REÚSO DE ÁGUA  

A etapa sob responsabilidade da Enfil na ETA é a do sistema de recuperação do condensado da geração de vapor. “É o reúso do reúso”, ressaltou Mauro Toscano. Trata-se de tecnologia da norte-americana Graver Water Systems, que consiste em filtragem especial com composto de pré-capa (fibras) de celulose, carvão ativado e resinas de troca iônica, cujo filtrado segue para o polimento misto de resina de troca iônica do sistema. Projetado para recuperar previstos 280 m3/h de condensado, o sistema vai permitir o máximo de recuperação, visto conseguir reter 90% de traços de óleo (até 10 ppm) e de sólidos suspensos do condensado, contra apenas 75% dos sistemas convencionais. “Este equipamento fecha um ciclo de reúso radical, pois até a purga do clarificador volta para o início do processo”, disse Toscano.

A obra do consórcio Enfil-Degré­mont está com partida prevista para abril de 2009, com comissionamento em março. Seu início de operação está atrelado ao start-up da nova ETDI e da instalação do sistema terciário na antiga estação. Na nova, 300 m3/h de efluentes da refinaria, inicialmente descartados no rio, serão recuperados com uma seqüência de tratamento avançada, que incluirá no pré-tratamento um separador API para remoção de óleos e sólidos, seguido por flotador de ar dissolvido e, por fim, um filtro de casca de nozes fornecido pela Siemens Water Technologies, que removerá sólidos e óleos residuais. Depois dessa etapa, o efluente seguirá por gravidade ao MBR fornecido pela GE Zenon.

O filtro de casca de nozes, explicou o gerente de vendas da Siemens, Antonio Carlos Palma, é um leito flutuante que aglutina o óleo na superfície. As nozes absorvem os traços de óleo e, quando saturadas, aumenta-se a velocidade do efluente tratado para retorná-lo ao API. O projeto foi encomendado para fabricação na Aquamec e contará com três vasos pressurizados, para permitir operação ininterrupta quando há a necessidade de limpeza das cascas. A previsão de entrega do sistema, que conta com nozes pré-tratadas, é no terceiro quadrimestre deste ano.

RECAP AUMENTA RECEITA COM REÚSO

O reúso na Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá-SP, previsto para entrar em operação em abril de 2008, vai permitir que os descartes no Rio Tamanduateí sejam “zerados”. Além disso, com a implantação da decantação lamelar como complemento ao sistema de lodos ativados da refinaria, além de passar a utilizar a capacidade ociosa da ETDI, a Recap aumentará sua receita em R$ 2 milhões com a venda adicional de água para o pólo petroquímico (a refinaria é a fornecedora de água tratada do Tamanduateí para as empresas).

Faz parte do projeto a ETDI passar a receber mais 130 m3/h da represa 1, que será somada aos 50 m3/h gerados no processo, totalizando 180 m3/h. Depois do tratamento biológico, esse efluente seguirá para a caixa elevatória, de onde será recalcado para o tanque de coagulação, para mistura em baixa rotação e dosagem de coagulante. Por gravidade, a próxima etapa será a câmara de floculação, para adição de polieletrólitos auxiliares de floculação.

Após isso, a água chega na decantação lamelar, onde o lodo se separa por sedimentação e é encaminhado, por raspador de fundo, para um compartimento. Um percentual desse lodo retorna para o tanque de coagulação, para funcionar como incremento no processo, e o excesso é enviado para centrifugação e secagem.

Por fim, o efluente tratado vai para a saída da ETA II, para complementar a água produzida, propiciando o reúso de 700 milhões de litros por ano do efluente da refinaria e o tratamento total de 1 bilhão de litros por ano da água do Rio Tamanduateí para a Recap e as demais empresas do pólo.

Esta obra, porém, não impediu que o pólo petroquímico, formado pela Petroquímica União (PqU) consorciada com dez empresas, anunciasse recentemente o fechamento de acordo com a Sabesp para dar partida ao protelado projeto Aquapolo Ambiental, que visa usar água de reúso da companhia de saneamento para suportar o aumento de consumo de água proveniente da expansão programada do pólo.

Com investimento de R$ 130 milhões, o Aquapolo contempla a construção de estação elevatória e unidade de nitrificação para remoção de amônia na ETE ABC com capacidade de 600 l/s e infra-estrutura para chegar a 1.000 l/s. Envolve ainda a interligação da estação ao pólo por meio de duto de aço carbono com 16,5 km de extensão, com capacidade de transporte de até 1.000 l/s.

Em princípio, a água de reúso, fornecida apenas com tratamento primário e com a remoção de amônia, chegará para preparação na Recap, onde as ETAs serão ampliadas e modernizadas, com a colocação de filtros de areia adicionais para remoção de sólidos suspensos. Daí seguiria parte para consumo próprio e parte para a PqU, responsável pelo grosso do consumo e a qual realiza o polimento final da água, como aliás faz na atualidade.

