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Queda de preços do biodiesel e do
álcool gera incertezas, mas
perspectivas no longo prazo
ainda são positivas
Domingos Zaparolli

2008 iniciou-se com uma série de sinais contraditórios emitidos no mercado de biocombustíveis. Antes mesmo de começar, o ano já tinha um lugar reservado na história por marcar o início da obrigatoriedade, no Brasil, de se acrescentar ao diesel uma mistura de 2% de biodiesel, o chamado B2. Porém os desestimulantes preços pagos aos produtores somados à escassa produção de matérias-primas fora do complexo de soja fizeram com que o sucesso do programa nacional do biodiesel passasse a ser questionado, com alguns analistas falando em um possível apagão do biodiesel.

Já no mercado de álcool combustível, as notícias davam conta de um paradoxo. Por um lado, o consumo de etanol no mercado interno foi recorde em 2007, chegando a 16,7 bilhões de litros; 3,7 bilhões mais que o total consumido em 2006. A diferença atendeu a uma frota de 2 milhões de novos carros flex fuel que foram vendidos apenas no ano passado. Para este ano, a previsão é de que o consumo de etanol seja novamente recordista no Brasil, alcançando a marca de 19,6 bilhões de litros. Os dados são da consultoria Datagro, especializada em produção sucroalcooleira.

Além disso, 2007 foi marcado por anúncios importantes de empresas químicas e petroquímicas em projetos de produção de etileno obtido do etanol, em vez da tradicional rota de produção via nafta. O crescimento do consumo de etanol combustível, mais as projeções de novas demandas, como a alcoolquímica, deveriam, em teoria, puxar os preços e estimular novos investimentos na ampliação da capacidade produtiva.

Mas as notícias nos dois primeiros meses do ano eram de queda de preços ao produtor (mais de 20% em um ano) e da rentabilidade em plena entressafra da cana-de-açúcar (janeiro-abril). O jornal Folha de S. Paulo, citando dados do especialista Josias Messias, contabilizou 25 projetos de usinas adiados ou reavaliados e informou que produtores sentiam-se frustrados e questionavam o boom do álcool. No mercado sucroalcooleiro também começou a haver rumores dando conta de que o aumento dos preços internacionais do açúcar levaria as usinas a promoverem a migração de uma porcentagem significativa de suas produções de álcool para o açúcar, com este último, depois de anos, absorvendo mais de 50%

da produção de cana. Para completar o pessimismo, as exportações de etanol em 2007 caíram 14%, ficando restritas a 3,2 bilhões de litros, sendo que a expectativa, no início do ano, era de uma exportação próxima a cinco bilhões de litros.

O consultor Plínio Nastari, presidente da Datagro, avalia como exageradas as reações. “Estamos vivenciando uma acomodação natural do mercado”, afirma. Segundo ele, a rentabilidade, que continua positiva, caiu por causa do aumento da oferta de cana-de-açúcar, que cresceu em 58 milhões de toneladas apenas em 2007. Mas a demanda de etanol, analisa o consultor, também cresce rapidamente e deve melhorar a rentabilidade já em 2008.

Cuca Jorge

Nastari: rentabilidade do etanol melhora em 2008

Conforme levantamento da Datagro, a safra 2007/2008 de cana-de-açúcar registrou um total de 485,5 milhões de toneladas. Para a produção de açúcar, foram destinadas 45,9% do total, somando 30,65 milhões de toneladas; para o álcool, 54,1%. A produção de álcool somou 21,9 bilhões de litros, sendo 13,94 bilhões de álcool hidratado, que substitui a gasolina nos motores automotivos, e 9,03 bilhões de anidro, utilizado em mistura com a gasolina.

Na avaliação do consultor, a produção de cana na próxima safra, 2008/2009, deverá crescer ainda mais. Mas o álcool será responsável por uma proporção ainda maior da demanda. A previsão de Nastari é de uma safra de 532,5 milhões de toneladas, sendo que 44,1% deverão produzir 32 milhões de toneladas de açúcar e os outros 55,9% deverão ser responsáveis pela produção de 24,76 bilhões de litros de álcool, sendo 8,3 bilhões de litros de álcool anidro e 16,46 bilhões de litros de álcool hidratado. Nastari acredita porém que, neste ano, as exportações darão conta de uma parcela maior da produção excedente.

Em uma análise de mais longo prazo, visando a safra 2013/2014, o consultor estima uma produção na casa de 35 bilhões de litros de etanol para um consumo interno de 28 bilhões e exportações de 7 bilhões de litros. Por conta destas projeções, Nastari avalia que os investimentos na ampliação da capacidade de produção de etanol continuarão aquecidos nos próximos anos. Hoje o país conta com um total de 370 usinas. Deste total, 240 se dedicam à produção de açúcar e álcool, 115 apenas à produção de álcool e somente 15 exclusivas em açúcar.

