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bio &
farma Michael
Nothenberg é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com
Heparina
adulterada, mais
um “negócio da china” |
Depois de despachar para seus
clientes ocidentais, particularmente aos das Américas do Norte e Central,
frutos do mar estragados, pneus inseguros, brinquedos pintados com pigmentos
à base de chumbo, rações animais contendo ingredientes ilegais, como
melamina, além de dentifrícios e xaropes antitussígenos formulados com o
tóxico solvente industrial e anticongelante dietilenoglicol no lugar da
inofensiva glicerina, tudo isso em 2007, ao menos uma indústria chinesa abre
2008 exportando lotes de heparina contaminada ou adulterada.
Usada em cirurgias cardíacas e diálises renais, a heparina é um
anticoagulante natural, proveniente de intestino de porco e, por vezes, de
pulmão bovino. Desde o início do ano, o principal fabricante norte-americano
da especialidade, Baxter Healthcare (Deerfield, Il), viu-se bombardeado com
relatos de efeitos adversos causados durante o emprego hospitalar de suas
três apresentações de heparina sódica: em frascos de uso individual,
multiuso, e em formulação diluída, para desobstrução de aparelhos em
infusões parenterais (Hep-Lock). De janeiro de 2007 a meados de março
de 2008, a empresa acumulou 785 relatos de reações alérgicas associadas a
manifestações como vômitos, diarréias, hipotensão, taquicardia e desmaios,
que podem ter resultado em 21 mortes.
Em comum acordo com a Food and Drug Administration (FDA), a Baxter,
responsável pelo fornecimento de cerca de 50% do mercado dos EUA, algo como
100 mil frascos diários, suspendeu a produção e recolheu todos os produtos
heparínicos previamente comercializados. Uma possível crise de abastecimento
está sendo evitada com o aumento de produção de outros fabricantes
norte-americanos, em particular, APP Pharmaceuticals (Schaumburg, Il),
Hospira (Lake Forest, Il) e B. Braun Medical (Bethlehem, Pa), cujas
heparinas não provocaram, a saber, efeitos comparáveis.
Falsificação – A toxicidade da heparina da Baxter foi avaliada pela
FDA e, como esperado, atribuída à presença de contaminante encontrado na
matéria-prima importada da China. Trata-se de sulfato de condroitina que, na
forma original, encontra emprego – por sinal controverso – no tratamento de
dores em articulações. Na sua forma natural, sulfato de condroitina, obtido
da cartilagem de porco, entre outros animais, é material abundante,
comercializado tipicamente a um vigésimo do preço da heparina.

Sulfato de condroitina, glicosaminoglicana com estrutura aparentada à da
heparina (Figura 1), não possui propriedades anticoagulantes.
O produto encontrado foi, contudo, quimicamente modificado por meio do que
poderíamos chamar de supersulfatação, tornando-se daí mimético de heparina.
Isto explica declarações prévias da agência regulatória norte-americana
sobre a impureza não ser detectável por metodologia analítica convencional,
e que seus analistas ainda estudam o desenvolvimento de método simples capaz
de caracterizar a presença da impureza. Para a FDA, o principal objetivo
agora é estabelecer se a contaminação foi acidental ou intencional. Outro
desafio é comprovar se o adulterante é o responsável pelas reações alérgicas
observadas no país.
A Baxter, admitiu que tem adquirido heparina de origem chinesa. E isso, há
mais de uma década, período durante o qual estima ter fornecido mais de meio
bilhão de doses a consumidores nos EUA. O produto suspeito de adulteração
foi comprado da Scientific Protein Laboratories LLC, SPL (Waunakee, Wi),
co-proprietária da Changzhou SPL, sediada em região de mesmo nome, na China.
Inspetores da FDA informaram ter encontrado heparina contaminada nas
instalações do fabricante, o qual alega ter adquirido o produto alterado de
pequenos fornecedores, que não se submetem à fiscalização das autoridades
chinesas.
