Segundo Olivério, os projetos de produção de etanol de celulose são promissores, mas ainda estão em fase de laboratório e levarão alguns anos para apresentar competitividade em escala industrial. Olivério lembra que um dos projetos mais avançados do mundo é o da Dedini, que se encontra em fase semi-industrial. Para os produtores de cana-de-açúcar, diz Olivério, a produção do etanol de celulose será uma grande oportunidade de negócio, uma vez que eles poderão utilizar o bagaço e a palha da cana no processo.

O sistema da Dedini, batizado de Dedini Hidrólise Rápida (DHR), começou a ser desenvolvido nos anos 80, com uma produção piloto de 100 litros de álcool por dia. Em julho de 2003, já em parceria com a Copersucar e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), entrou em operação a primeira unidade semi-industrial. A unidade, instalada na Usina São Luís, em Pirassununga, no interior paulista, tem capacidade de produzir cinco mil litros de álcool por dia, com uma produtividade de 100 litros de álcool por tonelada de bagaço.

O desafio para a Dedini está em realizar a produção em escala comercial. Segundo Olivério, para isso, será necessário aumentar a produtividade para algo como 180 litros por tonelada de bagaço e produzir, de forma contínua, 50 mil litros de álcool por dia.

Alcoolquímica –
Outra movimentação de mercado com promessa de melhorar as perspectivas do etanol brasileiro envolve o anúncio de novos investimentos na alcoolquímica. Mais especificamente, três projetos divulgados em 2007 devem abrir novos campos de aplicação e gerar novos negócios para a cadeia sucroalcooleira. A Solvay informou que irá construir uma planta industrial em Santo André (SP) com o objetivo de produzir 60 mil toneladas anuais de etileno via etanol, que serão destinadas à produção de PVC. Para isso, a empresa fechou um contrato com a Copersucar prevendo o fornecimento de 150 milhões de litros de álcool por ano, durante dez anos. A novidade deste contrato é que o valor do etanol será indexado ao preço do petróleo.

A Braskem, por sua vez, está em fase final de detalhamento de um projeto para a produção de polietileno de alta densidade (PEAD) com etanol. Os estudos são para uma produção de 100 mil a 200 mil toneladas anuais de PEAD, um investimento estimado em aproximadamente US$ 150 milhões. A direção da Braskem avalia que uma parcela de sua clientela estará disposta a pagar entre 15% e 20% mais no material, por este ser produzido com uma fonte renovável e sustentável de matéria-prima.

O principal projeto é o da Dow Chemical, que prevê a produção de 350 mil toneladas anuais de polietileno linear de baixa densidade com etileno obtido do etanol. Para isso, a empresa fechou um contrato com o grupo usineiro Crystalsev, de Ribeirão Preto-SP, para o fornecimento anual de 700 milhões de litros de etanol.

Para José Luiz Olivério, superintendente da Dedini, a alcoolquímica é um novo nicho de mercado, com grande potencial, que se abre para a indústria alcooleira. “Atualmente, todos os empreendimentos possuem como foco o mercado combustível. Novos investimentos serão necessários para atender a essa nova demanda”, diz o executivo. Plínio Nastari, da consultoria Datagro, estima que, em cinco anos, o desenvolvimento da alcoolquímica brasileira deverá demandar um consumo anual de 2,5 bilhões de litros de etanol.

É uma estimativa otimista que, se for confirmada, terá o poder de mudar significativamente o mapa da alcoolquímica mundial. Segundo um estudo da SRI Consulting, o consumo anual de álcool pela indústria química mundial, como insumo, é de aproximadamente 2,5 bilhões de litros. Os principais mercados consumidores, responsáveis por mais de 80% da demanda, são China, Índia, Brasil e Estados Unidos.

Como relata Marcos Nogueira César, diretor de operações para a América Latina da SRI, a China é o principal consumidor, com uma demanda de cerca de 900 milhões de litros de álcool. A demanda chinesa tem crescido principalmente em virtude da produção de acetato de etila e ácido acético com base no etanol. Esses mercados, informa o consultor, devem continuar apresentando forte crescimento nos próximos anos, refletindo o vigor da economia chinesa.

Atualmente, informa Nogueira César, os principais produtos derivados do etanol são o acetato de etila e o ácido acético. Outros derivados com volume comercial significativo incluem o acrilato de etila, etilaminas e éteres glicólicos. O etanol é hoje a principal matéria-prima mundial para a produção de acetato de etila, por meio da esterificação com ácido acético.

Divulgação

César: China puxa mercado de derivados do etanol

Recentemente, sempre segundo informações do consultor, a firma inglesa Davy Process Technology lançou uma tecnologia de produção de acetato de etila em uma única etapa utilizando o etanol, e dispensando o ácido acético como matéria-prima auxiliar. Esta tecnologia já é usada pela Sasol na África do Sul e está sendo licenciada para duas novas plantas na China. Segundo a análise independente do SRI, a tecnologia da Davy apresenta custos de produção bastante competitivos com a tecnologia de esterificação convencional e deverá conquistar uma fatia importante do mercado de produção do acetato.

No Brasil, o consumo de álcool como insumo químico tem se mantido na faixa de 300 a 400 milhões de litros por ano. Um importante usuário no país é a Rhodia, na produção de acetato de etila. Nogueira também aposta no potencial da produção de eteno de álcool no Brasil, uma vez que o país detém tecnologia avançada tanto na produção de cana-de-açúcar como nas usinas, além de ter escala, por causa do mercado de álcool combustível. O consultor, porém, ressalta a necessidade dos projetos apresentarem uma consistente equação de competitividade. O consultor relata que a produção de eteno de álcool foi significativa no passado (até mesmo no Brasil), porém perdeu competitividade em relação à rota petroquímica ao longo das décadas de 80 e 90.