Para este ano, estão previstas, segundo a Datagro, a entrada em operação de 29 novas usinas dedicadas, pelo menos em um primeiro momento, à produção de álcool. Nastari informa que existem copilados outros 138 projetos e que há notícias de aproximadamente 20 postergações, mas não de cancelamentos. Um número, portanto, próximo do apresentado por Messias.

O executivo José Luiz Olivério, que tem um ótimo posto de observação do mercado de açúcar e álcool – ele é superintendente da Dedini, a principal fornecedora de equipamentos para o setor –, não acredita que a baixa rentabilidade atual da produção do álcool seja capaz de influenciar os investimentos. “É uma queda sazonal e o projeto de uma usina é resultado de um planejamento de médio e longo prazo”, afirma. “Não tenho conhecimento de nenhum projeto já contratado no mercado que tenha sido alvo de adiamento ou cancelamento. No máximo, pode ser que projetos que ainda não saíram do papel, ainda em fase de maturação, estejam sendo reestudados”, diz o executivo.

Cuca Jorge

Olivério: queda é sazonal e não foi suficiente para cancelar projetos

Novos projetos e bioeletricidade – Segundo Olivério, há no momento 76 usinas em fase de montagem, sendo que 75 deverão entrar em operação até 2010 e uma em 2011. O executivo revela ainda que novos e importantes projetos estão em fase de contratação. Entre eles, o de maior impacto é um investimento da Odebrecht que prevê a construção, em longo prazo, de dez usinas que, juntas, somarão capacidade de processar 40 milhões de toneladas de cana.

Outros projetos em negociação avançada são com multinacionais, como a Bunge, que pretende construir três usinas com capacidade de processar 4 milhões de toneladas de cana cada uma. E também com a Multigreen, que projeta uma usina com capacidade de processar 4 milhões de toneladas de cana, e a norte-americana True Energy, que pretende construir três usinas com capacidade para 3 milhões de toneladas de cana cada.

Olivério informa também que um estímulo para o setor veio em 2006 com a definição de mecanismos estáveis, por meio de leilões e contratos de longo prazo, que proporcionam às usinas a possibilidade de fornecer bioeletricidade à rede de energia. “É uma possibilidade a mais de negócios para o usineiro, que ajuda a viabilizar os investimentos”, diz. Segundo o executivo, a maioria das usinas em fase de montagem e a totalidade dos novos projetos já prevêem investimentos para a adequação a esta modalidade de negócios. Até o final de 2008, ele projeta, as usinas de cana-de-açúcar terão capacidade de oferecer 2 mil megawatts de energia e, em 2011, 4 mil megawatts

Etanol da celulose – O início de 2008 também foi pródigo em notícias sobre a evolução dos investimentos no desenvolvimento da tecnologia de produção de etanol de celulose. O principal movimento foi a parceria da General Motors com a empresa norte-americana Coskata para a produção de etanol obtido de qualquer material orgânico, como resíduos agrícolas, grama ou até mesmo lixo.

O processo consiste de um sistema que transforma matéria orgânica rica em carbono em gás por meio de um gaseificador plasmático. O gás, rico em monóxido de carbono, dióxido de carbono e hidrogênio, passa por um depurador que retira partículas e moléculas indesejadas e resfria o gás, que é enviado ao biorreator, onde microrganismos anaeróbicos consomem monóxido de carbono e hidrogênio, gerando etanol e água.

Segundo anunciou o presidente da Coskata, Bill Roe, a produção em escala – entre 50 e 100 milhões de galões – deve ocorrer em 2011. O custo do galão (3,7 litros), garante o executivo, será inferior a US$ 1.

Outro anúncio importante foi realizado pela Cutrale, a maior produtora de suco de laranja do mundo. A empresa informou que sua subsidiária, a Cutrale Citrus Juices USA, firmou parceria com a Southeast Biofuels em um projeto piloto de produção de álcool combustível feito do bagaço e da casca da laranja. A usina, que deve entrar em operação em dois anos, receberá investimentos de US$ 5,9 milhões, e será instalada em Auburndale, na Flórida (EUA). O projeto prevê a produção de 8 milhões de galões (30,3 milhões de litros) de etanol com o processamento de 800 mil toneladas de material orgânico.

O investimento será subsidiado em US$ 500 mil pelo Departamento de Agricultura e Serviços ao Consumidor da Flórida (Doacs). O governo da Flórida tem planos de investir US$ 25 milhões em projetos de sete empresas para a produção de biocombustíveis.

 

 

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