| |
Mesclados a assuntos
geralmente presentes em congressos metrológicos como certificação ISO/IEC
17025 ou cálculos de incerteza de medição, houve apresentações tratando de
assuntos pouco usuais, caso da palestra sobre certificação sensorial de
bebidas e alimentos na Itália, proferida por Luigi Odello, professor de
análise sensorial em várias universidades italianas, presidente do Centro
Studi Assaggiatori e secretário-geral do Instituto Nacional Expresso
Italiano.
Odello lembrou que o ser humano percebe tudo o que o rodeia por seus
sentidos, ou seja, por análise sensorial. O Centro Assaggiatori (centro de
degustação) estuda e aplica métodos objetivos para descrever o que é
percebido de produtos e serviços, além de treinar pessoas a usar de modo
mais apropriado seus paladares e olfatos.Fundado em setembro de 1999, é o
mais importante centro de análises sensoriais na Itália.
|
Por meio de suas pesquisas, o
centro desenvolveu métodos inovadores que permitem aplicar análise
sensorial em várias indústrias de alimentos e bebidas, como as de
vinho, massas, café e outras. O centro apoiou várias atividades
relacionadas à degustação, como a criação do Istituto Internazionale
Assaggiatori Caffé (Instituto Internacional de Provadores de Cafè), a
Accademia della Birra (Academia da Cerveja) e outras similares. |
Divulgação |
 |
| Rosemeire: painel sensorial para odor |
Em julho de 1998 foi
fundado o Istituto Nazionale Espresso Italiano (Instituto Nacional do
Expresso Italiano), com o principal objetivo de salvaguardar e promover o
café expresso italiano original. Foi desenvolvido um processo para
conseguir um café expresso padronizado de alta qualidade e de paladar
único.
O grupo de trabalho buscou uma forma de classificar café usando outros
métodos que não o químico, isto é, a determinação da composição
nutricional do café (teor de carboidratos, polissaturados etc). Odello
apresentou em detalhes o método sensorial empregado, ilustrando-o com
vários gráficos.
|
Divulgação |
 |
A seguir, o centro introduziu
o “certificado sensorial”, como garantia de satisfação para os
consumidores. Hoje o Instituto é uma das mais importantes associações no
mercado de café, conferindo um certificado de conformidade de produto. As
empresas que conseguem aprovação têm o direito de usar o selo de
conformidade apresentado na Figura 1.
Para garantir qualidade aos consumidores que optarem por beber um café
expresso em um bar exibindo este selo, uma especificação técnica bastante
exigente foi instituída, requerendo o uso de grãos selecionados,
equipamentos certificados e pessoal licenciado. O cumprimento das três
condições é supervisionado pelos auditores do Instituto, que lá aprendem a
distinguir, em uma xícara de café, a origem dos grãos, a qualidade do
torrefador, a eficiência das máquinas e a habilidade do preparador.
Odello é autor do livro Espresso Italiano Tasting, o primeiro dedicado à
análise sensorial e à apreciação dessa famosa bebida. A publicação é um
resumo de tudo o que foi feito nos últimos dez anos no campo da análise
sensorial de café pelo Instituto, incluindo como degustar um café,
características positivas e possíveis defeitos presentes, escala e método
de avaliação sensorial, geografia do local e modo de produção, arte da
mistura e da torrefação, e equipamentos necessários para o preparo de um
excelente café.
|
Divulgação |
 |
Ainda na área de análise
sensorial, Rosemeire Alves, pesquisadora da Sabesp (Companhia de
Saneamento Básico do Estado de São Paulo), proferiu a palestra “Técnicas
de avaliação de gosto e odor em águas de abastecimento: método analítico,
análise sensorial e percepção dos consumidores”.
A palestrante ressaltou que problemas de gosto e odor em águas de
abastecimento são de natureza complexa, de solução tecnológica difícil e
onerosa, e sua presença na água tratada pode causar transtornos
consideráveis entre os consumidores.
