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COURO
Indústria de acabamento movimenta R$ 250 milhões

Existe uma segmentação da indústria de tintas, vernizes e produtos do gênero capaz de reunir tecnologia de ponta com elementos da química mais artesanal. Trata-se da atividade voltada ao acabamento, aplicação de cores, brilho e outros processos empregados na conclusão do beneficiamento de couros. Para cada lote de pele ocorre uma composição diferente e não há como controlar o processo em um padrão determinado, com algumas exceções. É o caso específico dos couros usados nos estofamentos da indústria automotiva e submetidos às normas internacionais. O mercado brasileiro para produtos de acabamento de couros movimenta R$ 250 milhões por ano.

Dessa forma, o produto final consiste em uma mistura de materiais realizada pelo técnico ou pelo químico do curtume na hora de terminar o couro. Com isso, o modelo de indústria de tintas e vernizes que atende os curtumes é invariavelmente customizado.

O técnico da indústria de insumos de acabamento é um elemento sempre presente dentro dos curtumes e interage de forma permanente com os técnicos desses estabelecimentos, aponta Juarez
 

Lacroix, da unidade de couros da empresa Killing, de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, com ramificações em Pacatuba-CE e Camaçari-BA.

Juntos, eles preparam pigmentos, lacas, resinas, vernizes, fillers, estuccos e solventes até atingir a formulação final definida de acordo com a necessidade do couro. Na opinião de Lacroix, a indústria de curtumes é uma indústria de tintas – preparadas de acordo com as exigências de acabamento quanto a aspecto e qualidade.

É uma operação que envolve muitos serviços e composições. Engloba ainda proteínas para conferir aparência brilhante e maciez. Começa pelo exame da gama de pigmentos. As lacas estão associadas às resistências finais. Estão divididas em nitrocelulose base solvente, para misturar com pigmentos brancos; lacas acetobutirato de celulose base solvente e lacas base água. As resinas poliuretânicas base água estão associadas a maiores resistência e qualidade.

Fernando C. Castro

Lacroix: o bom acabamento alia estética à qualidade

Há ainda resinas acrílicas igualmente base água que funcionam como resinas de impregnação. Essas últimas têm maior resistência à flexão. Com uso mais limitado, as resinas butadiênicas também encontram aplicabilidades. O técnico químico define a mistura para chegar à cor usando toda essa gama de produtos em diversas formulações. Entram ainda na composição: tíneres, auxiliares de acabamento, auxiliares catiônicos e pigmentos fluorescentes, catiônicos e base solvente.

Para Lacroix, couro bem terminado tem a combinação adequada da aparência e da estética com a qualidade e a durabilidade. Segundo ele, o mercado atual está atrás dos produtos com base água, pois geram mais segurança de processo e são muito mais compatíveis com os conceitos de produção mais limpa. Mesmo os solventes originários da petroquímica vêm com algum teor de água.

Fimec deverá atrair 50 mil visitantes

A 32ª Feira Internacional de Couros, Químicos, Componentes e Acessórios, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes (Fimec 2008), um dos eventos mais importantes do setor, deverá contar com aproximadamente 50 mil visitantes e mais de mil e duzentos expositores. O evento ocorre de 5 a 8 de abril na cidade gaúcha de Novo Hamburgo. A exemplo de anos anteriores, todos os espaços dos pavilhões da Fenac estão preenchidos.

“O momento é bastante positivo e desde o final do ano passado, em contato com empresários de vários estados e também do exterior, verificamos que existe uma grande expectativa com relação à Fimec. Esta feira é realmente muito especial, pois agrega tecnologia, lançamentos, novidades, transformando-se num grande palco para a realização de contatos e efetivação de negócios”, projeta Júlio Cezar Camerini, presidente do evento.

Ele informa que assim como no ano passado a visitação continuará a ocorrer na parte da tarde. No entanto, o espaço da Fimec permanecerá aberto durante a manhã exclusivamente para a realização de rodadas de negócios. “Assim, os expositores têm mais condições e mais tempo para demonstrar seus produtos e equipamentos”, antecipa Camerini.

Em 2007, empresários e profissionais especializados de 42 países passaram pela feira. A maior delegação estrangeira foi a da Argentina, seguida por Peru, Itália, Colômbia, China e Uruguai. “Há muito tempo os estrangeiros descobriram o caminho dos bons negócios aqui na Fimec. Por isso, nos preparamos de maneira especial para receber os expositores e visitantes de todas as nacionalidades, oferecendo uma estrutura que terá novidades que certamente agradarão a todos”, destaca Camerini.

Para o presidente da Fimec, o forte comparecimento de visitantes internacionais reflete a ampla divulgação que vem sendo feita nos últimos anos por meio do apoio das entidades de classe e de parcerias com as principais publicações do setor em feiras na Europa, Ásia e nas Américas.

