Cuca Jorge


Vendas em alta, coladas
ao desempenho industrial
e da construção civil,
desencadeiam ondas de
investimentos e de
concentração empresarial


Domingos Zaparolli

O volume de notícias recentes de investimentos em ampliação de capacidades produtivas, aquisições e lançamentos de produtos é um ótimo termômetro para avaliar quanto o mercado brasileiro de adesivos e selantes está aquecido. Em um negócio global com reflexo direto no mercado brasileiro, a alemã Henkel anunciou o início do processo de aquisição dos negócios da norte-americana National Starch, que deverá ser concluído no segundo trimestre deste ano. Por sua vez, a indiana Pidilite, que nos últimos seis anos adquiriu sete empresas internacionais, incluiu a brasileira Pulvitec em seu portfólio.

Ao mesmo tempo, a brasileira Artecola lançou-se em um ambicioso projeto de internacionalização que resultou na compra de quatro empresas em 2007, no Chile, Peru, Argentina e México. E a direção da Artecola não planeja parar por aí, “novas aquisições podem ocorrer ainda em 2008”, informa o diretor da Unidade de Negócio Adesivos, José Luiz Haubrich. A compatriota Brascola inaugura em abril sua nova fábrica em Joinville-SC, peça central do plano de dobrar sua participação no mercado. A norte-americana Lord investiu R$ 1 milhão na ampliação da sua capacidade produtiva em Jundiaí, no interior paulista. Já os investimentos em novos produtos são inúmeros e pulverizados em boa parte da cadeia produtora.

O que motiva os investimentos é a alta demanda de adesivos e selantes apresentada pelo mercado brasileiro. Julio Kampff, presidente da Henkel e também coordenador da comissão de colas, adesivos e selantes da Abiquim, fez uma avaliação do mercado brasileiro em 2007 e suas tendências para 2008. Como os dados finais da Abiquim sobre o setor só estarão definitivamente compilados e avaliados em meados de abril, a análise foi feita sem precisar números. Segundo Kampff, “o mercado de adesivos e selantes apresentou uma forte expansão em 2007, acompanhando, principalmente, três dos setores que mais cresceram na economia brasileira: o automobilístico, o da construção e o da indústria da embalagem”. O aumento do poder aquisitivo da população brasileira e o crescimento das vendas de bens de consumo também impulsionaram o mercado de adesivos. Para 2008, o setor espera que a tendência de expansão continue. A indústria automobilística cresce a cada dia e atinge níveis históricos, incentivada pela forte oferta de crédito ao consumidor. Já a indústria da construção receberá um volume adicional de negócios por conta do Plano de Aceleração do Crescimento, do governo federal.

De fato, as perspectivas de negócios são boas nos segmentos apontados por Kampff. No setor automobilístico, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa que depois de uma expansão em 2007 de 13,9%, o setor projeta um crescimento de 17,5% em 2008. Já na construção civil, o aumento dos negócios foi de 7,9% no ano passado e a projeção do Sindicato

da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) para 2008 é de chegar a 10%.  No setor de embalagens, o desempenho não é assim tão vistoso, mas tem trajetória crescente. A expansão física da produção foi de 2,1% em 2007 e a previsão da Associação Brasileira de Embalagens é de um crescimento de 2,5% neste ano.

Kampff informa ainda que o desempenho do setor de adesivos e selantes poderia ter sido melhor, não fosse tão desfavorável a relação cambial. “Temos uma perda de competitividade internacional para as exportações, que vêm se acentuando. A contínua valorização do real perante as moedas dos países vizinhos, destino principal de nossas exportações, dificulta muitas vezes a manutenção dos contratos. Por outro lado, o real valorizado estimula as importações de vários países do mundo, que passam a apresentar preços competitivos. A indústria brasileira tem plena capacidade de atender o mercado nacional e, até mesmo, aumentar as exportações, mas a balança comercial, não somente da área de adesivos, como a da indústria química como um todo, apresenta déficit crescente”, comentou o executivo.

