Atuali dades

AMBIENTE

Algas provocam morte de peixes na Bahia


Milhares de bagres, parus, carapebas, pescadas amarelas e outros peixes amanhecidos mortos em praias e ilhas da Baía de Todos os Santos – cerca de 50 toneladas só nos primeiros dez dias de março – produziram imagens de forte impacto ambiental e consternaram os baianos, desconfiados de que se tratava de poluição química da Petrobrás.
 Tal sentimento precipitou uma acirrada polêmica e causou muita indignação e protestos, até um laudo atribuir a ocorrência ao mesmo fenômeno que formou zonas desprovidas de peixes, crustáceos e moluscos no Golfo do México:

Jornal:A Tarde

Peixes mortos ocuparam praias da Baía de Todos os Santos

 a presença exagerada de nutrientes no ambiente aquático (eutrofização), notadamente fósforo e potássio, responsáveis pela proliferação desordenada de algas e microalgas assassinas em lagos, represas e nas águas costeiras – golfos, baías e enseadas. O fenômeno, chamado de Floração de Algas Nocivas (FAN), ou maré vermelha, esta uma referência à coloração vermelho-ferruginosa vista na água, começa a se tornar recorrente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde já causou prejuízo à criação de ostras e mexilhões (maricultura).
 
Fred Passos A floração, a depender da microalga que a provoca, causa a morte dos seres marinhos por ação das toxinas que libera, ou apenas pela posterior decomposição da massa, seguida da gradual redução da concentração de oxigênio dissolvido na água, até a ausência completa (anoxia), como ocorreu na Bahia.
Caldas: grande volume de ferro
disparou mecanismo nutricional

A mortandade desencadeou medidas emergenciais, em clima de quase pânico: o Ibama proibiu a pesca por sessenta dias e prometeu seguro mensal de um salário mínimo aos pescadores; a secretaria de combate à pobreza distribuiu cestas básicas; as autoridades ambientais alertaram para o consumo do pescado; a empresa estadual de apoio à pesca (Bahiapesca) confiscou estoques de peixes e mariscos; turistas e banhistas sumiram de localidades praianas e ilhas; e organizações sociais, lideranças comunitárias e ONGs ambientalistas reverberaram alto a favor da compensação social e punição do culpado, na presunção de que seria a Petrobrás, indignação que perdurou até ser divulgado o laudo que atestou a ação da microalga assassina, a Gymnodinium sanguineum. Uma “conjunção de fatores climáticos e disponibilidades de nutrientes”, indica o laudo, teria favorecido a proliferação desta criatura pertencente à divisão dos dinoflagelados – “a que inclui as microalgas que possuem dois flagelos”, explica o biólogo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Oberdan Caldas.

Os pesquisadores concluíram que a eutrofização na Baía de Todos os Santos procedeu do aumento da vazão da Barragem de Pedra do Cavalo, de 10 mil litros/s para quase 800 mil, volume despejado no último trecho do Rio Paraguaçu, próximo da embocadura na Baía de Todos os Santos, no final de fevereiro. Com a água do Paraguaçu, enorme quantidade de fósforo e potássio chegou à baía, juntando-se a um determinado volume de ferro absorvível, presumivelmente procedente de um estaleiro naval e apontado como intensificador do metabolismo da microalga. “O ferro é o gatilho, dispara o mecanismo químico da nutrição”, explica Oberdan Caldas. A cor vermelha da microalga assassina, expressa no termo sanguineum, designador da espécie, é causada pelo acúmulo de ferro nessa célula, esclareceu.

A falta de saneamento nos 81 municípios da bacia do Paraguaçu e conseqüentes despejos no rio juntamente com restos de atividades agropastoris (produção de frutas e legumes na Chapada Diamantina, às margens do Rio Paraguaçu), garimpos, desflorestamento, assoreamento e mesmo, já no estuário, a natural decomposição da folhagem dos manguezais estão entre as prováveis contribuições ao aumento no suprimento dos dois nutrientes. A intensa insolação e as ausências de chuva e vento forte no litoral em fevereiro, situação marcada por águas transparentes que ampliam a zona fótica, a faixa em que a luz penetra na água, são os fatores atmosféricos relacionados à correlata e intensa ação da fotossíntese.