 A Fimec é organizada pela Fenac S/A em conjunto com as seguintes entidades: Associação Brasileira de Estilistas de Calçados e Afins (Abeca); Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic) e a Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq).

Participam ainda: a Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (Aicsul); a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal); o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (Cicb); e o Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC). com apoio da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI-NH/CB/EV) e do Centro Universitário Feevale.

As projeções de estabilidade na economia nacional, o desenvolvimento de novas tecnologias, a criatividade da indústria brasileira para superar as questões cambiais e a abertura de novos mercados em nível mundial são alguns dos fatores que estão formando um clima positivo para a feira deste ano. “A Fimec chega à sua 32ª edição consolidando a posição de maior evento das Américas e entre as três maiores do mundo do setor, tanto pelo número de expositores quanto pela qualidade do público visitante”, finaliza Camerini.

Alguns produtos são naturais. O pigmento preto vem do óxido de ferro. O titânio é a matéria-prima do branco. As cores vivas estão vinculadas aos pigmentos vermelhos. As resinas poliuretânicas provêm da petroquímica. Os filmes também podem assumir a função de verniz.

A obtenção de matérias-primas ocorre em 50% no país e na mesma proporção por meio das importações. O petróleo é o grande indicador dos preços. Aos poucos, os produtos oriundos da alcoolquímica começam a ingressar na forma de monômeros, convertidos em polímeros com função de solventes.

Apesar dessa característica artesanal, o acabamento de couros conta com a mais alta tecnologia de ponta disponível na indústria química. Como revela Evandro Kich, gerente do Centro Nacional de Tecnologia do Couro, da Lanxess do Brasil, o termo pintura está relacionado à cobertura de uma parede ou um móvel. Já o acabamento, ensina Kich, é a etapa em que, além da coloração definitiva, são atribuídas outras qualidades como tato, brilho e propriedades físicas.

Kich resume a etapa de definição das cores do couro em três técnicas principais de aplicação: pistola, subdividida em aplicação convencional, HVLP (High Volume Low Pressure) e air less;  multiponto (rollercoater) e também máquina de cortina. “Ao contrário de uma superfície fixa e inflexível como uma parede ou um móvel, o couro será utilizado para os mais diversos fins, como calçados, bolsas e estofamentos, tanto automotivos quanto móveis e, portanto, deverá apresentar resistências físicas-mecânicas diferenciadas”, complementa o gerente da Lanxess.

Na visão do técnico, por conta da complexidade do artigo pretendido, a forma de acabamento tem um papel fundamental para manter as propriedades do substrato couro (neste caso, substrato é a superfície a ser pintada). Outra diferença básica reside nas diversas combinações de produtos, bem como, na quantidade de camadas aplicadas sobre o couro. Em termos de aplicação, pode-se dizer que o conceito dos processos da pintura convencional é parecido.

“Quando falamos em couro, o processo se dá em duas etapas diferentes, uma vez no recurtimento – por meio de corantes que tingem as fibras em toda a sua extensão – e outra vez no acabamento, onde somente a superfície do couro chamada de flor do couro é submetida ao processo que chamamos de acabamento”, assinala Kich.

Evandro Amaral, gerente da unidade de couros da Clariant em Novo Hamburgo, explica que quanto ao acabamento existem basicamente três tipos de couros: o couro anilina é um desses e geralmente utiliza proteínas, resinas acrílicas ou poliuretânicas, transparentes e com boas resistências. Podem ser acabados com spray ou rollercoater.

Neste caso, são acabamentos que protegem o couro superficialmente quanto à fricção, umidade e absorção de produtos ou manchas que podem descaracterizar o material quando ocorre a contaminação por óleo ou condimentos, migração de corantes de tecidos ou sujeira da água na chuva.

O acabamento anilina mantém a transparência e todas as propriedades visuais do couro, como poros, coloração, riscos cicatrizados e algumas marcas de parasitas. Já o acabamento semi-anilina utiliza, assim como os couros anilinas, resinas, auxiliares e lacas para dar resistência superficial ao couro. Porém, neste caso, é feita uma combinação de pigmentos e complexos-metálicos para disfarçar defeitos como marcas de parasitas. Os artigos em questão também são acabados com pistolas spray, rollercoater ou plush.

No acabamento pigmentado, empregam-se combinações de ligantes, que podem ter uma relação de dois, três, quatro ou cinco partes para uma parte de material amorfo ou carga, fillers, pigmentos, ceras, entre outros. Os pigmentados normalmente são couros de baixa classificação. Nesses casos, o objetivo do acabamento é esconder os defeitos e cobrir a superfície para maior aproveitamento de corte, o que não impede a existência de couros de boa classificação com altas concentrações de pigmentos, como explica Amaral. Um exemplo são os couros brancos para calçados esportivos com alta resistência às intempéries.