Epidemia – Informação publicada pelo jornal The New York Times
parece confirmar a rota da contaminação: o mercado chinês de heparina
estaria em “polvorosa” nos últimos doze meses em virtude de uma epidemia
viral porcina não especificada. Alguns criadores, prossegue o diário, teriam
vendido animais doentes, o que resultou aos produtores locais de heparina
sérias dificuldades para suprir suas necessidades de matéria-prima. Outro
diário, o The Wall Street Journal, relatou que a Changzhou SPL, por ser
registrada como “indústria química”, não recebe a visita de inspetores
chineses, cuja fiscalização se restringe a “indústrias farmacêuticas”.
O contexto ajuda a explicar o comportamento cauteloso de fabricantes de
heparina em outros países. A Rotexmedica Arzneimittelwerk GmbH (Trittau,
Alemanha), pertencente ao grupo francês Panpharma, um dos dez fabricantes
germânicos de heparina, recolheu sua produção depois de registrar elevação
no número de reações alérgicas – cerca de 80 nas últimas semanas –
decorrentes do uso de seus produtos. A Rotexmedica emprega matéria-prima de
outro fornecedor, Yantai Dongcheng Biochemicals (Chandong, China).
Igualmente voluntária foi a iniciativa de três fabricantes japoneses – Fuso
Pharmaceutical Industries (Osaka), Terumo Corp. (Tóquio) e Otsuka
Pharmaceutical Factory (Naruto) –, que recolheram em conjunto 17 produtos
preparados com heparina originária da SPL, a mesma que abastece a Baxter. Em
conjunto, os fabricantes atendem a 70%-80% dos 270 mil pacientes de diálise
no Japão, compreendendo algo como quatro milhões de embalagens mensais. Não
há registro de efeitos adversos que justificassem a medida.
A Baxter Hospitalar, subsidiária brasileira da corporação norte-americana,
informou à Anvisa não ter distribuído heparina produzida com os lotes
suspeitos no Brasil. O banco de dados de farmacovigilância da agência
reguladora contém apenas 40 notificações sobre efeitos adversos no emprego
de heparina no período de 2000 a 2008, nenhuma delas associada a produtos da
Baxter.
Alternativas – A possível escassez de heparina poderá favorecer o
mercado de produtos alternativos, particularmente o dos chamados
heparinóides, que incluem “heparinas de baixo peso molecular” e derivados
sintéticos. Há também os chamados “inibidores diretos de trombina”, a
exemplo da hirudina e derivados.
Enquanto a heparina natural, conhecida por “não-fracionada”, é composta de
cadeias lineares de mupolissacarídeos, com peso molecular médio de 15 kDa,
heparinas de baixo peso molecular, introduzidas no mercado ao longo dos
últimos vinte anos, possuem cadeias mais curtas, de 4 a 6 kDa. Obtidas por
cromatografia de filtração por gel, ou precipitação fracionada em etanol,
com base em heparina integral, apresentam melhores propriedades
farmacocinéticas (absorção de 90% da dose após administração subcutânea,
contra apenas 30% da heparina natural), mas, em compensação, têm indicações
menos abrangentes, centradas na trombose venosa profunda. Das três
especialidades disponíveis nos Estados Unidos – dalteparina (Fragmin, Pfizer),
enoxaparina (Lovenox, Sanofi-Aventis) e tinzaparina (Innohep, Bristol-Myers
Squibb) –, as duas primeiras são encontradas no Brasil, a enoxaparina sob os
nomes Clexane, Cutenox e Dripanina.

Opção mais moderna é o
fondaparinux (Arixtra, GlaxoSmithKline, 2002), protótipo de nova classe de
heparinóides contendo apenas cinco sacarídeos, exatamente os que compõem o
grupo farmacofórico (essencial à atividade) do fármaco original. Por ser
sintético, o fondaparinux, que rendeu US$ 570 milhões à GSK em 2007, tem a
vantagem de ter composição definida, assegurando potência anticoagulante
previsível e ausência de impurezas alergênicas. Outro fármaco desta classe,
atualmente em ensaios em fase III, em 10 mil pacientes, é o idraparinux,
produto de desenvolvimento conjunto dos laboratórios Sanofi-Aventis e
Organon. Sua estrutura polimetoxilada determina uma meia-vida plasmática de
80 horas que, em oposição ao fondaparinux, injetado em doses subcutâneas
diárias, é prolongada o suficiente para permitir a administração de doses
semanais (Figura 2).
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