Outra essência brasileira que fez grande sucesso nessa temporada no salão parisiense foi a de madeiras do Pará. Nesse caso, Morineau lançou mão de uma mistura de notas amadeiradas oriundas de madeiras e raízes típicas da região, como orize, patchouli e priprioca, e cascas de preciosa, utilizando nada menos que 180 diferentes componentes. Também muito apreciadas foram as essências de flores copaíba, flores de urucum, flores de maracujá e de várias orquídeas brasileiras.
“O Brasil tem uma imagem muito boa na Europa e o mundo inteiro sonha com a Amazônia”, afirmou o perfumista. No campo das fragrâncias, o País representa um novo parceiro, que começa a despontar internacionalmente, transmitindo uma imagem jovem e em crescimento, embora ainda sejam produzidas localmente muitas adaptações de perfumes franceses. Apreciada e classificada com bom potencial lá fora, a perfumaria brasileira encontra maior participação em certos países, como Portugal, Espanha e Alemanha, mas, curiosamente, é pouco demandada entre os países latino-americanos, segundo Morineau.

O perfumista possui atualmente uma coleção própria de 7.500 essências ativas e dispõe em seu histórico de mais de 30 mil desenvolvimentos. Como profissional dos mais respeitados no mundo, Morineau fincou raízes no País, inicialmente, trabalhando para a suíça Firmenich. Em 1991, ele fundou a L`Atelier Parfums, uma das mais conceituadas e criativas casas de essências do mercado brasileiro, que também participa e oferece cobertura a criações internacionais. Morineau é freqüentemente convidado a tomar parte de investigações e projetos em perfumaria em conjunto com universidades e institutos de pesquisa. Ele recorda que, anos atrás, interpelado pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, foi o responsável pela descrição olfativa de 340 amostras de óleos essenciais no Pará, trabalho que lhe custou dez dias de dedicação intensa, mas prazerosa, segundo ele.

“Na minha fábrica eu formulo tudo o que sou capaz de sonhar”, afirmou. Só com as suas viagens feitas pelo menos duas vezes ao ano para a Amazônia, nas quais penetra nos recônditos da floresta, com o auxílio de guias e acompanhado por pesquisadores de universidades, Morineau desenvolveu 300 essências de plantas nativas da floresta, adquiridas por muitas empresas para exportação.

No topo das preferências - As essências florais e frutais continuam no topo da preferência européia. As fragrâncias masculinas em voga possuem notas de saída cítricas, são amadeiradas no corpo e contam com fixadores em âmbar e almíscar. “O mercado francês lançou há dez anos as notas gourmets, derivadas de pêssego, morango, vanila, açúcar, chocolate, canela, entre outras especiarias, e elas continuam a exercer influência em vários mercados”, informou o perfumista.
Outra tendência mundial também presente no País é criar fragrâncias em versões feminina e masculina para produtos da mesma marca. Empresas de prestígio internacional lançam a cada temporada novas fragrâncias, utilizando o mesmo nome, e somente mudam a sua cor. Assim ocorre na Dior, com o perfume Poison, o primeiro a dar origem a uma linhagem de sucessores, como Tendre Poison, Hipnotic Poison, Pure Poison e Midnight Poison, atualizados de acordo com as tendências e as evoluções olfativas de cada temporada.

“Com raras exceções, o Brasil ainda não tem grandes extensões de terras dedicadas a grandes projetos e plantações de rosas, jasmins, narcisos, tuberosas e ainda pouco domina as tecnologias de extração de matérias-primas naturais”, afirmou Elisabeth W. Maier, perfumista da Dierberger.

De acordo com ela, o Brasil ainda estaria importando mais de 90% das essências florais extraídas da natureza. O mesmo, porém, não se pode afirmar da oferta de essências cítricas. Óleos essenciais cítricos, como os de limão, bergamota, laranja amarga e mandarina, e de outras plantas, como citronela, palmarosa, vetivert, eucalipto e cipreste, obtidos por prensagem a frio, destilação a vapor, até mesmo por autoclave, integram a oferta brasileira há mais de cinqüenta anos.
A Dierberger, em 1950, iniciou a extração de óleos essenciais obtidos de suas próprias plantações de matérias-primas aromáticas em Barra Bonita-SP, incluindo em sua produção químicos aromáticos, como matérias-primas sintéticas para a composição de fragrâncias. “Mas a própria Dierberger importa absolutos de jasmim, da Índia e do Egito, absolutos de rosas, de Marrocos e da Bulgária, narcisos, do sul da França, entre outros, para desenvolver novas fragrâncias, ao ritmo de pelo menos 400 novas por ano, para abastecer os mercados de perfumaria fina, cosméticos e de produtos de limpeza”, informou Elisabeth.

Aos poucos, porém, a oferta de óleos essenciais obtidos de ativos naturais da Amazônia tende a crescer. A Dierberger também passou a desenvolver há dois anos fragrâncias com o óleo essencial de priprioca, com características amadeiradas, e passou a ofertá-las ao mercado.

Fragrâncias com notas verdes, florais, musk e óleos essenciais cítricos criadas por Elisabeth já foram premiadas. Criações formuladas com óleos essenciais de limão, bergamota, mandarina, cedro, vertivert e sândalo, e também com absolutos de rosas e de jasmins, entre outras, carregam na bagagem o histórico de abrir caminho para que muitos fabricantes de perfumes brasileiros possam exportar.

Um dos bons exemplos desses casos é a criação de Elisabeth para a Surya Henna, tradicional fabricante de henna (colorante natural para cabelos), que ingressou no mercado de perfumaria. “Trata-se da fragrância Sensual, desenvolvida com notas cítricas, florais exóticas e amadeiradas, muito bem-aceita na Europa e que acabou abrindo portas para a exportação do nosso cliente Surya Henna”, informou Elisabeth.

 
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