|
|

Cuca
Jorge |
Regulamentação endurece os cuidados com
o transporte
de linhas base solvente
Marcelo Fairbanks |
Depois de alguns anos
de inquietação, entrou em vigor a regulamentação oficial para o transporte
terrestre de produtos perigosos. O setor de tintas e vernizes, apontado como
um dos principais alvos, por causa do alto volume movimentado anualmente,
acabou passando quase incólume pela saraivada de resoluções e portarias. Os
efeitos serão sentidos nos produtos vendidos às indústrias e nas linhas de
base solvente. A venda de solventes, tíneres e diluentes em geral exigirá
adaptações mais severas, que também se refletirão no mercado de adesivos
(base solvente).
Diferente dos modais aéreo e marítimo, que contavam com regulamentação há
mais tempo, o transporte terrestre de produtos químicos merecia alguma
atenção, em especial para atender às recomendações da Organização das Nações
Unidas (ONU), constantes do famoso Orange Book. Com essa mentalidade, foi
publicada em 12 de fevereiro de 2004 a Resolução nº 420 da Agência Nacional
de Transportes Terrestres (ANTT), revisada pela Resolução nº 701
(25/08/2004) e atualizada pela Res. nº 1.644 (26/09/2006).
Esse arsenal legislativo, após algumas postergações, fixou em 25 de janeiro
de 2008 a data limite para a venda de embalagens novas não certificadas para
produtos enquadrados como perigosos. Foi concedido um prazo de seis meses
para que os fabricantes de tintas, adesivos ou solventes possam consumir as
embalagens adquiridas até a data limite e mantidas em seu estoque. Dessa
forma, a fiscalização nas estradas levantará a situação de cada produto e
embalagem, aplicando as sanções adequadas ao descumprimento das normas. As
últimas dúvidas terminológicas foram esclarecidas pela Portaria nº 8 do
Inmetro (11/01/2008).
A versão inicial dos regulamentos dava margem a uma interpretação rigorosa
dos produtos e embalagens. Ou seja, quase todos os produtos químicos e seus
derivados seriam enquadrados como perigosos e seria preciso modificar
radicalmente seus contenedores. A reação do setor de tintas foi rápida e
eficaz.
“Comparecemos às reuniões convocadas pela ANTT e Inmetro, nas quais
verificamos que esses órgãos sempre estiveram abertos a discutir aspectos
técnicos e a negociar pleitos para manter viável o setor”, comentou Roberto
Ferraioulo, presidente do Sindicato da Indústria de Tintas e Vernizes do
Estado de São Paulo (Sitivesp). Contando com o apoio da consultoria Concepta
D.G. Compliance, detentora do primeiro laboratório de ensaios de embalagens
de produtos perigosos acreditado no Brasil, conseguiu reunir todos os
segmentos interessados na questão: os fabricantes de embalagens metálicas
(representados pelo Sindicato Nacional de Estamparia de Metais), produtores
de tintas e até a indústria coureiro-calçadista (por meio da Assintecal),
grande consumidora de adesivos. Coube ao grupo avaliar tecnicamente todos os
aspectos envolvidos e discutir com os órgãos oficiais a aplicação das
normas.
O primeiro passo foi realizar um levantamento estatístico dos acidentes
durante o transporte de tintas e vernizes, além da caracterização das
principais linhas de produção e suas embalagens típicas. “Com base nesses
estudos, comprovamos que o histórico do setor era favorável e que a maior
parte da produção não representava riscos nem ao ambiente, nem à população”,
afirmou Ferraioulo. A argumentação se apoiou no fato de as tintas de base
aquosa não conterem solventes derivados de petróleo, não sendo inflamáveis,
nem explosivas em caso de incêndio do veículo de transporte.
A regulamentação da ONU, porém, não deixa claros quais os produtos perigosos
e os inofensivos. “Uma interpretação restritiva, feita com base no potencial
de dano quando uma grande quantidade de um produto é derramada em um corpo
de água, não permitiria isso, mas, nesse caso, até o transporte de leite
seria considerado perigoso”, comentou Sérgio Couto, diretor da Concepta e
especialista em embalagens. “Atualmente, a própria ONU recomenda diferenciar
os produtos mais agressivos dos menos perigosos.”
