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AMBIENTE

Cimento com fotocatalisador degrada poluentes do ar

Além dos majestosos edifícios que desafiam a gravidade e a criatividade humana, o que megalópoles como São Paulo, Kuala Lumpur, Nova York ou Pequim possuem em comum? Acertou quem apostou na
poluição, um mal moderno típico das economias com sistemas energéticos que privilegiam o uso do petróleo como fonte de energia.
Os meios de transporte rodoviários, as centrais termoelétricas, os combustíveis para o aquecimento doméstico, a combustão do lixo orgânico e a carência de investimentos em malha viária urbana que incentive o uso do transporte coletivo são os maiores vilões da poluição atmosférica que, na Europa, é conhecida com o neologismo “smog”.
 
Junção das terminologias smoke (fumaça) e fog (névoa), o smog é um problema concreto que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), provoca, anualmente, 3,5 mil mortes, 30 mil ataques de asma
e 31 mil crises de bronquite aguda em jovens com menos de quinze anos. Nem mesmo a Itália dos belos cartões-postais escapa de tal situação.

Divulgação

Italcementi faz o Active X na fábrica de Bergamo

 A cada ano a Associação Legambiente alerta a população sobre o crescimento exponencial da poluição PM10, partículas minúsculas, geradas principalmente pela queima de combustíveis fósseis ou de outros tipos, que atingem as vias respiratórias, levando consigo substâncias cancerígenas. Mas as PM10 não são as únicas grandes  inimigas da qualidade do ar. Monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, anidrido sulfuroso, chumbo, benzenos e dioxinas – resultado não intencional como, por exemplo, da produção de  pesticidas e de outros compostos clorados – também colaboram com o aumento da quantidade de resíduos poluentes na atmosfera.

Na Itália, em particular, outro agravante é o elevado número de veículos: uma média de 58 para cada cem habitantes. Na última década, estima-se que as emissões de CO2 cresceram cerca de 18% e, na tentativa de sanar o problema, os paliativos adotados pelas administrações locais foram inúmeros. Em Roma, além de proibir a circulação de automóveis não catalisados no centro histórico da cidade, em datas específicas a prefeitura incentiva os chamados “domingos a pé”. Seguindo o exemplo de alguns países europeus como a Inglaterra, em outras localidades da Itália, uma perspectiva estudada é o car sharing, ou seja, a possibilidade de filiar-se a um clube específico e, na qualidade de membro, utilizar um dos veículos da rede quando for necessário.

De qualquer maneira, não é somente no âmbito institucional que a  qualidade do ar preocupa. No segmento industrial há quem soube transformar a poluição em uma grande oportunidade de negócios.  É o caso do grupo italiano “Italcementi”.

Localizada na cidade de Bergamo, no norte do país, a empresa é o quinta produtora mundial de cimento. Recentemente, depois de dez anos de pesquisas intensivas, o grupo anunciou o lançamento
do cimento antipoluição chamado TX Active. Na realidade, trata-se de um produto com um princípio ativo fotocatalítico capaz de modificar a velocidade de uma reação química por meio da ação da luz. Na prática, os fotocatalisadores estimulam a formação de reagentes oxidantes que decompõem as substâncias orgânicas e inorgânicas presentes na atmosfera, evitando assim o acúmulo de poluentes. “A reação fotocatalítica induzida pelo TX Active transforma os poluentes em sais
inócuos para o ambiente e a saúde”, explica Enrico Borgarello, diretor de pesquisas e desenvolvimento do grupo. “Provas de laboratório confirmaram que basta uma radiação de apenas três minutos para se obter uma redução de agentes poluidores de até 75%”, completa.
Surpreendentemente, os testes realizados pela empresa demonstraram que nas proximidades de um edifício construído com a tecnologia TX Active se registra uma sensível redução de substâncias
poluentes como o óxido de nitrogênio, óxido de carbono, PM10 e óxido de chumbo.