Cuca Jorge

Kampf: real forte desestimula o setor a manter exportações

É fácil comprovar as palavras de Kampff observando os dados do Ministério do Desenvolvimento, In­dústria e Comércio Exterior. Em 2007, alguns segmentos do setor de adesivos apresentaram um significativo aumento nas importações. Segundo o relatório do Ministério, a importação de colas e adesivos cianoacrilatos passou de 80.755 kg em 2006 para 173.104 kg em 2007. Já as importações de adesivos à base de borracha saltaram de 512.153 kg para 1.461.483 kg de um ano para o outro. Enquanto que os adesivos à base de plástico registraram uma importação total de 28.104.061 kg em 2007 – em 2006, 26.991.785 kg. No item colas de caseína, as importações passaram de 93.866 kg em 2006 para 171.401 kg no ano seguinte.

A agenda de Julio Kampff anda apertada nos últimos tempos. Ele é o executivo responsável pela condução do processo de aquisição dos negócios de materiais eletrônicos, adesivos e selantes da National Starch na América Latina. Na verdade, a transação completa envolve o controle da inglesa ICI (Imperial Chemical Industries), da qual a National Starch and Chemical Company é uma subsidiária. A transação envolve ainda uma terceira empresa, a Akzo Nobel, que ficará, se o acordo for concretizado, com as demais atividades da ICI. O valor total do negócio é estimado em 4 bilhões de euros e a previsão é de que seja concluído, favoravelmente ou não, em abril.

Caso venha a ser confirmado, o negócio vai consolidar ainda mais a posição da Henkel como maior player mundial em adesivos e selantes. Segundo a nota oficial da empresa, o negócio proporcionará um aumento nas vendas de Tecnologia de Adesivos de aproximadamente 7,3 bilhões de euros, cerca da metade das vendas totais da Henkel. Ainda segundo o texto divulgado, os negócios adquiridos complementarão o portfólio atual da companhia, principalmente em adesivos para aplicações médicas, soluções sensíveis à pressão e aplicações industriais. “A National Starch detém posições fortes em não-tecidos e calçados atléticos. Em materiais eletrônicos, compostos por adesivos para a indústria de eletrônicos e semicondutores, os negócios combinados permitiriam à Henkel atender diferentes nichos de mercado com eficácia. A aquisição permitiria ainda que a Henkel fortalecesse significativamente seus negócios na Ásia e em alguns países da região, tais como o Japão. A transação aumentaria também a presença da Henkel em mercados de crescimento rápido tais como Europa Oriental e América Latina”, confirma a nota.

No Brasil, a National Starch possui uma unidade industrial em Trombudo Central-SC, onde produz adesivos sintéticos e naturais, e uma outra em regime de parceria em Jundiaí-SP. Os seus principais segmentos de atuação no país são os setores de papel e celulose, alimentos e têxtil. Para a Henkel brasileira, será a segunda incorporação importante nos últimos meses, uma vez que em 2006 a empresa já havia adquirido os negócios da Alba Adesivos, cujos principais produtos se concentravam nas linhas de colas de contato, selantes de silicone, adesivos de acetato de polivinil e adesivos epóxi.

Em 2007, a unidade brasileira da Henkel, informa Kampff, apresentou uma expansão em suas vendas de 20%, que atingiram aproximadamente R$ 600 milhões. No ano, a empresa fez alguns lançamentos importantes para a ampliação de seu portfólio. Um destaque foi o Sista Flextec FT 101, que a empresa informa ser o primeiro selante multifuncional do mercado brasileiro voltado para o setor da construção civil. O produto sela, une e fixa diversos tipos de materiais e é impermeável, resistente à chuva, raios ultravioleta e variação de temperatura. Outro lançamento, desta vez voltado para a indústria moveleira e para o artesanato, foi a linha Cascorez de adesivos à base de acetado de polivinila (PVA), que tem como característica a forte adesão e secagem rápida. Para 2008, Kampff prevê que o cenário continuará positivo para a Henkel, independentemente do resultado da nova incorporação. “Vai ser mais um ano de crescimento”, diz o executivo.