A essas causas apresentadas no laudo, a presidente do Conselho de Recursos Ambientais (CRA), Beth Wagner, acrescenta a carência de esgotamento sanitário nos municípios situados no entorno da Bahia e conseqüentes lançamentos no meio ambiente. “A poluição crônica da Baía de Todos os Santos nunca passou por tratamento conseqüente”, acusa. Ela anunciou a formação de um grupo de trabalho para apontar no curto prazo as providências remediadoras requeridas e, paralelamente, fazer o monitoramento preventivo. A avaliação dos parâmetros quantitativos de nitrogênio, fósforo e oxigênio é a primeira atribuição da comissão. A presidente do CRA considera que abortar o ciclo das próximas marés vermelhas não será possível, mas com base nas informações serão estabelecidas as condições oceanográficas que indicam a iminência da ocorrência, o grau de periculosidade indicado pela espécie da alga e providências atenuadoras, caso sejam necessárias.

Um dos parâmetros para as pesquisas e estudos que começaram a ser feitos em decorrência do fenômeno, explica Oberdan Caldas, é a eutrofização do Golfo do México, proveniente das águas do Mississipi contaminadas pelos restos de fertilizantes orgânicos das fazendas de milho e suínos dos Estados de Illinois e Iowa. Aproximadamente 12 mil km² do golfo passaram a ser considerados “zona morta” pelos pescadores. Apresentam ausência de crustáceos e peixes. A remedição, em curso, passa pela redução de 20% na aplicação de fertilizantes, aperfeiçoamento dos métodos de tratamento dos resíduos suínos e recomposição de áreas alagadas próximas ao delta do Mississipi, na costa da Lousiana, para que funcionem como filtros dos nutrientes – execuções que estão exigindo 4,8 bilhões de dólares.

Até a divulgação do laudo que comprovou a ação da Gymnodinium sanguineum, emitido com base em exames feitos em três Estados e seis laboratórios e assinados por químicos e biólogos de universidades e centros de pesquisa da Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as autoridades ambientais imaginavam duas hipóteses para a ocorrência ambiental: um metabolismo envolvendo “alguns organismos marinhos” – algo até então inédito na Baía de Todos os Santos, pelo menos na amplitude apresentada – ou, pura e simplesmente, contaminação de origem química – hipótese que supriu a suspeita contra a Petrobrás, já latente em razão do histórico de vazamento de óleo ocorrido no terminal marítimo da Refinaria Landulpho Alves, de Mataripe (RLAM), atingindo praias e manguezais. O aparecimento de urubus mortos em uma praia, ocorrência posteriormente atribuída a fatores alheios, com base em análises que incluíram cromatografia e espectrometria, criou um ambiente de quase pânico. A cada dia que as autoridades repetiam que ainda não havia uma resposta precisa, mais pessoas ficavam convencidas de que estariam empenhadas em sonegar a culpa da Petrobrás.

O laudo indicou também que além da asfixia natural, causada pela anoxia, outro fator concorreu para a mortandade dos peixes: a asfixia mecânica, esta resultante do bloqueio do sistema respiratório dos peixes pela massa em decomposição retida nas guelras. Essa massa de consistência gelatinosa, explica o biólogo, procede do citoplasma, a porção da microalga formada em torno do núcleo e revestida pela membrana plasmática. Com tanta fartura de nutriente à disposição, a alga “engorda”, – cresce e rompe a membrana plasmática e libera o citoplasma, concluindo seu ciclo reprodutivo. O outro efeito nocivo possível de ser provocado por floração de algas, a liberação de toxinas, não é causado pela Gymnodinium sanguineum – é comum a algas de outras espécies dos dinoflagelados, assim como de outros grupos como as cianobactérias, diatomáceas e clorofíceas, indica a literatura.

