REÚSO DE ÁGUA  

As próximas – O montante considerável de investimentos no plano de reúso da Petrobras cria um clima de expectativa nas empresas com relação às concorrências que estão por vir. A próxima deve ser a da Lubnor, em Fortaleza-CE, seguida pela da Refinaria de Araucária (Repar), no Paraná, cujo edital tem sido atrasado desde o final do ano passado mas que promete sair ainda em março de 2008, pela Refinaria do Nordeste (Renest), nova refinaria em sociedade com a venezuelana PDVSA, e pelo Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Todas são previstas para terem suas concorrências lançadas ainda em 2008.

No Comperj, o projeto prevê o reúso de até 2.390 m3/h, mas não está sob controle da engenharia da Petrobras e sim sob encargo de uma empresa de engenharia norte-americana. Já na Renest, este sim sob controle da estatal, visa reusar 600 m3/h. Embora os detalhes das obras ainda não licitadas não possam ser totalmente explicitadas, algumas informações sobre a Renest são reveladas pelo consultor sênior da Petrobras, Carlos Alberto Kayano. Conforme ele, o projeto na Renest será mais completo do que o da Revap, ou seja, de reúso total. Isso porque todo o efluente da ETDI voltará para o sistema e não será descartado como o da refinaria paulista.

Também empregando MBR, com pré-tratamento para remoção de óleos com flotadores API, carvão ativado e filtro de casca de nozes, a estação de tratamento de efluentes alimentará a ETA, que contará com eletrodiálise reversa (EDR) e polimento com troca iônica para remoção de sílica. A escolha pelo EDR, embora se trate de um processo de desmineralização menos eficiente do que a osmose reversa, por remover apenas 50% dos sais (contra 70% da osmose), se explica em virtude da robustez do processo. A tecnologia EDR não demanda pré-tratamento muito rigoroso, o que é útil quando se utiliza efluente pelo

Eletrodiálise reversa oferece desmineralização mais robusta

MBR e quando não se tem ultrafiltração antes. Com o polimento misto de resina de troca iônica, a remoção de sais se torna suficiente para alimentar de água desmineralizada as caldeiras. Além disso, o EDR também tratará a purga das torres de resfriamento.

Outro grande projeto previsto para este ano, na Repar, também se baseará em MBR de 300 m3/h para a ETDI, além de pré-tratamento para remoção de óleos e graxas, como o filtro de casca de nozes. Mesmo sem a mesma dimensão de reúso da Renest, na refinaria paranaense será também utilizada na ETA eletrodiálise reversa e polimento misto, com o mesmo propósito, ou seja, produzir água para alimentar as caldeiras, o uso mais nobre da refinaria. De acordo com Vânia Santiago, a opção pelos EDRs nesses casos veio depois das primeiras pesquisas do Cenpes que avaliaram as tecnologias para o reúso. De início, a definição geral era empregar a eletrodiálise quando o objetivo principal fosse reusar o efluente para torres de resfriamento, mais tolerante com sais. Mas a sua robustez, que permite operações com mais sólidos e principalmente com o cloro, ao contrário da osmose reversa, foi determinante para a mudança de paradigma.

Também será objeto de concorrência de reúso, mas em um nível de emprego de tecnologia um pouco inferior, a Refinaria de Duque de Caxias-RJ, a Reduc. Nela, segundo explicou Vânia Santiago, será feito de forma inédita o primeiro reúso de águas segregadas não-oleosas. Isso foi possível graças ao pioneirismo da Reduc de separar no passado as correntes de efluentes oleosos das de águas contaminadas, com um filtro API para cada, contrariando uma prática entre as refinarias de misturar todos os despejos em uma só bacia. No projeto, um tratamento primário preparará a água para outros fins que não o descarte.

De forma geral, a Petrobras considera como principal objetivo de sua entrada firme na seara do reúso a diminuição de suas outorgas, muitas delas sérios limitantes de suas expansões e modernizações. Aproveitando melhor, menos água precisará ser retirada dos rios a jusante das refinarias. E há ainda outro fato importante: a lenta entrada em vigor dos planos de cobrança pelo uso da água captada e descartada em corpos d´água significará mais custos futuros. Apesar de o fator economia não ser assim tão crucial para uma petroleira, com barril de petróleo a US$ 100, não custa nada se prevenir.

O cenário, porém, ainda não parece ser suficiente para radicalizar a consciência ambiental da companhia ao ponto do descarte zero. Esse estágio, que não acontece nem mesmo quando o reúso é total, porque os rejeitos salinos mesmo quando reciclados con­tinuam a ser gerados mais concentrados, só aconteceria com o emprego de tecnologias ainda mais caras, com destaque a evaporação-cristalização. Apesar de ser estudada no Cenpes, segundo revelou Vânia Santiago, e empregada em países como o México, onde a Pemex considerou viável a aplicação, no Brasil este ainda não parece ser o caso. Mas expandir os projetos de reúso para todas as refinarias, e de quebra alastrar o conceito para toda a indústria nacional, já seria um ótimo papel a ser desempenhado pela Petrobras em prol do desenvolvimento sustentável no país.

