Nos primeiros leilões, ainda em 2007, o litro do biodiesel foi acertado em R$ 1,85. Já nos leilões realizados no início de 2008, esse valor chegou a R$ 2,11. A essa altura, os preços internacionais do óleo de soja já estavam em alta, superando os R$ 2,25. Valor ao qual os fornecedores de biodiesel ainda precisavam somar 10% referentes a custos de industrialização e da logística da operação. “É uma conta que não fecha”, diz Aboissa. Uma alternativa seria o sebo animal, cotado a R$ 1,80 o litro, e o óleo de algodão, que apresenta um custo de R$ 1,60 o litro. Mas a oferta do insumo é insuficiente e não foi estimulada.

Em conseqüência da inviabilidade financeira da operação de produção do biodiesel, alguns analistas começaram a duvidar da disponibilidade do produto no mercado para atender à demanda criada para 2008. O fantasma do “apagão do biodiesel” passou a rondar o setor. Mas o desabastecimento pode não se tornar público. “Não há produto no mercado e não há uma verificação se o biodiesel está realmente sendo incorporado ao diesel na proporção alegada pelo governo”, diz um analista. “O provável é que em 2008 tenhamos uma mistura B1, 1% apenas de biodiesel”, completa.

De fato, segundo vários jornais noticiaram, em janeiro, 20% do biodiesel contratado não foi entregue. Existem multas para o não cumprimento do contrato, mas a decisão do fornecimento fica condicionada a uma relação custo/benefício do pagamento da multa. A falta de matéria-prima levou a própria Petrobras, informou O Globo, a suspender fornecimentos que havia acertado com a Vale, com quem havia fechado um acordo para fornecer um diesel com 20% de óleos vegetais, na formulação denominada B20, e também não cumpriu compromisso com a Viação Itaim Paulista, para a qual venderia o B30.

Em uma análise equilibrada da situação, Aboissa acredita que a oferta de biodiesel se normalizará no decorrer do ano, assim que a Petrobras, a compradora nos leilões da ANP, rever sua política de preços do biodiesel e torná-la mais próxima dos valores de mercado. O professor Horta Nogueira, porém, chama a atenção para o custo que a sociedade brasileira terá de arcar para atender o primeiro ano do programa do biodiesel. Para isso, ele apresenta o seguinte cálculo. O custo do litro do diesel hoje, na refinaria, é de R$ 1,00. O valor do biodiesel, nos leilões da ANP, chegou a R$ 2,11 e deve subir. A diferença entre o preço do diesel e o preço do biodiesel, para o consumo de 840 milhões de litros, informa Nogueira, é próxima a R$ 1 bilhão, valor que tem sido coberto por meio de renúncia fiscal e pelo aumento do preço do diesel. “Não precisava haver um subsídio desta proporção se tivesse ocorrido, no momento certo, uma política de ampliação da oferta, preferencialmente privilegiando oleaginosas com uma boa racionalidade energética, o que não é o caso da soja”, diz o professor.

B5 – Depois desta largada desajeitada, talvez já seja a hora de começar a planejar a próxima etapa do programa brasileiro de biodiesel, a fase B5, prevista para vigorar a partir de 2013, quando estima-se que o país precisará de uma oferta de 2,4 bilhões de litros de óleos vegetais e gorduras para uma formulação de diesel com 5% de biodiesel. Uma estratégia adequada, com consistência técnica, como diz Nogueira, passa pela escolha de insumos eficientes para a produção de óleo vegetal.

A soja, por exemplo, não apresenta a melhor solução para o biodiesel. O óleo é apenas 18% da composição da soja e é um produto destinado à alimentação humana e animal. Como informa Nogueira, o hectare de soja rende 600 litros de óleo. É uma proporção baixa, se comparada, por exemplo, à produtividade das palmáceas: um hectare rende de 5 a 6 mil litros de óleo de palma, ou dendê, como também é conhecido. “A palma está para o biodiesel assim como a cana para o etanol, é a melhor solução”, diz Nogueira. O problema é que a palma leva cinco anos para começar a produzir, mas depois seu ciclo produtivo é de 25 anos. No momento, o óleo de palma é mais caro que o de soja, mas a planta apresenta potencial para reduzir custos, com uma produtividade maior.

