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Setor comemora elevação das vendas, mas a baixa rentabilidade pode levar à concentração de empresas

Domingos Zaparolli

2 007 foi um ano excepcional para a indústria de tintas. A estimativa da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abra­fati) é de que o volume produzido no ano tenha alcançado a marca de 1,04 bilhão de litros, um crescimento de 8% em relação a 2006. Com esse resultado, o setor finalmente rompeu a fronteira do crescimento vegetativo, aquele que acompanha a evolução do PIB (por volta de 5% em 2007), como vinha ocorrendo na última década. O bom desempenho, como informa a Abrafati, foi puxado principalmente pela demanda aquecida da construção civil e da indústria automotiva.

A perspectiva da associação é de que em 2008 o crescimento do mercado de tintas continue vigoroso, mas um pouco menor, por volta de 7%. Se o número se confirmar, mais uma vez o desempenho do setor deverá superar a evolução do PIB brasileiro, que o Banco Mundial estima que deva crescer 4,5% em 2008. “É um resultado bastante interessante, coloca o Brasil como um dos mercados de tintas que mais cresce no mundo”, diz Rui Goerck, presidente do conselho diretivo da Abrafati.

Em faturamento, a estimativa da Abrafati é de que o ano de 2007 tenha terminado com um crescimento de 6%, alcançando R$ 4,73 bilhões. O desempenho, porém, é bem menos vistoso do que aparenta. Goerck chama a atenção para o fato de que, deflacionado, usando-se o índice de inflação do IBGE, o IPCA (na estimativa de novembro, do Banco Central de 4,1%, percentual adotado para os cálculos apresentados nesta reportagem), o crescimento do faturamento em relação a 2006 foi de apenas 1,9%. Em janeiro, o IPCA oficialmente divulgado para 2007 foi de 4,46%. A comparação é ainda menos animadora quando se deflaciona o faturamento do setor nos últimos seis anos. Com o resultado desta conta, descobre-se que o faturamento dos fabricantes de tintas vem caindo.

Em 2001, a indústria do setor faturou R$ 3,3 bilhões com a comercialização de 843 milhões de litros de tintas. Em 2007, para um volume de tintas quase 24% maior, o faturamento deflacionado (com base em 2001) ficou em R$ 3,16 bilhões, o que representa uma queda média de 0,7% ao ano. Para Goerck, estes números demonstram o quanto é acirrada a competição no mercado brasileiro e como é difícil para a indústria do setor reajustar seus preços, mesmo diante da alta significativa dos insumos ocorrida nos últimos anos, puxada, principalmente, pela elevação da cotação internacional do petróleo. A conseqüência é que as indústrias de tintas têm reduzido suas margens de lucro para manter as vendas. “É um mercado onde é preciso ser eficiente e competitivo, ser líder em seu segmento de atuação para ter rentabilidade, ou possuir uma estratégia muito bem focada em nichos dentro dos segmentos”, diz o executivo.

Por conta dessa conjuntura, Goerck avalia que a tendência é de que o processo de consolidação no setor se intensifique nos próximos anos. Em verdade, como lembra o executivo, a concentração dos negócios ocorre globalmente, entre as companhias internacionais, mas a tendência é de que o processo se acelere no Brasil, alcançando também as boas empresas nacionais, que tenderão a unir esforços ou serem incorporadas por empresas globais. Nos últimos anos, a estagnação do mercado interno segurou um pouco essa onda de consolidação no país, mas agora, com a recuperação do mercado local, informa o executivo, já se verifica maior presença de empresas estrangeiras, principalmente européias, visitando o mercado brasileiro em busca de oportunidades de negócios. “Nos próximos anos, teremos um mercado formado por um número menor de fabricantes. Serão empresas mais produtivas, com maior escala e melhor capacitadas tecnologicamente”, diz Goerck.

