| |
bio &
farma
Celulase,
calcanhar-de-aquiles
A evolução tecnológica da rota
celulolítica ainda não ultrapassou estágios pré-industriais por uma simples
razão: a celulase, enzima que hidroliza celulose, principal componente
estrutural das células vegetais, encarece o processo, tirando-lhe
competitividade.
Em 2001, cada litro de álcool produzido por hidrólise enzimática custava
aproximadamente US$ 1,30 em celulase. Três anos depois, a enzima teve seu
preço reduzido em dez vezes, mas ainda assim não competitivo. Empresas de
alta tecnologia, como Novozymes e Genencor, ambas, coincidentemente,
controladas por grupos industriais dinamarqueses, trabalham no sentido de
remover este último obstáculo ao aproveitamento energético da celulose. A
Genencor acaba de lançar a Accellerase 1000, fruto de dez anos de P&D na
criação de enzima especificamente desenvolvida para usinas de álcool. Assim,
apresenta alta atividade de beta-glicosidase, o que evita o acúmulo de
celobiose (dissacarídio formado com duas moléculas de glicose), prejudicial
ao rendimento da sacarificação.
A Novozymes, por sua vez, anunciou ter concluído em 2005 programa conjunto
de P&D com o National Renewable Energy Laboratory (NREL) (Golden, Colorado,
subordinado ao Departamento de Energia dos EUA), que, ao longo de quatro
anos e ao custo de US$ 17,1 milhões, viabilizou o desenvolvimento de uma
enzima que poderá custar apenas US$ 0,03 a 0,05 por litro de álcool
produzido. Para especialistas, o valor já está próximo daquele considerado
ideal (US$ 0,01/litro), fazendo com que prevejam a esperada proliferação de
usinas celulolíticas a partir da virada da década.
Nova Guiné – Celulases surgiram como subprodutos da Segunda Guerra
Mundial. Preocupados com o excessivo desgaste de roupas e equipamentos nas
selvas do Pacífico Sul, em 1944, militares norte-americanos recolheram
amostras de microrganismos suspeitos de serem os responsáveis pelo prejuízo
e as levaram ao laboratório de pesquisas do exército, em Natick,
Massachussetts. De milhares de amostras, uma, recolhida na Nova Guiné,
mostrou conter um fungo – Thichoderma viride (atualmente denominado T.
reesei, em homenagem ao seu descobridor, Elwyn Reese) – capaz de converter
celulose em seus monômeros.
|
O fungo só
voltou a despertar interesse na década de 60, quando se descobriu que
preparados de enzimas extracelulares eram responsáveis pela ação
hidrolítica. A idéia de aproveitar estas enzimas na conversão de
resíduos celulósicos em produtos de interesse alimentar e energético
surgiu em 1973 e, em 1979, o pessoal de Natick anunciava o isolamento
de cepas mutantes de T. reesei com poder hidrolítico vinte vezes
superior ao da cepa nativa. O microrganismo original continua sendo o
ponto de partida para as celulases comerciais do século XXI. A técnica
para o desenvolvimento de cepas com maior rendimento em celulases
extracelulares compreende a indução de mutações, geralmente com
radiação ultravioleta ou pelo emprego de substâncias mutagênicas, como
nitrosoguanidina, NTG.
Sinergia – Estudadas desde meados do século XX, celulases são
relativamente pouco conhecidas em comparação com outras enzimas, sob
observação desde os tempos em que o cientista alemão Wilhelm Kuhne
cunhava o nome “enzima”, em 1876.
Admite-se a existência de cinco tipos de celulases, das quais ao menos
três formam um complexo sinérgico, responsável pela hidrólise da
celulose: (1) endocelulase – responsável pelo rompimento de ligações
intercadeias poliméricas, que conferem estrutura cristalina à
celulose; (2) exocelulase, cliva segmentos das cadeias expostas pela
endocelulase, gerando celobiose (dissacarídio) ou celotetrose (tetrassacarídio);
(3) beta-glicosidase, hidrolisa celobiose e celodextrinas, gerando
monômeros de glicose (veja figura 1). |

Figura 1 |
Álcool de
celulose no Brasil: devagar, mas anda
Estudo recente do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, prevê a necessidade
de se construir ao menos uma centena de novas usinas de álcool. Estas,
acrescidas das cerca de 330 refinarias ora em operação, responsáveis por uma
produção anual de 17 bilhões de litros, permitiriam o atendimento da demanda
brasileira de álcool em 2010, prevista em 25 bilhões de litros. A demanda
dificilmente deixará de ser atendida, porque já existem projetos para a
construção de cerca de 80 usinas novas até 2012.
Alguma dessas usinas usará matéria-prima celulósica? Provavelmente não. A
saber, existem somente duas instalações piloto em operação no Brasil, ambas
centradas na conversão enzimática de celulose de bagaço. A primeira, projeto
do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobrás (Cenpes) em parceria
com a Albrecht Equipamentos Industriais (Joinville-SC) e escolas de química
da UFRJ e UnB, poderá resultar na construção de planta com escala
semi-industrial em 2010. Reforçando o envolvimento da Petrobrás com o
chamado “álcool de segunda geração” – o superálcool dos norte-americanos –,
há a recente assinatura de acordo com a Novozymes, da Dinamarca, em parceria
com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), de Piracicaba-SP, para o
aperfeiçoamento de celulases, que tornem o álcool de bagaço (R$ 1,80/litro)
competitivo com relação ao álcool de caldo de cana (R$ 0,60/litro).
Esquema do
processo termoquímico/biológico da Bioengineering Resources

Segue também o programa da
Dedini Indústrias de Base, com a entrada em operação de unidade piloto capaz
de processar 1.600 m3 de bagaço/ano, em Pirassununga-SP, em 2002 e que,
desde meados de 2007, conta com aporte de R$ 50 milhões da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Finalmente, há a modesta Bioenzima, de Caruaru-PE, fabricante regional de
celulase utilizada no envelhecimento de jeans – atualmente, o principal
emprego industrial de celulases – e que informa estar desenvolvendo enzimas
eficazes na digestão de lignocelulose de sobras de cactos e bananeiras.
Segundo a empresa, as pesquisas já despertaram o interesse de bananicultores
da Colômbia, um dos principais produtores mundiais da fruta.
|
|