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Logistica
Ferrovias sem Sassmaq e falta de unidade fiscal afetam
interligação de modais
Marcelo Furtado
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Ilustração: Gian
Paolo La Barbera |
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A evolução de uma das principais tendências na logística e transporte
de produtos químicos dos últimos anos, a intermodalidade, está sob risco
de não ter o desenvolvimento esperado. Seu potencial de tornar mais ágil e
seguro o comércio químico, ao integrar os modais ferroviário e de
navegação de cabotagem às rotas rodoviárias, ainda a matriz predominante
no País, é abalado por desentendimentos setoriais e por questões de ordem
tributária. Trata-se aí de novos complicadores para um mercado acostumado
a sofrer com gargalos estruturais, como as más condições de estradas e
ferrovias e o alto custo e a baixa competitividade dos portos brasileiros.
O primeiro problema envolve um recente desacordo entre a indústria química
e as transportadoras ferroviárias, com potencial de reduzir ou acabar com
os planos de expansão de uso de trens para transportar produtos químicos
no Brasil. O imbróglio nasceu da tentativa de continuidade de extensão ao
modal ferroviário, pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim),
de seu Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade
(Sassmaq) para transporte de produtos químicos. Já bem-sucedido no modal
rodoviário, no qual desde 2001 certificadoras qualificaram 500
transportadoras que operam para associados da Abiquim, a idéia era criar
um módulo similar para avaliação das transportadoras ferroviárias. O
objetivo seria o mesmo: aumentar o rigor nos procedimentos de qualificação
do transporte, tornando a certificação condicionante obrigatória para
prestação de serviços aos 130 signatários da Abiquim, responsáveis por
quase 80% da produção química nacional.
Para elaborar o novo módulo, a Abiquim convidou a Associação Nacional dos
Transportadores Ferroviários (ANTF), que reúne todas as concessionárias
privadas da malha ferroviária nacional. Depois de um período de
discussões, porém, recentemente a comissão de transportes da Abiquim
recebeu uma carta oficial da ANTF, onde seus associados se consideraram
incapazes de, pelo menos até 2010, adotar os procedimentos do Sassmaq.
Segundo o coordenador da comissão, José Eduardo Sartor, a negativa da ANTF
pode representar uma mudança de via da indústria química, que vinha nos
últimos anos procurando aproveitar as alternativas ferroviárias, um pouco
mais disponíveis depois da privatização do setor no final da década de 90.
“A prioridade nossa, no transporte químico, é a segurança. Se eles
realmente não quiserem seguir o Sassmaq como ferramenta de adequação aos
nossos padrões, a indústria no futuro não vai contratar a ferrovia”,
explica Sartor. Isso porque a certificação do novo módulo, depois de
lançada, passa a ser obrigatória aos associados e parceiros
(transportadores e empresas de serviço) da Abiquim. E, pelas contas de
Sartor, o módulo ferroviário, mesmo sem o apoio da ANTF, estará pronto no
segundo semestre de 2008. Na sua opinião, além da decisão dos
transportadores ferroviários representar uma possível perda na receita
provinda dos embarques com produtos químicos, em rota de crescimento
ultimamente, haverá ainda o desperdício de uma ótima oportunidade de
modernização desse modal.
“São incontestáveis os ganhos que as transportadoras rodoviárias e os
operadores de armazéns de granéis líquidos conquistaram com o Sassmaq,
além da indústria, é claro, que diminuiu o número de auditorias em seus
contratados e passou a contar com prestadores de serviços mais
organizados”, diz. Sartor recorda ainda que no começo, principalmente no
caso do Sassmaq de armazenagem de granéis líquidos, houve princípio de
resistência, rapidamente superada até mesmo por uma questão de
sobrevivência no mercado. Mas com o tempo, segundo ele, as empresas
passaram a perceber ganho de competitividade, com uma série de reduções de
custos advindas sobretudo do maior controle no manuseio dos produtos
químicos.
O Sassmaq, no caso das transportadoras rodoviárias, apesar de valer desde
2001, passou a ser compulsório apenas em 2005, seguindo o novo critério
adotado pelo Atuação Responsável, também obrigatório para os associados. A
partir daí, as empresas só poderiam contratar transportadoras para granéis
com avaliação Sassmaq e, desde o ano passado, também as de produtos
embalados. Embora no caso dos terminais de armazenagem líquida ainda não
exista obrigação velada, o fato de ser recomendado pela Abiquim,
principalmente por um conjunto de 15 empresas-líderes (os maiores grupos
químicos), já fez todos os terminais de granel líquido do Porto de Santos
se certificarem, dois em Camaçari-BA (Tequimar e Vopak) e um outro estar
em preparação para avaliação em Suape-PE (também Tequimar) no segundo
semestre.
No previsto Sassmaq para o modal ferroviário, a idéia é fazer avaliações
por trechos das malhas. Para tanto, mesmo sem o apoio das operadoras,
Sartor trabalha com a possibilidade de realizar uma avaliação piloto no
final deste ano. Há um pré-acordo de ser feita no trecho
Santos-Guaratinguetá, em São Paulo, operado pela MRS Logística para
transportar vários produtos químicos até o complexo industrial da Basf.
Como esta empresa de origem alemã é uma das líderes na Abiquim, muito
atuante na implantação e divulgação de sistemas de gestão, fica
estabelecida aí uma quase obrigatoriedade de a MRS corresponder às suas
expectativas. Seria um efeito, aliás, similar ao possível de ocorrer com
as demais operadoras, que no afã de continuar a atender seus clientes
químicos poderiam optar pelo Sassmaq. Caso contrário, os transportadores
rodoviários continuarão a dominar o mercado químico.
Se o desacordo com os operadores ferroviários continuar, o Brasil perde
uma oportunidade muito grande de seguir padrões internacionais de
segurança no transporte químico. Na Europa, continente onde a extensão
ferroviária é de histórica notoriedade, resoluções da comunidade econômica
proibiram o transporte de gases liquefeitos via trem. Com isso, uma
quantidade imensa de cloro, amônia e várias outras commodities químicas
saíram das estradas, para o bem da segurança das cidades.
“Será lamentável se o Brasil realmente não aproveitar esse meio de
transporte ideal para o setor químico”, diz. No próprio caso dos gases
liquefeitos, e de vários outros produtos perigosos, a opção seria muito
mais segura. Mas, para isso, alerta Sartor, a atual operação brasileira,
apesar de já fazer algumas dessas manipulações, precisaria ser
modernizada, justificando a adoção ao Sassmaq. “Há muitos acidentes com
trens de carga no Brasil, não muito divulgados por ficarem em lugares
afastados das cidades”, completa.
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