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Com menos feriados e bom desempenho do PIB, 2008 deve manter a tendência de crescimento de vendas na distribuição química

Marcelo Fairbanks

Comércio

Depois de alcançar crescimento de vendas dolarizadas de 30% em 2007, com o total estimado de US$ 4 bilhões, o setor de distribuição de produtos químicos no Brasil prevê desempenho mais modesto para 2008. Em parte porque a variação cambial que favoreceu o desempenho em moeda norte-americana não se repetirá, ou talvez ocorra no sentido oposto, com alguma desvalorização do real.

Embora os resultados setoriais ainda estejam sendo coletados, para posterior análise, Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim), com base nos levantamentos trimestrais, calcula que a rentabilidade tenha sido baixa na atividade. "As nossas despesas são cotadas em reais e subiram muito em 2007, mantendo o lucro líquido por volta de 3%, o mesmo verificado em 2006", afirmou. O resultado pode ser entendido como pouco animador.

Medrano espera que o setor ainda consiga crescer mais em 2008, pelo fato de a distribuição agregar valor à cadeia química. "O setor fez sua lição de casa nos últimos anos, está consciente do seu papel e aumentou sua capacidade operacional, que ainda está com alguma ociosidade", comentou. A expectativa de evolução dos investimentos em construção civil terá a vantagem de estimular o consumo de muitos produtos químicos, usados em itens desde aditivos para concreto até tintas e vernizes. Essa demanda terá reflexos no desempenho da distribuição.

O setor espera que o desempenho do PIB se mantenha positivo pelos próximos anos, de modo sustentável. "O avanço de 5,5% do PIB verificado em 2007 foi modesto perto do desempenho de outros países da região, mas é motivo de comemoração", disse. Para melhores resultados, ele recomenda que o país aprimore a gestão de recursos públicos, evitando despesas de custeio, exatamente as que mais cresceram nos últimos anos. Sem resolver o problema das despesas, a conhecida reforma fiscal, não será possível promover a necessária reforma tributária, pleito mantido pelo setor de comércio há anos.

Medrano salienta que 2008 começou com uma crise financeira nos Estados Unidos, a primeira experimentada pelo governo Lula. "Embora os fundamentos da economia nacional estejam muito bons, com boas contas externas e reservas, a crise americana terá reflexos diretos ou indiretos", alertou Medrano. Isso porque o país depende da exportação de commodities, cujo desempenho reflete a demanda mundial. Além disso, adverte o dirigente setorial, a disponibilidade de recursos internacionais para investimentos no Brasil pode ser reduzida, por contaminação do ambiente econômico. "Isso poderá atrasar alguns projetos importantes, embora não prejudique os que estejam em andamento", comentou. Os juros astronômicos praticados no mercado interno, aliados à estabilidade econômica e política, contribuem para atrair aplicações financeiras. Ao mesmo tempo, prejudicam os consumidores nacionais, cada vez mais dependentes de financiamentos. "O nível de endividamento da população já é preocupante, esperamos que isso não se torne o nosso subprime (o ponto central da atual crise americana)", disse Medrano, também membro ativo da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio).

Em 2007, a venda de automóveis alcançou excelentes resultados, embora dependentes de crédito a longo prazo, com efeito visível em toda a cadeia de suprimentos. Além disso, todo o setor varejista reportou bons resultados em dezembro, indicando a necessidade de recompor estoques. "Janeiro começou com vendas elevadas, mas a crise americana já freou o ímpeto comprador", comentou. Estoques devem ser mantidos baixos no Brasil por causa do elevado custo de capital que representam.

Na sua avaliação, 2008 tende a ser um ano bom para a distribuição química. Os feriados de Carnaval acontecendo no início de fevereiro e o menor número de feriados ajudarão a aumentar as vendas em relação a 2007, ano recheado de dias parados. Além disso, muitas fábricas de vários setores entrarão em operação durante este ano e precisarão comprar insumos químicos direta ou indiretamente. No setor químico, Medrano salientou que a indústria nacional opera com ocupação de capacidades acima de 90% e os projetos anunciados se referem, quase que exclusivamente, a pequenas ampliações, enquanto a demanda local mantém crescimento robusto. "Mantido o quadro, a saída será aumentar as importações, abrindo oportunidades de negócios para os distribuidores", avaliou o dirigente setorial. No entanto, ele recomenda cautela nessas operações para evitar dissabores futuros, a começar pelas flutuações cambiais.

Com décadas de experiência com operações de comércio exterior, Medrano vê muitas diferenças no panorama mundial químico em relação ao de dez anos atrás. As ondas sucessivas de fusões e aquisições resultaram em um ambiente com poucos e gigantes players para cada produto. "Nesse quadro, a oferta de alternativas é restrita e os preços tendem a ser globalizados", explicou.

Em âmbito mundial, os fundos de investimento privados (equity) entraram firme na distribuição química, dominando algumas das maiores companhias. Esse movimento ainda não encontra paralelo nas distribuidoras brasileiras. Para Medrano, a atividade exige um comprometimento muito grande, com mentalidade de longo prazo nem sempre compatível com a expectativa de rentabilidade de investidores puramente financeiros. Essa mudança de paradigma no comando das distribuidoras mundiais será um dos temas em discussão no próximo EBDQuim, encontro anual do setor, marcado para 5 a 9 de março no Resort Vila Galé Marés, em Guarajuba-BA (detalhes no site www.associquim.org.br)

O setor comercial, ao contrário da indústria, apresenta grande facilidade para se adaptar às mudanças tecnológicas. A tendência de buscar produtos de fontes renováveis, como os oleoquímicos, pode ser rapidamente absorvida pelos distribuidores. Mas o forte do setor continua sendo a capilaridade, apoiada por operações logísticas seguras e viáveis. "Quem estiver bem localizado e estruturado, terá mais oportunidades para conquistar negócios", afirmou. Apesar disso, ele comentou que as iniciativas de alguns distribuidores de oferecer serviços logísticos para terceiros não apresentaram os resultados esperados. Na sua avaliação, os clientes querem mais do que logística, demandando o pacote completo de serviços da distribuição química: quadro de vendas, equipes técnicas, capacidade para misturas e embalagem, entre outros itens.