São muitas as formas de acabar couros e os efeitos possíveis são diversos, como as combinações de óleos e ceras com a incorporação de resinas, que produzem aparência de cera aos couros e são conhecidas como pullups, denominação típica do setor coureiro relacionada a uma superfície escura com coloração mais clara em uma superfície dobrada. “Ocorrem também couros acabados com pigmentos à base de mica para efeitos perolizados e não podemos esquecer dos couros tipo estofamento para automóveis e móveis, que têm uma crescente demanda”, observa Amaral.

Adriano Magalhães, gerente da unidade de químicos para couros da BASF, pontua que de maneira geral a aplicação de cores em couros é via pistola manual e que a mais usada é de fato o sistema rollercoater. Segundo ele, a moda influencia na forma como as tecnologias são definidas para promover as características estéticas dos couros. “O diferencial entre os pigmentos é que os inorgânicos possuem mais poder de cobertura”, analisa Magalhães.

Na visão do gerente da Basf, as grandes mudanças tecnológicas estão nas máquinas de aplicação, que desperdiçam cada vez menos produto e na área química, que oferece materiais com melhor performance quanto às exigências físico-químicas e ambientais. Ele sintetiza toda essa evolução na relação e no comprometimento da indústria de curtumes para atender às exigências ambientais como forma de produzir o desenvolvimento de produtos mais ecológicos, com baixo VOC (Compostos Orgânicos Voláteis).

Magalhães cita também uma redução no uso de pigmentos isentos de metais pesados como cádmio, chumbo e cromo livres de APEO’s (alquilfenol etoxilados), solventes em geral, niveladores, tensoativos, aminas, reticulantes, tops e lacas e produtos isentos de alquil-estanho em poliuretanos, TF (tin free – livre de estanho). “Obviamente, existem lançamentos específicos de produtos e processos de acabamento para acompanhar as tendências de moda, desempenho, custo e inovações tecnológicas”, ressalta.

Vilmar Trevisan, presidente da Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic) lembra que antigamente os acabamentos eram feitos em cores básicas: preto, branco, marrom, vermelho, azul e verde oliva. Eram couros pesados com resina acrílica e vernizes de base solvente. Hoje o abatedouro procura entregar a pele com o menor número de defeitos possíveis.

Além disso, a operação era engessada. Havia o curtume especializado somente em curtimento. Outro era responsável por processar os couros em taninos vegetais. E um terceiro, voltado para o acabamento. O desenvolvimento dos sintéticos obrigou a indústria a melhorar a qualidade e buscar novas possibilidades estéticas.

No Centro Tecnológico do Couro de Estância Velha, no Rio Grande do Sul, funciona uma das únicas escolas para a formação de químicos industriais e técnicos com foco em couros. Na parte de acabamento, os alunos contam com toda a gama de produtos químicos e equipamentos. Entre eles, uma sofisticada cabine de pintura com lavador de

Fernando C. Castro

Trevisan: abatedouro evita entregar peças com defeito

névoa para atender às normas 14001, uma cabine de absorção de umidade e um aplicador transfer, capaz de aplicar estampas coloridas na superfície da pele num processo semelhante ao off- set.

Há ainda uma máquina pigmentadora em que a tinta escorre em cascata sobre a superfície da pele. O acabamento de hoje permite qualquer cor e qualquer textura. Conforme Trevisan, o imponderável também acontece. Em certos casos um lote de 12 peles fica perfeito com uma determinada formulação e na 13ª operação ocorre um defeito. Porém, com a permanente modificação e melhora dos produtos, a indústria química consegue diminuir a incidência desses problemas.

Darlene Rodrigues, diretora do Centro Tecnológico do Couro de Estância Velha, salienta que a alta produção dos curtumes sempre ocorreu. No entanto, atualmente o processo acontece com mais

Fernando C. Castro

Alunos do centro tecnológico do couro de Estância Velha-RS

diversificação. “O foco hoje é o design. O processo é muito mais complexo porque os produtos ficaram melhores. A novidade tecnológica diminui o tempo e produz processos mais limpos”, argumenta a diretora.

O importante afirma Darlene é que a indústria de tintas para couro de maneira geral oferece uma completa gama de produtos para processar os mais variados artigos, sem impor limite à criatividade. O objetivo é alcançar acabamentos que demandem cores variadas e intensas, naturalidade e mais cobertura.

Na avaliação do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil, o país conta com um dos mais altos níveis de abate bovino no mundo, ao redor de 42 milhões contabilizados em 2007. Aproximadamente 50% deste total passa pelo processo de acabamento. O centro-sul e a Região Nordeste são os principais consumidores de materiais para acabamentos de couros.

Fernando Cibelli de Castro

 
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