O executivo acredita que, em 2008, deverá se manter a tendência de pressão sobre os preços das matérias-primas e, possivelmente, até com falta de alguns insumos. Porém o fabricante de tintas, na avaliação de Goerck, continuará com dificuldades de repassar custos e recuperar preços. Em sua opinião, o ano também será marcado por investimentos na cadeia produtiva. “São necessários, hoje temos gargalos produtivos que precisam ser superados”, diz. Por outro lado, Goerck avalia que o mercado consumidor de tintas industriais e automobilísticas em 2008 deverá ser um pouco menos aquecido, por conta da maior importação de produtos acabados. Outra expectativa do executivo é de que a informalidade continue a cair no setor. Em seu pico, calcula-se que eram informais 35% dos negócios de tintas no país, hoje este índice está avaliado em 25%. “A queda é reflexo do aumento da fiscalização e também do Programa Setorial de Qualidade, que inibe os produtores menos qualificados”, diz o dirigente da Abrafati.

Tintas imobiliárias – Em alguns segmentos, o forte crescimento do consumo em 2007 ajudou a indústria a recuperar preços e romper com a queda do faturamento real, deflacionado, registrado na década. É o que ocorreu no segmento de tintas imobiliárias, responsável por 77% dos negócios, em volume. No ano passado, conforme os dados da Abrafati, a produção do segmento alcançou a marca de 800 milhões de litros, sendo 328 milhões (41%) nas linhas econômicas; 299 milhões (37%) nas linhas premium; e 173 milhões (12%) standard. O total produzido foi 8,1% superior ao registrado em 2007, quando foram fabricados 740 milhões de litros. Entre 2001, produção de 655 milhões de litros, e 2007, a média de crescimento anual foi de 3,4%.

O faturamento no ano passado alcançou R$ 2,81 bilhões, 6,8% superior ao registrado em 2006. Analisada com base em dados deflacionados, a evolução foi de 2,7%, rompendo assim com a seqüência de queda de faturamento deflacionado registrada nos últimos anos. Os cálculos da Abrafati apontam que, em 2001, o faturamento do segmento de tintas imobiliárias foi de R$ 1,96 bilhão e o faturamento, em 2007, deflacionado, sempre em relação a 2001, ficou em R$ 1,87 bilhão, resultando em uma queda média no faturamento real de 0,8% ao ano entre 2001 e 2007. Na avaliação da Abrafati, o bom desempenho do segmento de tintas imobiliárias em 2007 foi decorrência de uma série de fatores. O primeiro foi a desoneração fiscal para o segmento, ocorrida em 2006, que impactou nos preços. Por outro lado, o crédito imobiliário ficou mais acessível, com mais recursos financeiros disponíveis, taxas de juros menores e prazos mais longos de pagamento, o que estimulou a construção habitacional. As obras públicas também se beneficiaram com novos investimentos, em virtude do início do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além disso, os fabricantes de tintas foram mais agressivos em seus investimentos em propaganda e marketing, expandindo a exposição das marcas e a oportunidade de negócios. Esses mesmos fatores deverão impulsionar as vendas em 2008, avalia a Abrafati. Sendo que as vendas de tintas para novas construções habitacionais deverão crescer em 15% e as vendas para reformas tendem a evoluir em 6%. As tintas classificadas como econômicas deverão continuar a liderar as vendas, com um crescimento estimado em 10%, enquanto que as tintas standard devem vender 6% a mais e as tintas premium, 4%.

Tintas automotivas – Nos segmentos de tintas automotivas originais e repintura, responsáveis pelo consumo de 8% do volume total de tintas produzidas no Brasil, o aquecimento dos negócios em 2007 não resultou em recuperação dos preços. No ano passado, segundo a Abrafati, a comercialização de tintas automotivas originais, destinadas à pintura de veículos novos, nas montadoras, registrou um crescimento de 12,5%, num total de 45 milhões de litros, mas o faturamento, de R$ 332 milhões, praticamente empatou com o registrado em 2006, quando as vendas somaram R$ 331 milhões.

Fazendo a avaliação deflacionada das vendas, a Abrafati concluiu que o faturamento no segmento de tintas automotivas caiu 3,9% no ano. Deflacionado com base em 2001, o faturamento do setor em 2007 foi de R$ 221 milhões. Em 2006, R$ 230 milhões. Em 2001, a produção de tintas automotivas originais foi de 30 milhões de litros, para um faturamento de R$ 212 milhões.