Os pesquisadores que assinaram o laudo esclareceram que quando causada pela Gymnodinium sanguineum, a maré vermelha não é nociva à saúde humana, justamente pela não-produção de toxinas, como chegou a se temer. Mesmo assim, a proibição de pescar foi mantida, a pretexto de recuperar o estoque pesqueiro – mas, na verdade, para justificar o compromisso de doar cestas básicas aos pescadores. Posteriormente, para trazer de volta turistas e banhistas, autoridades estaduais da área ambiental e do turismo foram a Saubara, uma das comunidades pesqueiras atingidas, para banhar-se no mar e comer moqueca, como apareceram nas fotos. A maré vermelha havia desaparecido espontaneamente, encerrou o ciclo, explicaram.                                                                   José Valverde
 

O DESABAFO DA PETROBRÁS

Enquanto não havia uma explicação precisa para a mortandade dos peixes na Baía de Todos os Santos, a Petrobrás ficou sob fogo cerrado de pessoas como o dirigente da Fundação para o Desenvolvimento das Comunidades Pesqueiras Artesanais, que previu, com base em seu próprio laudo, a dizimação da população de alevinos, “certamente por efeito químico”, e a conseqüente desestabilização social nas comunidades pesqueiras pelos precisos cinco anos necessários à recuperação ambiental. “Cesta básica não é suficiente, tem de haver uma política de compensação”, bradou. Valores para a multa que a Petrobrás pagaria, sempre acima dos R$ 50 milhões impostos pelo governo do Rio em razão do desastre com uma plataforma de petróleo, foram previstos. Pescadores apareceram na TV relacionando os locais da mortandade ao trecho marítimo de um gasoduto recentemente inaugurado para transportar o gás do campo marítimo de Manati, no litoral sul da Bahia, à Grande Salvador.
Outros apontaram supostas descargas de navios petroleiros ou sugeriram que gases estariam emanando de um desativado campo marítimo de petróleo, o D. João Mar. “Até hoje pedimos que a limpeza do campo seja concluída”, protestou um deles, queixando-se sobre o fato de que as redes de pesca engancham nos tubos. Ambientalistas desconfiaram que bombas atiradas clandestinamente para matar cardumes poderiam ter danificado o gasoduto. Imagens de robalos de quatro quilos agonizando ou debatendo-se em busca de oxigênio enquanto eram recolhidos ao barco para serem
   encaminhados para análises ampliaram o efeito das declarações.Essas versões e reações repercutiram com força nos jornais e nas declarações de parlamentares, enquanto as autoridades ambientais não tinham uma resposta.
Um dia depois de o laudo ser divulgado, a Petrobrás, que no decorrer do episódio se portou como colaboradora silenciosa da ação dos pesquisadores, desabafou: em nota publicada nos jornais, considerou-se vítima de “acusações irresponsáveis” e “denúncias difamatórias e levianas” relacionando o desastre ambiental a supostos vazamentos no gasoduto. Acusou veículos de comunicação de terem sido “implacáveis na acusação açodada” e se referiu a parlamentares ansiosos por manchar sua imagem corporativa. Alegou que desde o início disponibilizou ao CRA toda a infra-estrutura para ajudar a identificar as causas da mortandade de peixes – helicópteros, embarcações e a estrutura do seu Centro de Pesquisas. E assegurou que o monitoramento dos dutos de óleo e gás na Baía de Todos os Santos é constante, “por sobrevôo e por barcos”.
Divulgado o laudo, houve protestos dos que permaneceram acreditando na culpa da Petrobrás, e a conclusão: para estes, se um desastre ambiental ocorrer, é melhor que não seja por causas que possam ser consideradas naturais, e sim por negligência de uma grande empresa, que possa ser processada. É o mandamento. No próprio auditório do Instituto de Biologia da UFBA, em um seminário sobre o evento, os inconformados se manifestaram, alguns deles professores e biólogos que continuaram duvidando da conclusão.
 
  <<< Anterior