Concorrências estimulam parcerias e consórcios

A tendência de formação de consórcios entre empresas de engenharia e sistemas, antes ou depois das concorrências, como ocorreu na Revap, deve ser uma constante nos projetos de reúso da Petrobras. Segundo alguns competidores, a própria companhia incentiva as parcerias. Mas mesmo se não fosse essa a posição informal da empresa, muito provavelmente seria uma conseqüência natural, ao se levar em conta a estrutura atual do mercado de empresas de engenharia especializada em água. Com condições para os fornecimentos, são poucos os grupos instalados no Brasil. Não passam de uma dezena: os principais são as nacionais Enfil e Aquamec e estrangeiros com subsidiária local como Degrémont, Veolia, Centroprojekt e Siemens.

Além disso, com o boom recente na área do petróleo, e a recuperação geral do setor industrial e do saneamento, essas empresas foram pegas de surpresa, depois de alguns anos em baixa. Precisaram de uma hora para outra aumentar suas estruturas, contratando pessoal qualificado com certa dificuldade, tendo em vista que os poucos profissionais disponíveis foram duramente disputados entre elas. Juntar forças nessa fase, portanto, parece ser uma saída racional.

Participantes diretas das concorrências em alguns casos e como supridoras de empreiteiras que lideram os pacotes em outras disputas, as corporações conseguem assim se preparar para fornecimentos complexos – dependentes de mão-de-obra farta e especializada e tecnologias específicas. Essa característica faz concorrentes se unirem para participarem mais capacitados dos fornecimentos, tanto no aspecto tecnológico como no estrutural-financeiro. Caso da Enfil com a Degrémont, por exemplo, na Revap. Nas novas concorrências, basta saber quem se unirá a quem, o que mais provavelmente deve ocorrer com mais freqüência depois de revelados os vencedores.

Nas próximas licitações, a Siemens Water Technologies pretende a princípio participar de forma independente. De acordo com o gerente de vendas Antonio Carlos Palma, mais do que apenas ficar como supridora das empresas de engenharia, como fez até agora, a intenção é aproveitar sua extensa carteira de tecnologias oriunda de empresas que o grupo adquiriu nos últimos anos, com destaque para a americana US Filter e, mais recentemente, a italiana Sernagiotto, especializada em sistemas de desidratação e secagem de lodo, e a chinesa CNC, fornecedora de sistemas integrados de dessalinização.

“Temos produtos e tecnologias para atender a qualquer demanda de água e de tratamento de lodo”, afirmou Palma. No caso do reúso da Petrobras, aliás, o gerente comenta sobre o PetroMBR, um biorreator a membranas específico para refinarias de petróleo e petroquímicas. O equipamento, segundo ele, foi concebido para atender às necessidades operacionais dessas indústrias. Tem a vantagem de ter um sistema de duas fases de distribuição a jato que controla o fluido, os sólidos e o ar dentro

Cuca Jorge

Palma: Siemens quer participar sozinha das concorrências

das membranas de fibra oca e dos módulos. Isso permite maior controle da operação, estendendo a vida útil dos espaguetes. Para Palma, por também fornecer os sistemas de pré-tratamento do MBR para a remoção de óleos e sólidos suspensos, a engenharia da Siemens poderia preparar um projeto mais seguro e eficiente. “Dominamos todas as fases do processo, não apenas o MBR em si”, disse.

Outro grupo na expectativa de fechar negócios com a petroleira é a Aquamec. Aliás, um já foi fechado, com a Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim-MG. Neste caso, em fase final de projeto, a empresa fornecerá uma ETA convencional para tratar purga de decantadores e água de lavagem de filtros, com sistema de equalização, decantação, desinfecção, adensamento e desidratação de lodos. “Neste caso, a Petrobras preferiu não usar membranas ou outras tecnologias mais avançadas”, explicou o diretor técnico da Aquamec, Rubens Francisco Jr.

Uma vantagem para a empresa, segundo Rubens, é possuir fábrica própria, em Itu-SP, para produzir os equipamentos. “Isso dá maior agilidade e controle sobre as necessidades do fornecimento”, comentou. Além, é claro, de poder fazer com que a empresa atenda pedidos também das outras fornecedoras, caso que ocorre no momento com a Siemens na elaboração do filtro de casca de nozes

Cuca Jorge

Rubens forneceu ETA convencional na Regap

da Revap. Também com a empresa alemã, a propósito, a Aquamec tem proposta de fornecimento para empreiteiras presentes na concorrência no Cenpes 2.

 

 

<<< Anterior

Próxima >>>