Muito embora uma água potável do ponto de vista microbiológico, incolor,
isenta de turbidez, de compostos orgânicos e inorgânicos, seja considerada
segura para o consumo humano, a presença de gosto e odor causa
desconfiança nos consumidores, podendo colocar em xeque a operação e a
confiabilidade da companhia de saneamento como um todo. A presença de
gosto e odor em águas de abastecimento pode ser ocasionada por vários
motivos, entre eles a presença de compostos orgânicos originários de
fontes biogênicas. É sabido que certas algas cianofíceas (algas azuis) e
actinomicetos originam em seu metabolismo alguns compostos orgânicos que
conferem gosto e odor indesejáveis às águas de abastecimento.
De acordo com a palestrante, o composto geosmina, produzido por culturas
de actinomicetos, embora inócuo à saúde, é o causador de gosto e odor
muitas vezes identificado pelos consumidores como “mofo” ou “BHC”. Um
segundo composto, denominado 2-metilisoborneol (MIB), também causa
problemas na água, deixando-a com gosto de “terra”. O emprego de técnicas
analíticas instrumentais para a identificação e quantificação desses
compostos não é comum entre a maioria das companhias de saneamento, pois o
investimento necessário em equipamentos e mão-de-obra qualificada é
elevado. Desse modo, o desenvolvimento de técnicas alternativas para a
identificação e quantificação desses compostos orgânicos tem sido
considerado e, entre elas, pode-se citar a utilização do painel sensorial.
O trabalho de Rosemeire objetivou a avaliação da eficiência e
confiabilidade de um painel sensorial na identificação de gosto e odor em
águas de abastecimento, e conseqüentemente na prevenção de reclamações por
parte dos consumidores. Foram feitas comparações entre a percepção do
painel sensorial, a da população e resultados de análises de doseamento
dos compostos por CG-MS (cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de
massa). A pesquisa foi desenvolvida em estações de tratamento de água (ETAs)
que abastecem parte da Região Metropolitana de São Paulo: a de
Guarapiranga e a do Alto Tietê. Tais sistemas foram escolhidos por
possuírem reservatórios de acumulação que apresentam ocasionalmente
problemas de gosto e odor. O intervalo de tempo considerado no estudo foi
de três anos (2002 a 2004).
Quantificações analíticas dos compostos orgânicos causadores de gosto e
odor foram efetuadas para a água bruta e tratada de ambas as ETAs, em
paralelo às análises sensoriais realizadas por técnicos da Sabesp.
As classificações obtidas deram origem à roda de gosto e odor (Figura 2),
que abrange todas as sensações documentadas para águas de abastecimento
público.
A Figura 3 apresenta os resultados de concentração de MIB, geosmina e
intensidade de gosto e odor para a água final produzida pela estação de
Guarapiranga no período de 2002 a 2004 e a Figura 4 apresenta as
ocorrências de reclamações dos consumidores e concentrações de MIB e
geosmina para os anos de 2002. Essa Figura mostra que no início de 2002
ocorreram episódios de concentrações de geosmina na água final em torno de
600 ng/L a 3.000 ng/L, gerando em torno de 100 a 150 reclamações diárias
de consumidores. Os resultados obtidos pelo painel sensorial são
compatíveis com tais valores.
Segundo Rosemeire, o painel sensorial mostrou grande sensibilidade na
identificação de odores, sendo a análise sensorial muito eficiente para a
previsão do aparecimento de odores associados a “mofo” e “terra”, em
virtude da presença de MIB e geosmina, assim como para a detecção da
presença dos mesmos na ETA. Finalizando, a palestrante recomendou que
companhias de saneamento, que possuam mananciais com problemas de gosto e
odor, implantem análises sensoriais baseadas na técnica de painel
sensorial, em face de sua potencialidade de previsão e identificação de
gosto e odores presentes na água tratada que possam causar inconvenientes
à população, bem como por permitir um melhor controle das técnicas de
tratamento que venham a ser adotadas em suas ETAs para a minimização
dessas ocorrências.
|
|