Nova unidade – A direção da Brascola também demonstra confiança em um bom desempenho no ano. Rodrigo Fonseca Andrade, gerente de vendas do segmento varejo, informa que a empresa, em 2007, registrou um faturamento de R$ 110 milhões, crescimento de 21% em relação ao ano anterior e uma expansão em volume comercializado de 27%. Para 2008, a expectativa é de crescer novamente na casa dos 20% e manter o ritmo nos próximos anos.

Andrade relata que, em 2005, a cinqüentenária Brascola iniciou um processo de reestruturação e adotou um planejamento estratégico com a meta de dobrar de tamanho e de valor de mercado em cinco anos. “Adotamos o lema de Juscelino, fazer cinqüenta anos em cinco. Mas agora acreditamos que vamos dobrar de tamanho em quatro anos”, afirma o executivo.

A principal peça desta estratégia está programada para iniciar suas operações em abril deste ano, quando inaugurará uma unidade industrial em Joinville-SC. A nova fábrica, que ocupa uma área de 7 mil m², recebeu investimentos de R$ 30 milhões e terá o poder de triplicar a capacidade de produção da Brascola. “É uma planta quase toda automatizada, a mais moderna fábrica de adesivos do Brasil. Ela terá condições de realizar em um turno o que na unidade de São Bernardo fazemos em três turnos”, disse o executivo. A fábrica de São Bernardo, na Grande São Paulo, será desativada no decorrer de 2008 e o espaço deverá ser destinado a um condomínio industrial.

Paralelamente, a Brascola está ampliando sua presença nacional, aumentando de 100 para 150 representantes comerciais em todo o país até o final do ano, passando a atender melhor as regiões Norte e Nordeste, onde o crescimento da demanda é marcante. A estratégia da Brascola se completa com a ampliação do mix de produtos. Andrade informa que acentuar a inovação na empresa é a função do novo Centro de Pesquisas, instalado na nova unidade de Joinville. Segundo o executivo, a Brascola conta com 300 itens em seu portfólio. Em 2007, foram lançados mais de 30 produtos, fato que deve ser repetido neste ano.

A Brascola já possui uma atuação bastante diversificada, atuando no varejo e também na indústria, com tradição nos segmentos calçadista, moveleiro, automobilístico e na construção civil, onde sua linha Araldite é uma das líderes do mercado. Entre as novas apostas da empresa estão os setores náutico e de artesanato. Soluções que promovam a ecoeficiência também estão no foco de P&D da empresa. Neste sentido, um ponto importante foi o lançamento da linha de adesivos para o setor calçadista Ecopren, composto de poliuretano disperso em água, sem resíduos tóxicos. Na Brascola, esse produto é considerado como o principal responsável pela empresa ter aumentado em 56% suas vendas para o segmento calçadista.

Mas a grande expectativa da empresa reside no mercado de embalagens, um dos segmentos de maior consumo de adesivos, no qual a participação da Brascola ainda é incipiente. Nesse mercado, predomina o hot melt. Para se tornar mais competitiva, a Brascola, que até 2006 não dispunha dessa tecnologia em seu catálogo, desenvolveu uma linha de produtos hot melt. “Somos iniciantes neste segmento de mercado e a linha hot melt, nesse primeiro ano de aprendizagem, respondeu por apenas 1% de nosso faturamento. Mas nossa expectativa é de que, em médio prazo, essa linha venha a responder por 20% de nossas vendas”, informa Andrade. O principal destaque da linha hot melt da Brascola é o Brascomelt XB15, voltado para embalagens de produtos alimentícios que necessitam de resistência a baixas temperaturas.

Nos planos da Brascola para 2008, informa Rodrigo Andrade, está o desenvolvimento de uma estratégia para aumentar sua participação no mercado internacional. O foco são os países do Mercosul. Atualmente, a empresa pouco exporta, atendendo clientes na Argentina e no Chile. Para alcançar esse objetivo, a Brascola pretende participar de feiras e eventos no exterior e também montar escritórios de representação nos países vizinhos. “A meta é alcançar 4% de nosso faturamento com exportações já em 2008”, diz o executivo.

 

 

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