O rigor das análises conduzidas pela Italcementi também permitiu que a empresa superasse o teste intitulado “Photocatalytic Innovative Coverings Applications for Depollution Assessment” (PICADA), promovido pela União Européia. Os pesquisadores da UE constataram que o TX Active absorve e elimina de 20% a 75% dos poluentes atmosféricos.

O teste com o óxido de nitrogênio (NOx) foi realizado simulando as condições atmosféricas, ou seja, diluindo o NOx com ar até alcançar uma concentração de poluentes predefinida. Coadjuvado por uma lâmpada UV, uma mostra de cimento com TX Active e um identificador de bióxido de nitrogênio e outro de luminosidade, verificou-se que o percentual de NOx era 91% inferior àquele registrado inicialmente. Outros testes organizados pelo Centro Nazionale Ricerche (CNR) evidenciaram a eficácia do produto contra os chamados Volatile Organic Carbons (VOCs).

Também vale a pena ser mencionado o teste organizado em uma superfície horizontal, como a de Via Morandi, uma movimentada rua de mão dupla situada no centro de Milão. No asfalto de Via Morandi
foi aplicado uma argamassa à base de ligante fotocatalítico TX Active. Os resultados revelaram que, na parte da rua não tratada com a tecnologia da Italcementi, o teste diagnosticou uma  redução de 60% na quantidade de óxido de nitrogênio. Outra propriedade não menos relevante é que o princípio também age em ambientes fechados, desde que sejam atingidos por uma considerável iluminação solar. “O empenho a favor do desenvolvimento sustentável que sempre caracterizou o grupo Italcementi não se restringe às nossas políticas de gestão industrial, mas em uma resposta concreta ao problema da poluição nas cidades”, comenta Carlo Pesenti, conselheiro da Italcementi.

Além disso, o produto também exerce ação fotocatalítica mesmo durante um período de chuvas e não está sujeito a uma validade.
A exemplo de algumas outras grandes descobertas, o TX Active foi produto de um engano, ocorrido durante a fase final do projeto de construção da igreja romana Divens in Misericordia. A obra,
projetada pelo prestigioso arquiteto americano Richard Meier, autor de outros monumentos famosos, como o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, seria composta por três velas brancas, como aquelas usadas em embarcações de recreio. De acordo com as exigências do arquiteto, elas deveriam ser extremamente brancas, ocasião em que o grupo Italcementi entrou em cena. No papel de patrocinadora da igreja, a empresa deveria fornecer ao arquiteto o dióxido de titânio empregado
como pigmento branco. As tintas realizadas com este material são excelentes refletores de radiação infravermelha, mas o que a Italcementi ainda não sabia era que o dióxido de titânio tinha uma outra propriedade: a de absorver o smog. Uma descoberta que, claramente, a empresa se
apressou em patentear.

Hoje, diversas obras espalhadas pelo mundo, como a Cité des Arts, em Chambéry, e o aeroporto de Roissy, em Paris, empregaram o cimento antipoluição.

A empresa também oferece outros produtos da mesma linha, como o TX Arca, cimento autolimpante específico para obras sofisticadas, capaz de decompor os microrganismos que contribuem para danificar os edifícios, e o TX Aria, empregado na confecção de pinturas, argamassas e cal.
“Tudo isso nos oferece a ocasião de destacar que o cimento, quase sempre relacionado ao lugar-comum da degradação ambiental, é um produto de alta ecoeficiência, reciclável e com menor
impacto energy-intensive entre os materiais de construção”, considera Fabrizio Donerà, responsável pelas atividades da Italcementi na Itália.
Por enquanto o produto será co-me­r­cializado somente na Itália, França e Estados Unidos e, posteriormente, nos outros 19 países da Europa, Ásia, América do Norte e África nos quais a empresa possui uma sucursal.                                                                  Anelise Sanchez

 
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