Até aí tudo bem, com o novo projeto a PqU ganharia confiança para manter sua expansão (de 467 mil t/ano para 700 mil t/ano de eteno a partir de 2008) com água suficiente. Ocorre que a Petrobras ainda não se decidiu oficialmente em participar do Aquapolo Ambiental, o que, na visão de Rubens Aprobato Machado, superintendente da PqU, não será impeditivo para o projeto. “Com a Petrobras ou não, o Aquapolo saiu do papel”, afirmou Aprobato no lançamento do projeto em janeiro último.


Maior MBR do Brasil –
Embora o filtro de casca de nozes tenha sido uma tecnologia também estudada pelo Cenpes, centro de pesquisa da Petrobras, para adoção no seu plano de reúso, e seja uma forma inovadora e relativamente simples de remover traços de óleo na água, o coração do sistema será o MBR
encomendado a GE Zenon. Aliás, quando instalado, passará a ser o maior equipamento com essa tecnologia no Brasil. Com sua vazão de 300 m3/hora, será pelo menos dez vezes maior do que os existentes no Brasil, como os do parque Hopi Hari ou o da Natura.

De acordo com o responsável pelo fornecimento, Eduardo Pacheco, da GE Water and Process Technologies, a Petrobras já possui unidades de ultrafiltração Zenon de grande porte instaladas em outras refinarias, como pré-tratamento de osmose reversa, além da Revap, na Reduc (600 m3/h) e na Replan (300 m3/h). Essa experiência, segundo ele, criou uma


Cuca Jorge

Pacheco forneceu o maior MBR do Brasil para a Revap

espécie de simpatia da estatal com a tecnologia das membranas de fibra oca com fluxo de fora para dentro. Em MBR, como o princípio é o mesmo, com exceçãode incluir o tratamento biológico e ser um sistema mais robusto, a tendência pode ser a de que a estréia da tecnologia na Revap sirva de modelo para instalações futuras, prevê Pacheco.

As diferenças nas tecnologias de MBR das diversas empresas fornecedoras, porém, são vistas com preocupação pelos técnicos da Petrobras. De acordo com Vânia Santiago, do Cenpes, isso engessa um pouco os clientes, porque ao comprar um sistema de uma determinada empresa, nas futuras reposições de membranas há a necessidade de se recorrer ao mesmo fornecedor. Isso em virtude de as membranas tipo fibra oca serem diferentes entre si e completamente diversas das de placas planas. Nesse sentido, aliás, Vânia viu com bons olhos a recente iniciativa da Koch Membranes de ter criado módulos de membranas de fibra oca que podem substituir os da Zenon. “Acho que este precisa ser o futuro da tecnologia, para dar

Divulgação/Koch

Membranas de fibra oca para MBR: uso se expandirá na Petrobrás

mais flexibilidade e baixar os custos de reposição”, comentou. Em casos como o da Petrobras, então, que compra por concorrência pública, essa flexibilidade seria ainda mais interessante.

Na especificação técnica da Petro­bras para o reator biológico MBR da Revap consta que as membranas poderão ser do tipo hollow fiber (tecnologia da Zenon, Siemens, Koch) ou planas (Kubota, Keppel Seghers). Mas precisarão ser com fluxo na direção de fora para dentro, o que limita um pouco os fornecedores, tendo em vista alguns fabricantes usarem sistemas pressurizados com fluxo de dentro para fora. Apesar de os escolhidos terem sido sistemas da GE Zenon, nada impede, porém, que outras tecnologias também não ganhem as concorrências futuras, caso as propostas gerais sejam as mais convincentes também em preço. Não foi por outro motivo, aliás, que a Centroprojekt ganhou a concorrência do Cenpes, onde será empregada a tecnologia de membranas de placas planas da Kubota.

O efluente da Revap será principalmente de purgas das torres de resfriamento e água de chuva coletadas de áreas contaminadas, com possível presença de óleo, e proveniente de águas oleosas salinas, da drenagem de fundo dos tanques de óleo cru misturada com salmoura drenada nas dessalgadoras de petróleo. Ele entrará no MBR com DBO de 230 mg/l, DQO total de 850 mg/l, nível de amônia de 80 mg/l, nitrogênio total de 90 mg/l e óleos e graxas < 5 mg/l (< 2 mg/l em operação normal). E deverá sair, respectivamente, com DBO total menor que 5 mg/l, DQO total de 60 mg/l, amônia menor que 1 mg/l, nitrogênio total inferior a 20 mg/l e óleos e graxas abaixo de 1 mg/l. Foram definidas como vazão do sistema o mínimo de 150 m3/h e o máximo, de 300 m3/h. Todas as demais especificações, como a quantidade de sólidos suspensos no biorreator, os volumes das zonas anóxicas e aeróbicas e taxas de remoção dos contaminantes por hora, foram publicadas no edital de concorrência.

 

 

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