Hoje, informa o consultor, existe uma única planta em operação com pequena capacidade localizada na Índia. “A expectativa é de que, com os recentes anúncios de novas plantas pela Braskem, Dow e Solvay, o eteno volte a entrar no mapa das rotas alcoolquímicas comerciais, para a produção do polietileno, o eteno ‘verde’, e vários derivados, incluindo o PVC e o poliestireno”, afirma.

O consultor informa que, de acordo com um estudo realizado recentemente pela SRI, a produção de eteno obtido de etanol pode competir, em termos de custo de produção, com a rota petroquímica (craqueamento de nafta) para plantas de pequena capacidade (abaixo de 400 mil toneladas/ano de eteno). “Logicamente, a rentabilidade econômica da planta vai depender da diferença de preço entre o eteno e o etanol. No entanto, a análise é mais complicada do que parece, pois o preço do petróleo influencia os preços tanto do eteno quanto do etanol. Além disso, os mercados de eteno e álcool são afetados por suas respectivas condições de oferta e demanda”, diz Nogueira César.

Segundo o consultor, uma análise histórica dos preços relativos de eteno e álcool nos últimos dez anos mostra que a rentabilidade da produção de eteno de álcool é extremamente variável, mesmo durante períodos com preços de petróleo elevados (acima de US$ 50/barril). Por isso, a maioria das empresas tem buscado vantagens adicionais para garantir a rentabilidade média do investimento.

A Braskem, por exemplo, analisa Nogueira César, anunciou que alguns de seus clientes estariam dispostos a pagar um preço adicional pelo plástico “verde” produzido com o eteno de álcool. Neste caso, a questão de sustentabilidade ambiental seria também um fator de justificativa financeira para o projeto. A Dow anunciou que sua planta de eteno seria integrada com a planta de etanol da Crystalsev. Esta integração pode resultar em sinergias que reduziriam o investimento total e os custos de produção do processo combinado.

BIODIESEL

Governo abandonou os produtores

Um mau começo. Quem ouve a opinião de analistas independentes sobre os primeiros meses de operação do programa do biodiesel brasileiro dificilmente escapa desta conclusão. Resumidamente, segundo apontam os analistas, o governo acertou ao induzir o consumo de biodiesel ao tornar obrigatório, desde 1º de janeiro, que o diesel consumido no país leve 2% de biodiesel em sua composição, formando o chamado B2.

Afinal, o biodiesel é produzido com fontes renováveis, como óleos vegetais e sebo animal, e é menos poluente. Além disso, o país, que no ano passado importou quase 3 bilhões dos 40 bilhões de litros de diesel aqui consumidos, poderá reduzir estas importações em 840 milhões de litros, o total de B2 que será usado nos tanques dos veículos brasileiros. A estimativa é de gerar uma economia de divisas na balança comercial superior a US$ 400 milhões.

O problema, dizem os analistas, está no fato de o governo ter criado a demanda sem incentivar a ampliação da oferta de matéria-prima para a produção do biodiesel. “Estamos vivendo a crônica de um desabastecimento anunciado”, diz o professor Luiz Augusto Horta Nogueira, ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e consultor em bioenergia da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

A dificuldade de abastecimento está relacionada ao fato de que a obrigatoriedade da mistura do biodiesel começou em um momento de pico do consumo mundial de óleos vegetais e gorduras. Hoje, a oferta destes insumos é deficitária. Como informa o consultor Munir Aboissa, a produção mundial é de 90 milhões de toneladas, mas o consumo já chegou a 92 milhões de toneladas e continua crescendo, em virtude da maior demanda de países como China e Índia, mas também em conseqüência do incremento de programas de biodiesel, que já é realidade em mais de 20 países. Mas os principais usos do óleo vegetal são a alimentação humana, a ração animal, além de usos químicos, principalmente pela indústria de tintas e vernizes, farmacêutica e cosmética.

O Brasil produz oito milhões de toneladas de óleo vegetais e gorduras, sendo que a produção brasileira é fortemente ligada ao óleo de soja, que responde por seis milhões do total produzido. Outras 600 mil toneladas têm origem no sebo animal; 300 mil toneladas vêm do algodão e 180 mil da palma. Até o ano passado, o consumo brasileiro estava na casa das 4,5 milhões de toneladas. O excedente, algo como 3,5 milhões de toneladas, tem como destino o mercado externo. A estratégia de internacionalização está há muito tempo consolidada entre os produtores. O Brasil é, por exemplo, o segundo maior exportador mundial de óleo de soja.

Para atender à nova demanda do biodiesel, o governo brasileiro apostou em uma estratégia arriscada. Incentivar pequenos produtores, ligados ao programa de apoio à agricultura familiar, a produzir oleaginosas como amendoim, pinhão manso, macaúba, mamona, girassol e nabo forrageiro. Não funcionou a contento. “O Brasil possui uma agrodiversidade enorme, com inúmeras oleaginosas com potencial de atender ao programa de biodiesel. Mas antes é preciso conhecer estas plantas, desenvolver tecnologia. Saber o modo certo de plantio, os riscos com pragas, a produtividade. Não houve nada disso”, diz o professor Miguel Dabdoub, coordenador do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas da Universidade de São Paulo.

Inviabilidade – A ANP, no final de 2007 e início de 2008, ao realizar leilões de compras para atender à demanda de 840 milhões de litros de biodiesel, deparou-se com uma situação de mercado completamente dependente da soja. Segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), aproximadamente 90% do biodiesel brasileiro está sendo produzido com a oleaginosa. A situação passou a ficar complicada à medida que os preços internacionais do óleo de soja aumentaram por causa da demanda aquecida e ficaram bem acima dos preços acertados nos leilões da ANP.

 

 

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