Já a produção de tintas voltadas para o mercado de repintura automotiva atingiu o volume de 42 milhões de litros, 5% superior ao de 2006. O faturamento foi de R$ 433 milhões, 4,1% maior. Chegou perto da inflação. Na avaliação deflacionada desde 2001, percebe-se que o segmento vem perdendo faturamento ao ritmo de 0,7% ao ano. Em 2001, a indústria produziu 32 milhões de litros de tintas para repintura automotiva e faturou R$ 301 milhões. Deflacionadas, as vendas de 2007 ficaram em R$ 288 milhões.

Um dado que chama a atenção é a dificuldade que os fabricantes têm em fazer com que as vendas de tintas com maior valor agregado decolem no segmento de repintura. Em verdade, elas perdem espaço. Em 2001, as vendas de tintas avaliadas de alta tecnologia eram de 8 milhões de litros. Em 2007, ficaram em 6 milhões de litros.

Para 2008, a avaliação da Abrafati é de que o volume de produção de tintas para repintura deverá crescer novamente em 5%. Mas a associação repara que a tendência é de que as seguradoras intensifiquem o rigor na liberação de consertos de automóveis. Em relação à tecnologia, a expectativa é de inovação, com o desenvolvimento de linhas de tintas base água, mais amigáveis ao meio ambiente.

No segmento de tintas automotivas originais, a expectativa é de que os volumes produzidos sejam 10% maiores em 2008. A tendência tecnológica também é de evolução, tendo como perspectiva a preocupação ambiental, com o fortalecimento de produtos de baixo VOC (componentes orgânicos voláteis) e base água. “Também deverá ser um ano marcado por investimentos em processos, tecnologia e inovação entre as indústrias de tintas automotivas, que deverão buscar produtividade para compensar as margens de lucro estreitas”, diz Rui Goerck.

Tintas industriais – No segmento de tintas industriais, responsável por 15% das encomendas do setor, o volume produzido em 2007 alcançou a marca de 158 milhões de litros, 7,5% superior ao registrado em 2006, quando foram produzidos 147 milhões de litros. O faturamento do ano foi de R$ 1,16 bilhão, 6,6% superior ao de 2006. O segmento ganhou da inflação no ano, ajudando a reduzir as perdas sofridas na década. Em 2001, o mercado de tintas industriais faturou R$ 823 milhões para um volume produzido de 127 milhões de litros. Em 2007, o faturamento deflacionado com base em 2001 foi de R$ 776 milhões. A média anual de queda do faturamento foi de 1%, calcula a Abrafati.

A expectativa dos fabricantes é de que a expansão dos negócios no segmento de tintas industriais fique um pouco abaixo da registrada em 2007, fechando 2008 com um crescimento de 6%. A valorização do real deve inibir exportações e incentivar as importações de produtos industriais acabados. Por outro lado, os investimentos em obras de infra-estrutura e energia devem aumentar. Assim como os investimentos em novos processos e tecnologias para aumentar a produtividade das indústrias, favorecendo o segmento de tintas para manutenção industrial. A Abrafati não acompanha o desempenho do segmento de tintas gráficas, responsável por um faturamento estimado entre US$ 380 a US$ 400 milhões. A avaliação do mercado é de que o segmento deva ter registrado em 2007 um crescimento de aproximadamente 5%.

Qualidade - Rui Goerck relata que entre as prioridades da Abrafati para 2008 está a ampliação do Programa Setorial de Qualidade (PSQ). Atualmente, informa a supervisora técnica da Abrafati, Gisele Bonfim, o programa analisa três linhas de produtos do segmento imobiliário: tintas látex econômica, massa corrida e esmalte sintético, de 55 marcas. A próxima meta é chegar ao segmento de tintas látex premium. Gisele Bonfim informa que o programa, em uma primeira fase, trabalhou no sentido de sensibilizar os fabricantes de tintas e fornecedores de matérias-primas sobre a necessidade da conformidade a padrões de qualidade. Em uma segunda fase, que já está em andamento, o PSQ trabalha a conscientização das revendas de tintas, por meio de palestras e divulgação. A terceira fase do programa, que será iniciada em 2008, prevê a conscientização do consumidor final. Outra meta, informa Goerck, é levar toda a expertise que a Abrafati já acumulou no segmento de tintas imobiliárias para os outros segmentos representados.