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bio &
farma Michael
Nothenberg é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com
Celulólise e gaseificação
disputam álcool de
segunda geração |
Não há quem questione a
necessidade do desenvolvimento de alternativas para o petróleo, cuja
produção vem caindo em 33 dos 48 principais países produtores. Também há
consenso quanto à escolha do etanol como substituto da gasolina, como
demonstram os cerca de 20 bilhões de litros de álcool produzidos com este
fim em cada um dos dois maiores países produtores, pela ordem, Estados
Unidos e Brasil, em 2007.
O consenso, porém, desaparece quando o tema recai sobre as fontes e
tecnologias apropriadas à produção do etanol. Para o Brasil, a fermentação
alcoólica do caldo da cana-de-açúcar responde pela totalidade da produção.
Os EUA optaram pelo lá abundante milho, cujo amido é convertido em álcool
após hidrólise em açúcares fermentáveis.
Embora a demanda aumentada pela cana não tenha elevado o preço do açúcar no
Brasil, o valor do milho, essencial para fabricar produtos alimentícios e
rações para gado, subiu nos EUA de US$ 1,86 para mais de US$ 4,00 por bushel
(25 kg) entre o final de 2005 e o início de 2007. Assim, não surpreende a
atenção dada pelos americanos do norte, incluindo canadenses, a
matérias-primas alternativas para a produção de álcool, particularmente
resíduos celulósicos.
Pioneiros – A Iogen, corporação biotecnológica sediada em Ottawa,
Canadá, tornou-se a primeira a produzir o superálcool – assim batizado, nos
EUA, o etanol produzido de substratos alternativos – em instalações de
demonstração comercial, a partir de lascas de madeira, em abril de 2004.
Convenciona-se, nesse ramo, denominar plantas piloto as de capacidade
inferior a 3,8 milhões de litros/ano; plantas de demonstração, com
capacidades entre 3,8 e 38 milhões de litros/ano; e plantas propriamente
comerciais, aquelas que produzem acima de 38 milhões de litros/ano.
A GreenField Ethanol, principal produtora de álcool de milho do Canadá,
anunciou, em dezembro de 2006, a formação de joint venture com sua
conterrânea SunOpta, cujos objetivos incluem a construção de diversas
plantas de álcool a partir de lascas de madeira. A primeira unidade
produzirá 38 milhões de litros anuais a partir de dezembro de 2007.
A mesma tecnologia de pré-tratamento e fermentação desenvolvida pela SunOpta
será adotada na Abengoa Bioenergy, cuja planta, em construção na região de
Babilafuente, Espanha, produzirá até 20 milhões de litros/ano a partir de
2008. A China Resources Alcohol Corporation (CRAC) utilizará tecnologias de
pré-tratamento da SunOpta e enzimas da Novozymes dinamarquesa para operar
unidade comercial, alimentada com sabugos e folhas de milho, na província de
Heilongjiang. A capacidade inicial, de 6,5 milhões de litros/ano (final de
2007), deverá ser ampliada para 1,25 bilhão de litros/ano, em 2012. No
Japão, a Bioethanol Japan Kansai inicia em janeiro a produção de álcool
obtido de restos de madeira em usina construída em Osaka, com capacidade
para até 4 milhões de litros/ano. Unidades similares estão em estudo por
iniciativa das montadoras Honda e Toyota, prevendo a futura adição de 3% de
etanol à gasolina japonesa.
Ofensiva americana – Em seu discurso do Estado da União, em 23 de
janeiro de 2007, o presidente George W. Bush anunciou que seu país planeja
produzir 132 bilhões de litros de álcool/ano até 2017. Admitindo-se que a
capacidade norte-americana de produzir álcool de amido de milho não supere o
limite geralmente aceito de 57 bilhões de litros anuais, é de se deduzir que
a maior parte do volume previsto – cerca de 76 bilhões de litros/ano – será
produzido de fontes celulósicas. Para alcançar sua meta, que implica a
redução do consumo nacional de gasolina em 20% até 2012, o governo
norte-americano pretende investir algo como US$ 3,6 bilhões em dez anos.
O primeiro passo, anunciado em março passado, foi a liberação de US$ 385
milhões no financiamento parcial de seis biorrefinarias, selecionadas entre
dezenas de projetos, pelo Departamento de Energia. Com custo total de US$
1,2 bilhão, cobertos com contrapartidas da iniciativa privada, as seis
unidades produzirão, quando concluídas, em 2012, mais de 500 milhões de
litros de álcool/ano.