O especialista explicou que a regulamentação leva em consideração o grau de
periculosidade do item embalado para determinar o volume máximo que pode ser
transportado por um veículo de carga ou por embalagem interna. Esses limites
são listados na coluna 8 da relação de produtos perigosos da Resolução nº
420. Por exemplo: um veículo carregado com tintas classificadas no grupo 2
só poderá transportar o máximo de 333 kg, independentemente do tamanho de
cada embalagem simples adotada (e todas elas devem ser certificadas). Porém,
o mesmo produto poderá ser transportado em latas não certificadas, desde que
elas não tenham capacidade isolada para mais de cinco litros e estejam
acondicionadas dentro de outra embalagem (uma caixa de papelão, por
exemplo).
|
As tintas de base aquosa, que representam 83% das vendas de tintas
para a construção civil, segmento que absorve 65% do volume total de
tintas no mercado brasileiro, não são consideradas produtos perigosos
e, por isso, não se sujeitam a esses limites, dispensando embalagens
certificadas. Mesmo as tintas de base solvente podem dispensar a
certificação de embalagens, desde que sejam transportadas em unidades
de menos de cinco litros (um galão tem 3,6 litros) e recebam uma
embalagem adicional. Couto salienta que o uso de paletes e
recobrimento com filmes encolhíveis não caracteriza uma embalagem
combinada, mas é classificada como unitizada ou “sobreembalagem”,
sendo também aceita pela resolução. |
Cuca Jorge
 |
|
Couto: certificação não é exigida para latas de até 5 L |
Toda a movimentação dos elos da cadeia produtiva visou a evitar um grave
dano ao mercado de tintas e vernizes. “A maior parte da produção é
commoditizada, com preços baixos, e a adoção de uma embalagem duas vezes
mais cara teria impacto nas vendas”, considerou Ferraioulo. Ele também
explicou que os fabricantes de latas também seriam incapazes de atender à
demanda por embalagens certificadas no prazo desejado pelos órgãos oficiais,
levando o setor ao colapso. “Trocar de embalagem não é fácil como trocar de
camisa. Muitas adaptações e investimentos precisam ser feitos até mesmo na
indústria de tintas”, disse. Ele avalia o preço de uma lata de 18 litros
certificada em torno de R$ 10 a R$ 12 por unidade, ou seja, entre 50% e 100%
acima das convencionais. Para tintas premium, com preço de mercado entre R$
150 e R$ 200 por lata, essa variação é pouco importante. Mas para artigos
como tintas de baixo custo, diluentes e tíneres, o acréscimo de custo é
crítico. Ele salientou o esforço da Metalgráfica Renner para projetar uma
lata certificável e, depois, licenciar duas produtoras paulistas para que
pudessem confeccioná-la.
Couto salienta que a certificação já provocou mudanças no mercado brasileiro
de embalagens. A começar pelos produtos de uso industrial. “Nessas linhas,
mesmo nas tintas, a migração para recipientes certificados está sendo feita
rapidamente”, verificou. Uma vantagem: os tambores de boca larga com cinta
metálica certificados dispensaram as folhas plásticas internas e
apresentaram vantagens econômicas para aposentar os velhos baldes tipo
aranha.
No mercado global de embalagens, a evolução pode ser medida pelos resultados
dos ensaios de resistência conduzidos pela Concepta. “Em 2005, entre 70% e
75% das embalagens que testamos foram reprovadas por falhas diversas, mas
atualmente o índice de reprovação fica por volta de 30% a 35%, o que
evidencia um aumento sensível de qualidade”, afirmou Couto.
O especialista entende que a aprovação de embalagens não ficará restrita aos
regulamentos atuais. Ela aponta novas pressões para o aumento da qualidade
oriundas de normas internacionais, como o Reach/GHS, e posturas setoriais
como Responsible Care e Coatings Care. “A pressão é constante e vai aumentar
no mundo todo”, disse.
Opções disponíveis – Da parte dos fabricantes de embalagens metálicas,
não haveria maior problema em atender aos requisitos impostos pela ANTT. As
duas maiores fornecedoras do setor de tintas, a Prada e a Brasilata,
oferecem mais de uma alternativa para os interessados. A tradicional
Companhia Metalgraphica Paulista (CMP) também desenvolveu uma lata reforçada
de 18 litros em condições de certificação. Todas, porém, precisam receber
encomendas firmes dessas embalagens para montar linhas de produção em alta
escala, mediante pesados investimentos, com o objetivo de fabricá-las com um
custo razoável.
|
|