Segundo o professor Miguel Dabdoub, o Brasil conta com 200 espécies produtoras de óleo, mas nem todas ainda pesquisadas. Algumas plantas com grande potencial para o biodiesel são a macaúba e o pinhão manso. Mas são plantas ainda não domesticadas. “É preciso ter cautela em uma aposta nestas alternativas. Ainda não se conhece a tecnologia de exploração destas plantas, os riscos com pragas e nem mesmo o ciclo de produtividade”, afirma. O investimento em plantas ainda não pesquisadas é arriscado. Nogueira lembra que na Nicarágua um programa pioneiro de produção de biodiesel com o cultivo de mil hectares de pinhão manso fracassou, mesmo recebendo forte subsídio do exterior.

E a mamona, a oleaginosa que a propaganda oficial associou ao biodiesel brasileiro, não é uma boa solução? “Fazer combustível com mamona é tão impróprio como fazer carvão vegetal com jacarandá”, responde Nogueira. O óleo de mamona é um material nobre, informa o consultor da FAO, é um excelente lubrificante, com amplo uso industrial. O valor do óleo de mamona inviabiliza o seu uso no biodiesel.

Segundo informa Aboissa, a cotação do óleo da oleaginosa é de R$ 4,50 o litro. “É impraticável”, diz o executivo. Um outro dado importante, a produção brasileira, sem uso para o biodiesel, já é deficitária. O país produz 16 mil toneladas anuais do óleo para um consumo de 18 mil toneladas. Miguel Dabdoub ainda informa que a mamona, pela sua viscosidade elevada, apresenta um desempenho insatisfatório, abaixo de outros óleos vegetais. Além disso, alertam os especialistas, a produtividade da mamona é inferior a mil litros de óleo por hectare.

Uma alternativa mais viável e que pode ser acessível no curto prazo é o sebo animal. Como lembra Nogueira, o sebo é um subproduto da produção de carne. A produção brasileira, de 600 mil toneladas ano, refere-se apenas ao resíduo do gado bovino e só 1/3 deste total tem destino garantido, como insumo para a indústria química e principalmente para a produção de sabão. Para o biodiesel, estima-se que devam ser destinadas 120 mil toneladas neste ano. Poderia ser bem mais, informa Nogueira. Em seu cálculo, se forem somadas ao sebo bovino as gorduras suínas e de aves, o total de insumos disponíveis para a indústria do biodiesel chegaria próximo a três milhões de toneladas.

Processamento – Enquanto o fornecimento de insumos para a produção do biodiesel ainda é incerto, o mesmo não ocorre com a capacidade de processamento da matéria-prima. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias do Biodiesel (Abiodiesel) o país conta com 51 plantas industriais autorizadas a produzir, com uma capacidade instalada total de 2,5 bilhões de litros. Produzindo, segundo informações do mercado, estão apenas 18. Mas várias indústrias estão em fase de construção.

Um dos principais investimentos em andamento é o da Bionasa, em Porangatu, Goiás. A usina, prevista para entrar em operação no segundo semestre deste ano, terá capacidade para produzir 200 mil toneladas/ano de biodiesel e já tem sua expansão contratada em outras 200 mil toneladas anuais, que deverão entrar em operação em 2010. O principal investimento, porém, é o da Petrobras. A empresa promete inaugurar até o final do ano três usinas, com capacidade para 57 milhões de litros anuais cada uma, nos municípios de Quixadá, no Ceará, Candeias, na Bahia, e Montes Claros, em Minas Gerais.

Mas a empresa também pretende começar em breve a construção de uma quarta usina, que será no Nordeste, com capacidade para 400 milhões de litros. A meta da empresa é chegar a 2012 com uma capacidade de produção anual de 900 milhões de litros de biodiesel. Com os investimentos em capacidade de processamento, a expectativa entre os analistas é de que, no futuro, o Brasil se torne um exportador de biodiesel, uma vez que a demanda mundial por este combustível renovável só faz crescer. Mas antes será preciso estabelecer um eficiente programa de suprimento de insumos.

