Além do enfrentamento direto que a GE passará a sofrer com as ofertas praticamente iguais da Veolia em co-geração de energia, também ilustram a forte movimentação em torno desses negócios as concorrências de outras empresas com foco no mercado de tratamento de água para sucroálcool. A Fluid Brasil, de Jundiaí-SP, tem disputado vários negócios com a GE para fornecer sistemas de osmose reversa e, mais recentemente, de ultrafiltração em usinas. A concorrência se intensificou mais nos últimos tempos com a entrada firme da GE nesse mercado, visto que a Fluid Brasil tradicionalmente já atuava no setor de açúcar e álcool.

Segundo o diretor da Fluid, José Eduardo Rocha, o momento pode ser denominado como a segunda grande onda de investimentos das usinas em co-geração de energia, depois de uma primeira, em 2001, iniciada com a famigerada crise do apagão do setor elétrico. A atual começou no ano passado e fez a empresa vender cerca de 20 unidades de osmose reversa para desmineralização de água para caldeiras, com leito misto de resinas de troca iônica e colunas para polimento de condensado, que utilizam resinas específicas com alta resistência a temperaturas elevadas, de até 150ºC.

Como prova da disputa acirrada entre as empresas, a Fluid também buscou parceria para começar a vender a tecnologia de ultrafiltração nesse mercado, como pré-tratamento físico para remover sólidos suspensos e assim clarificar e preparar a água para a desmineralização em osmose reversa. O acordo aí é com a holandesa Norit, que montou escritório recentemente em Jundiaí e cuja tecnologia de ultrafiltração se baseia em membranas de fibra oca, dispostas em vasos tubulares e com acionamento a pressão in-side-out (de dentro para fora).

Com a tecnologia holandesa, a Fluid já conseguiu vender uma unidade de 200 m³/h para a Usina Interlagos, em Pereira Barreto-SP, com start-up em março de 2007.
De acordo com Rocha, a água de alimentação da usina do grupo Bellodi é de rio e sofre muitas alterações de qualidade em períodos de chuva. Essa característica inconstante tornou a aplicação com ultrafiltração uma saída bastante racional, tendo em vista que, ao contrário de uma ETA convencional, a tecnologia consegue manter os padrões de qualidade sem intervenções, como por exemplo a turbidez sempre abaixo de 0,1 NTU.
Montada em dois skids, com 48 membranas tubulares cada, a estação apenas necessita de um filtro anterior para reter sólidos grosseiros e, operando com a água clorada para evitar contaminações, possui tolerância de até 250 ppm de cloro livre.

Depois de tratada, 60 m³/h seguem para osmose reversa, de onde vão para uma caldeira de 67 bar para co-geração. “Além de ser 100% automática e produzir água de ótima qualidade, ela consome apenas 1% do cloro normalmente consumido em uma ETA”, explica. As unidades da Norit, montadas pela Fluid Brasil, têm cinco anos de garantia.

Com acordo também com a Dow Química, de quem revende e utiliza em suas unidades as membranas de osmose reversa FilmTec e as resinas de troca iônica Dowex, Rocha vê sinais de modernização nas usinas no aspecto da co-geração de energia. Isso se deve principalmente à rentabilidade que o insumo energético tem trazido a muitas delas.

Tradicionalmente, as usinas param a co-geração nos quatro meses e meio da entressafra, rodando sete meses e meio. “Nessa nova fase, muitas estão comprando bagaço para estender a co-geração na entressafra, parando apenas três meses”, diz. Isso significa, logicamente, mais tempo de venda de serviços em tratamento de água e, portanto, torna as negociações mais rentáveis.

Para se ter uma idéia da “boa safra” do setor, o lado mais preocupante para os fornecedores tem sido o excesso da demanda. Fabricantes de caldeiras, por exemplo, estão pedindo de 24 a 36 meses para atender aos pedidos. E os próprios fornecedores de tratamento de água pedem até 150 dias para fazer entregas. “Para a safra de 2008 já está complicado se comprometer”, diz Rocha.


Vinhaça na mira – Na esteira da nova onda de investimentos em sistemas de água na indústria sucroalcooleira, há outros movimentos de modernização de caráter positivo.

Além do uso mais difundido das tecnologias de membranas para a clarificação e a desmineralização de água, que veio para responder à demanda das caldeiras de maior pressão, há a expectativa de que o setor se inicie em um campo até então inexplorado: o de tratamento de efluentes.

A médio ou longo prazos, os especialistas crêem que a vinhaça, o efluente da produção sucroalcooleira, precisará ser tratada. Até o momento ela é descartada diretamente no canavial, sem prévio tratamento, para aproveitar seu grande valor de fertiirrigação, visto ser rica não só em água, mas em um nutriente essencial à lavoura, o potássio. A avaliação é de que há um movimento entre os órgãos ambientais para começar a criar mais restrições às usinas, em virtude dos possíveis impactos sobre o subsolo e a água subterrânea sofridos pelo despejo indiscriminado da vinhaça. Apesar da “vista grossa” das autoridades, despreocupadas até o momento em investigar ou monitorar os efeitos da fertiirrigação com vinhaça, que arrasta consigo outros contaminantes, a possível mudança de comportamento é notada por usineiros e fornecedores mais atentos, que começam a estudar as melhores alternativas tecnológicas para o tratamento.

A GE, por exemplo, embora reconheça por enquanto não ser viável vender as soluções, principalmente pela falta de obrigatoriedade, já conta com uma rota pronta para o tratamento da vinhaça. Segundo explica o gerente Paulo Lima, a GE ofertaria primeiramente o uso de digestores anaeróbicos para a vinhaça. A digestão geraria o gás metano, por sua vez tornado combustível para alimentar motores elétricos da empresa Jenbacher, pertencente ao grupo, para produzir energia. Cuca Jorge
Lima: usinas precisam ver água como mais um produto

Já o efluente do biodigestor seguiria para flotação e daí para uma estação de MBR (biorreator a membranas) que prepara, com a remoção de contaminantes orgânicos, o efluente para irrigação ou outros usos na usina ou então para a desmineralização em osmose reversa. Os nutrientes, principalmente o potássio, seriam separados e concentrados e continuariam a ser empregados como importante fertilizante para a lavoura.
 

 
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