contar
ainda aquelas contidas nos artigos industrializados. “A indústria brasileira
como sempre está órfã e, pior, ela própria não está preocupada como deveria
estar”, alerta Nícia.
Como consultora conhecida na área, com estreita ligação com a Associação
Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e passagem como engenheira química
por empresas importantes, como Dow e Oxiteno, Nícia se preocupa com o atraso
das indústrias brasileiras. “Muitas estão começando a me procurar apenas
agora, depois de receberem cartas de seus importadores europeus avisando
sobre a necessidade do pré-registro”, revela Nícia. E há nesse bojo setores
estratégicos para o país, como o siderúrgico, que precisará adequar a
exportação de vários metais.
Mas a consultora também não credita o atraso brasileiro apenas ao famoso
jeito nacional de “deixar tudo para a última hora”. Faz parte de um dos
argumentos apresentados na defesa de sua tese na UFRJ a denúncia de que a
União Européia não foi transparente globalmente na comunicação do Reach. O
ponto de vista se confirma não apenas em virtude da desinformação local a
respeito, mas principalmente porque as próprias empresas européias reclamam
de várias questões ainda em aberto. “Se eles têm motivos para se queixar,
imagina o Brasil”, diz Nícia. Aliás, o diretor-executivo da ECHA, Geert
Dancet, revelou que a agência começará nos próximos meses a fazer uma
campanha internacional para divulgar o Reach. Um pouco tarde, talvez, tendo
em vista que as empresas européias, por estarem próximas dos centros de
decisão, tiveram mais condições de se preparar para a regulamentação.
De forma prática, o descuido brasileiro no curto prazo pode já tirar vários
competidores que deixarem de fazer o pré-registro, tanto por não conseguirem
um representante legal a tempo como por outros motivos, como esquecer de
incluir alguma substância ou se equivocar na interpretação da complicada
regulamentação. A longo prazo, o cenário projetado deve ser, em primeiro
lugar, a perda de competitividade de vários setores da indústria nacional
que negociam com a Europa. Produtores europeus de artigos, preparações e
especialidades vão comprar substâncias já registradas de europeus, sem
precisar arcar com os custos, enquanto os estrangeiros serão obrigados a ter
seus próprios registros para exportar os mesmos produtos.
Em um segundo cenário, ainda hipotético, os exportadores brasileiros terão
dificuldades mesmo ao tentarem se globalizar em outras regiões do mundo.
Isso porque a regulamentação européia, na previsão de muitos especialistas,
deve servir no futuro de modelo para uma harmonização global de controle de
substâncias químicas. Isso, aliás, já ameaça ocorrer. Em 18 de março, os
Estados Unidos lançaram um programa de controle de substâncias químicas
denominado Champ (Chemicals Assessment and Management Program), desenvolvido
com a ajuda do EPA, em parceria com Canadá e México e também conhecido como
Montebello Agreement. A promessa dos três países é tornar o programa uma
alternativa ao Reach. Até 2012, será finalizada etapa de caracterização de
risco de mais de 9 mil substâncias produzidas em quantidades superiores a
11,3 toneladas por ano. Uma prova de que o mundo nunca mais será o mesmo
depois do Reach.
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Registro usará softwares especiais
Quando começar a
fase de registro, as empresas registrantes vão contar com um software
desenvolvido pela ECHA para administrar os trabalhos. Trata-se do Iuclid (International
Uniform Chemicals Information Database - Base de Dados Internacional de
Informação Uniformizada sobre as Substâncias Químicas), ferramenta que
permitirá a criação, o gerenciamento, armazenagem e o transporte de dados e
dossiês requeridos para a empresa cumprir as exigências do Reach. O software
está disponível no site da ECHA para download gratuito desde o ano passado
e, segundo o diretor-executivo Geert Dancet, não é necessário para o
pré-registro.
Para o pré-registro, haverá outro software web para auxílio: o Reach-IT, a
ficar pronto em junho de 2008. Além de servir para essa etapa, ele será
usado para organizar uma base de dados dos dossiês técnicos das substâncias
químicas enviados para auxiliar o registro. Por ele, o interessado poderá
acessar dados não-confidenciais de substâncias de outras empresas, que
tenham referência com seus interesses de registro, além de consultar os seus
próprios documentos.
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Por
sua implementação estar ligada a ferramentas da tecnologia da
informação (TI) – o que por sinal veio a calhar a sede da ECHA
ser em Helsinque, terra da Nokia e de várias outras empresas da
área –, o Reach tem obrigado os consultores a se especializarem
nos softwares oficiais e ainda tem atraído o interesse de outros
profissionais de TI, que tentam criar mais facilidades
tecnológicas para aproveitar o grande potencial de negócios. Um
exemplo é a empresa Reachway, de Helsinque, fundada por um
especialista em TI, Stephen van Heerden, e uma ecotoxicologista,
Eeva Punta.
Segundo Eeva Punta, ex-funcionária do grupo sueco-finlandês de
papel e celulose Stora Enso, o software da Reachway é fácil de
instalar e não demanda grandes investimentos em TI, criando uma
cadeia de |
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Eeva: ferramenta TI para auxiliar
adoção |
comunicação ágil
entre fornecedores e clientes para armazenar, utilizar, divulgar e analisar
dados das substâncias. “Por termos conhecimento da regulamentação e também
da química das substâncias, criamos uma ferramenta eletrônica com diálogos,
questionários e um banco de dados que facilita a busca de informações para
fazer os dossiês”, afirma Eeva, profissional que chegou a morar em Porto
Seguro-BA para ajudar na implantação da Veracel, em Eunápolis-BA, fábrica de
celulose em sociedade com a Aracruz.
Já com clientes grandes na carteira, como as conterrâneas Kemira e Neste, a
Reachway considera que o software também pode ser uma ótima ferramenta para
pequenas e médias empresas. “Conseguimos interligar todos os envolvidos no
registro de maneira muito fácil e, posso garantir, temos grande interface
com a ECHA para facilitar o andamento dos processos”, avisa Stephen van
Heerden, diretor-comercial da empresa. Em questão de proximidade com a ECHA,
aliás, a Reachway pode afirmar isso fisicamente. Seu escritório fica a três
quadras do quartel-general da agência, assim como quase tudo na pequena e
bela Helsinque.
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