Fornecedores aguardam negócios

A indústria do biodiesel poderá se tornar mais um cliente do etanol brasileiro. No momento não é. O biodiesel é um éster fabricado com a reação química de óleos vegetais ou gordura animal com metanol ou etanol. Nos dois processos, forma-se uma glicerina como resíduo que deve ser retirada.

Como informa o consultor químico Paulo de Oliveira, da Soft Way, a rota do metanol é mais eficiente, reduzindo a menos da metade o álcool usado no processo. Para completar, o metanol, mesmo sendo importado dos Estados Unidos, apresenta um preço próximo ao do etanol. A relação custo/benefício, portanto, pende para o metanol.

Já o professor da USP Miguel Dabdoub informa que já existem tecnologias desenvolvidas disponíveis que tornam competitiva a produção pela rota do etanol. A questão, acredita o professor, é que as usinas de biodiesel brasileiras estão sendo montadas utilizando-se, principalmente, tecnologia importada da Europa e Estados Unidos, onde o desenvolvimento tecnológico se deu com o uso do metanol.

O biodiesel também é uma boa oportunidade de negócios para a indústria química, como fornecedora de resinas, aditivos e catalisadores. A Lanxess, informa o executivo Klaus Axthelm, responsável pela área de negócios de resinas, informa que a empresa disponibiliza para o mercado de biodiesel as resinas Lewatit, elaboradas à base do copolímero de estireno-divilbenzeno, que são utilizadas em três etapas distintas do processo de produção.

A resina é utilizada na esterificação de ácidos graxos, a parcela do óleo que no processo de transesterificação produz sabões. A resina age antes da transesterificação, evitando que a impureza chegue ao processo. A resina também é utilizada na eliminação de resíduos de glicerina do biodiesel, substituindo a remoção da glicerina com água, que gera efluentes que precisam ser lavados. “No processo da Lanxess, não é gerado nenhum tipo de resíduo, uma vez que a resina é regenerada com o álcool, tanto etanol como metanol, que será utilizado no processo produtivo novamente”, diz o executivo. O terceiro uso da resina é na purificação da glicerina, eliminando cores e sais e, com isso, obtendo um maior valor de mercado.

A Lanxess, informa Axthelm, também fornece os aditivos Baynox e Baynox Plus, que são antioxidantes sintéticos que têm a função de aumentar o ciclo de vida do biodiesel, interrompendo o ciclo de auto-oxidação seqüestrando os hidroperóxidos, que são formados em altas temperaturas. “O objetivo é  interromper a formação dos radicais e tornar o biodiesel estável, evitando que se torne rançoso em contato com o ar. A estabilidade do biodiesel evita a formação de ácidos graxos de cadeia curta voláteis, que podem causar corrosão nos motores. Ao mesmo tempo, evita que polímeros formados se precipitem, formando gomas que podem causar depósitos e resíduos nos motores”, diz o executivo.
O Baynox Plus, informa Axthelm, foi desenvolvido para atender à produção de biodiesel obtido de soja, girassol e pinhão manso. “O biodiesel produzido com esses óleos vegetais contém altos níveis de ésteres duplos ou triplos de ácidos graxos insaturados, que são mais sensíveis à oxidação e por isso requerem um antioxidante mais poderoso”, diz o executivo.

Já a Evonik Degussa, conforme relata a chefe de produto Ana Claudia Sturaro, atua no mercado de biodiesel fornecendo catalisadores de alto desempenho: Metilato de Sódio/Metóxido de Sódio 30% em Metanol e o Metilato/Metóxido de Potássio 32% em Metanol, ambos produzidos na Alemanha.

A empresa também fornece o antioxidante Ionol BF 200, produzido na Espanha pela Oxiris Chemicals. “Esses materiais são essenciais à produção do biodiesel por meio da transesterificação do óleo vegetal ou gordura animal, convertendo triglicérides em biodiesel, na presença do metanol”, diz Sturaro.

 

 

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