O que chama a atenção é que somente três dos seis projetos adotarão o
processo “tradicional”, compreendendo pré-tratamento ácido da biomassa
seguido de hidrólise enzimática, separação dos açúcares gerados na
sacarificação de celulose, fermentação alcoólica e destilação. Estas três
refinarias serão instaladas nos Estados da Califórnia (BlueFire Ethanol
Inc.), Iowa (Broin Companies, com participação da E. I. du Pont de Nemours e
da Novozymes), e Idaho (Iogen/Royal Dutch-Shell) e utilizarão ampla
variedade de materiais celulósicos, entre sabugos de milho, palhas de trigo,
arroz e cevada, resíduos florestais e o switchgrass, (Panicum virgatum),
capim alto que prolifera nas pradarias centrais dos EUA.
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Gás de
síntese – As demais refinarias – Abengoa (Norvich, Kansas), Alico
(LaBelle, Flórida) e Range Fuels (Soperton, Georgia) – empregarão
tecnologia inspirada no centenário processo de conversão catalítica de
carvão mineral em combustíveis líquidos, desenvolvido pelos
professores Franz Fischer e Hans Tropsch no Instituto Kaiser Wilhelm,
de Berlim, nos anos 20. Adotada pelos nazistas para obter combustível
alternativo na falta de gasolina de petróleo durante a segunda guerra
mundial, a técnica consiste em promover a combustão parcial do carvão
(gaseificação), produzindo mistura de hidrogênio (H2), com monóxido (CO)
e dióxido de carbono (CO2) – o chamado gás de síntese. Numa segunda
etapa, a mistura gasosa segue para um reator catalítico onde é
convertida em etanol, alcoóis superiores (particularmente butanol), ou
ainda uma espécie de biodiesel, como o SunDiesel, desenvolvido na
Alemanha pela Choren GmbH.
Aplicado à biomassa, a gaseificação torna irrelevante a sua natureza
química, uma vez que todo o material orgânico é uniformemente
convertido em gás. Aparecem, em conseqüência, duas vantagens
significativas em relação à |
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hidrólise enzimática de
celulose: (1) dispensa das custosas e exigentes celulases sacarificantes e
(2) aproveitamento da totalidade da biomassa vegetal, uma vez que quase
metade dela, encontrada na forma de lignina, não é suscetível de hidrólise
por celulases.
Bactérias catalíticas – Paralelamente, surgiu nos EUA uma tecnologia
alternativa à catálise química mediada por sais metálicos. A Bioengineering
Resources, Inc. (BRI), de Fayetteville, Arkansas, que cederá seu know-how
para a construção da já citada refinaria da Alico, na Flórida, otimizou cepa
de bactérias – Clostridium ljungdahlii (assim denominada em homenagem ao seu
descobridor, prof. Lars G. Ljungdahl, da Universidade da Georgia, em 1989) –
capaz de converter por via anaeróbia o gás de síntese em etanol, ácido
acético (subproduto) e água. Os detentores do know-how sugerem o desvio
opcional de 25% do gás de síntese para a produção de hidrogênio
(combustível?) e amônia (fertilizantes), assegurando, nestas condições,
rendimento de 320 litros de etanol por tonelada de biomassa isenta de
cinzas.
Por biomassa, neste caso, entenda-se absolutamente tudo que contenha
carbono, incluindo resíduos industriais, resíduos vegetais (palha, folhagem,
sabugos de milho e bagaço de cana), restos de madeira (serragem, pó de
serra), pneus usados, resíduos plásticos, biossólidos (lama de tratamento de
esgotos) e lixo em geral, especialmente aquele que abarrota os saturados
aterros sanitários das grandes cidades. Também são aceitáveis como
matérias-primas: carvão, coque de petróleo, gás natural e metano, este
último produzido em aterros sanitários e que é um dos supostos responsáveis
pelo aquecimento global.
A geração de energia é outra vantagem apontada pela BRI em defesa de sua
tecnologia. A gaseificação requer temperaturas da ordem de 1.300°C, mas o
gás de síntese deve estar a 37°C ao adentrar no biorreator (veja esquema). O
calor liberado, convertido em vapor, pode atender a todas as necessidades
térmicas do processo, incluindo a destilação, necessária à desidratação do
álcool produzido, e gerar eletricidade por meio de turbinas elétricas. Uma
refinaria de dimensões médias pode produzir anualmente 190 milhões de litros
de etanol obtidos de 700 mil t de resíduos, gerando, paralelamente, 35 MW,
dos quais algo como 21 MW, desnecessários à refinaria, poderiam ser vendidos
à rede pública. Ainda, segundo a BRI, salientando a vantagem ecológica da
tecnologia, a cada 3,8 milhões de litros de álcool produzidos pelo processo,
geram-se 6 mil t de carbono para venda.
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